Entrevista de João Tavares a Sabrina Castro para: Notícias da TV -SP

Celibato obrigatório dos padres questionado

 

– Olá, bom dia, João. Tudo bem? Seguem as perguntas para a Associação, como combinamos via WhatsApp.

Me passa seu nome completo e cargo, por favor? 

– Bom dia, Sabrina,  Vou responder direto aqui no e-mail. Meu nome: João Correia Tavares. 

  • Cargos no MFPC (Movimento das Famílias dos Padres Casados) do Brasil: Editor do Site: www.padrescasdos.org e Encarregado da Comunicação. 
  •  Cargo na Federação Latino-americana de Padres casados: Vice-presidente

 

São Luís, 12 de Junho de 2022

 A ENTREVISTA

 

1. Na opinião da associação, qual o futuro do celibato na Igreja Católica? Como os senhores se organizam para debater o tema?

R/ A nosso ver, o futuro do celibato na Igreja católica está no melhor momento da discussão interna dentro e fora da Igreja.

A pressão de dentro e de fora da Igreja, está sendo grande. Os padres estão envelhecendo e as novas vocações escasseiam sempre mais.

Acabam de chegar notícias de Barcelona e da Alemanha (daqui, há mais de ano, com ampla discussão no Sínodo alemão), onde a opinião dos que são a favor do casamento dos padres é maior do que a dos que são contra.

Perante os graves e amplos escândalos de mau comportamento sexual do clero, em todos os continentes, pior ainda, de muitos crimes de pedofilia, temos de convir que

  • tudo isso é para nós um sinal de Deus de que Ele não está de acordo com essa disciplina, esta burocracia eclesiástica (trata-se de disciplina eclesiástica, de determinação legal da Igreja latina, não de dogma de fé ou de séria fundamentação bíblica que alicerce seriamente o celibato e/ou sua necessária relação com o sacramento da Ordem);
  • e que, portanto, está na hora de mudar de rumo.

 No MFPC, há décadas discutimos o assunto e somos a favor do celibato optativo para os padres: antes da ordenação, quem quiser casa; quem não quiser fica solteiro. É assim que já acontece em várias Igrejas católicas de rito oriental, em plena comunhão com Roma, mas com padres solteiros e casados, segundo a escolha de cada um antes da ordenação.

Vemos valor no celibato, porque, de fato,

  • o padre solteiro, se quiser de fato ser padre a tempo integral, tem muito mais tempo e disponibilidade para seu ministério.
  • Mas com uma condição: que seja e demonstre ser uma pessoa realizada e feliz.
  • Padre celibatário infeliz, ranzinza, neurótico, alcoólatra ou infiel ao seu voto de celibato, com certeza não é exemplo positivo para ninguém.

Por outro lado, o padre celibatário que em vez de se dedicar totalmente ao  ministério, se torna psicólogo, professor ou qualquer outra profissão, fica padre em tempo parcial. Para isso não precisa ser celibatário…

 

2. Eu também gostaria de entender um pouco da história da “lei” do celibato na Igreja. Por quê ela foi criada, afinal?

 R/  Jesus não impôs o celibato: Pedro era casado e talvez outros Apóstolos também. Até ao século III não existia a norma do celibato obrigatório. O celibato como opção de vida começou a aparecer entre os monges no século III. Até ao século XI não existia a norma do celibato obrigatório. Muitos padres e bispos diocesanos eram casados.

Mas devido à frequente degradação moral entre o clero, o tema do celibato obrigatório veio à tona com força no século XII com os papas Leão IX e Gregório VII.

Os dois concílios de Latrão, de 1123 e 1139 tornaram o celibato obrigatório para todos os clérigos. Era proibidos de casar ou de ter concubinas.

Só que, até ao século XV, mesmo com a obrigatoriedade do celibato, o concubinato continuou a ser prática muito comum entre os padres. Por isso o Concílio de Trento, em meados do século XVI, confirmou vigorosamente o celibato obrigatório para o clero.

Principais motivos para esta norma?

  • Restaurar a moral sexual dos padres,
  • deixá-los mais livres para o trabalho pastoral,
  • se defender de brigas de eventuais filhos pelos bens eclesiásticos.

 

3. Quando eu fiz Crisma, o professor mencionou que a ideia era que o padre não tivesse de se dividir entre o sacerdócio e a família; ou seja: não correr o risco de colocar a família na frente dos deveres como padre. Os senhores acreditam que este argumento é válido?

R/  Em parte, sim, se bem que temos muitos bons pastores não católicos (não gosto da palavra “evangélicos”, porque o Evangelho não é posse exclusiva deles!) que harmonizam bem a família e o pastorado.

Por trás da obrigatoriedade do celibato imposta aos jovens que querem ser padres, estão três coisa importantes:

  • O medo e um certo desprezo pelo sexo, por influência de Platão para quem o corpo era uma mal e a prisão ou sepulcro da alma  (soma sema tes psikés) ; que chegou até à Igreja primitiva através de neoplatónico Agostinho, o devasso que se converteu e se tornou bispo de Hipona,  mas que também teve um filho, Adeodato, que não assumiu e deixou com a mãe). Como fazem muitos padres e até bispos, no passado recente e ainda hoje. Com o beneplácito da hierarquia. Pelo menos até Bento XVI.
  • A necessidade de ter um “exército” de homens solteiros, livres do “empecilho” da Família, para irem para onde o bispos os mandam, em obediência irrestrita e rápida.  Padre a tempo integral, em obediência cega ou quase cega, sem preocupação com esposa e filhos. Só esqueceram que ele também é um homem, uma animal racional sexuado, com necessidades biopsíquicas inelutáveis.
  • O medo de ter de dividir os bens eclesiásticos com a Família do padre, quando ele falecesse.

Se bem que este é um fraco argumento, porque os bens são da Paróquia ou diocese, e não do Padre. Porque na Igreja Católica,

  • diferente de alguns pastores neopentecostais escandalosamente milionários donos de igrejas e de tudo o que os fiéis oferecem de dízimo,
  • padres e bispos não são donos dos bens da Igreja e dos dízimos
  • que são administrados por um Conselho Econômico.

 

4. Como funciona o processo de carta ao Vaticano? Os padres podem se casar antes de chegar a dispensa do Papa?

R/  Para iniciar o Processo canônico de pedido para deixar o estado clerical do clero diocesano, o interessado fala com o seu bispo e responde a um questionário preparado pelo Tribunal eclesiástico da Diocese.

Ou redige uma exposição de motivos justificando, com sólidos argumentos, o seu pedido.

Se for de Ordem ou Congregação religiosa, o Processo é feito através dos Superiores do interessado.

Há casos graves em que a iniciativa do Processo de Perda do Estado Clerical vem de cima para baixo: é imposto ao “réu” de algo muito grave.

 

5. Pelo que pesquisei, o papa discutiu a ordenação de homens casados em comunidades remotas em 2019. Como isso reverbera no debate sobre o celibato em geral?

 R/  É um assunto que vem sendo debatido há alguns anos. Mas é bastante  complexo e, a meu ver, precisa amadurecer mais.

Alguns questionamentos:

– Padre ainda precisa de dois Cursos Superiores, de Filosofia e Teologia?

– Valeria a pena , no forte clericalismo imperante hoje na Igreja, muito reforçado por João Paulo II e Bento XVI, e que Francisco tanto critica, ordenar homens casados para continuarem no mesmo estilo de clericalismo, de terem a última palavra na Igreja onde leigo só pode dizer: Amen?

– Não poderia haver dois tipos de padres:

  • os de formação ampla, como os atuais
  • e os de formação mais reduzida, para as comunidades remotas?

Mas se prevalecer a ideia teológica de que todo o cristão tem direito aos sacramentos, sobretudo à Eucaristia e à Reconciliação,

  • por que não ordenar sacerdotes homens e mulheres capacitados e dedicados à Igreja e à Comunidade,
  • sobretudo nas regiões muito carentes de sacerdotes.

Porque, como diz o último Cânone do Código de Direito Canônico: “… tendo sempre diante dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema.” (Cânone 1752).

 

6. Como o Brasil está posicionado dentro deste espectro? Há mais ou menos conservadorismo em relação a este tópico, quando comparamos com outros países?

 R/ Minha impressão é de que este assunto está sendo muito pouco discutido no Brasil.

Quem sabe, agora na atual etapa de escuta dos leigos sobre o próximo Sínodo, o assunto venha à tona e haja um posicionamento dos padres, dos bispos e do Povo de Deus sobre este importante assunto.

  • Já tivemos um clero e um episcopado bem mais perto do Povo e bem mais afinado com o Concílio Vaticano II.
  • João Paulo II e Bento XVI, foram nomeando bispos à sua imagem e semelhança:
  • anti-Vaticano II, anti-Teologia da Libertação, anti-CEBS; política e socialmente muito menos empenhados e incisivos.

O papa Francisco não é bem-visto por bastantes padres e bispo: exige outro modo de ser padre e bispo, exige pastores com cheiro de ovelhas, padres e bispos que deixem as cúrias e as casas paroquiais, a pastoral dos templos e vão para a periferia. Mas para isso é preciso conversão, mudança de mentalidade e de atitudes…

 

Pessoalmente tenho questionado alguns bispos quanto à formação atual nos Seminários:

– Que tipo de padres e para tipo de Igreja vocês estão formando?

  • Para a Igreja do Vaticano II e das CEBs?
  • Para a Igreja celebradora de missas, novenas, festejos e procissões?
  • Para a Igreja carismática?
  • Para a Igreja das devoções, de Nossa Senhora Rainha, de Santa Rita de Cássia, etc.?
  • Para manter o status quo, sem questionar a realidade de fome, da pobreza, da injustiça, da desigualdade crescentes…?

João Tavares

 

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Sabrina,

 Espero ter correspondido às suas expectativas.  Use o que parecer oportuno

 Me reservo o direito de a publicar integralmente, como está, em nosso Site: www.padrescasados.org , como sempre fiz com as já mais de 20 entrevistas sobre padres casados e sua relação com a Igreja, dadas  por mim à imprensa nacional e internacional. No prazo máximo de 15 dias, ou logo que você usar este material no seu trabalho.

 

6 comments to Entrevista de João Tavares a Sabrina Castro para: Notícias da TV -SP

  • Irene Maria Ortlieb Guerreiro Cacais

    Parabéns João, muito bem escrito!

  • Eduardo Hoornaert

    Gostei, João. Uma boa entrevista.

  • Sandro Vespasiani

    Otimas as intervistas(de cima pra baixo).Me paresse que alguma vez dei a ideia de ver o problema + de baixo para cima + com uma pequisa de opinião publica bem feita.

  • Sandro Vespasiani

    seria interessante ver o problema, de baixo pra cima” com uma pequisa entre catolicos

  • JoãoTavares

    Sandro,é uma excelente ideia. Mas quem e como a vai realizar?
    A CNBB teria estrutura para isso.Mas será que ela teria coragem, neste assuno quente, urgente e tão incômodo para ela? Os bispos verdadeiramamente corajosos me parecem ser bem poucos no Brasil atual.

  • Sandro Vespasiani

    Grande João, vamos tentar ajuda por aqueles poucos bispos. O rebuliço vai ser grande; os outros bispos que não quiserem, fiquem aguardando. Eu acho que se fossemos pedir ao Francisco ele não seria contra.Ele quer que a BASE se movimente e não que espere tudo de CIMA

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