Padres casados se unem para acabar com ‘martírio’ de Tenório em “Além da Ilusão”

NA VIDA REAL

DISCUTINDO O CELIBATO OBRIGATÓRIO DOS PADRES, AGORA TEMA DA NOVELA “ALÉM DA ILUSÃO”

 

Tenório (Jayme Matarazzo) em Além da Ilusão (Foto: Reprodução)

SABRINA CASTRO – 10 junho 2022

Foto: Tenório (Jayme Matarazzo) em Além da Ilusão (Foto: Reprodução) 

Movimento das Famílias dos Padres Casados debate o celibato compulsório aos sacerdotes; Tenório (Jayme Matarazzo) aprovaria a ideia em Além da Ilusão

 

Ao se apaixonar por Olívia (Debora Ozório), Tenório (Jayme Matarazzo) se viu preso em uma encruzilhada em Além da Ilusão  [Novela das 28:00 na Globo – NDdR].

Ele desejava servir como padre para o resto da vida, mas o amor atravessou radicalmente seus planos na novela das seis na Globo.

Entre seguir no sacerdócio ou formar uma família, ele escolheu a segunda opção.

O MFPC (Movimento das Famílias dos Padres Casados), porém, defende que isso nem deveria ser uma questão.

Por que, afinal, os padres são obrigados a aderirem ao celibato?

  • O grupo defende que a Bíblia não faz referência a essa regra.
  • Até Pedro, apóstolo de Jesus e o primeiro papa conforme as escrituras, era casado.
  • No século 3, alguns monges optaram por não ter família.

Mas só no século 11 que o celibato foi instaurado como norma pela Igreja.

“Os motivos?

  • Restaurar a moral sexual dos padres,
  • deixá-los mais livres para o trabalho pastoral
  • e se defender de brigas de eventuais filhos pelos bens eclesiásticos”,

explica João Correia Tavares, vice-presidente da Federação Latino-americana de Padres Casados, em entrevista ao Notícias da TV.

  • Os sacerdotes até se mantiveram longe do casamento, mas não se livraram das concubinas.
  • A prática era tão comum que a Igreja teve de reforçar o celibato oito séculos após a primeira ordem.

Afinal, uma relação casual poderia, com muita facilidade, resultar em um herdeiro –ainda mais em uma época em que não existiam métodos contraceptivos.

“Os bens são da paróquia ou diocese, e não do padre ou do bipo.

  • Na Igreja Católica, diferentemente de alguns pastores neopentecostais escandalosamente milionários donos de igrejas e de tudo o que os fiéis oferecem de dízimo,
  • padres e bispos não são donos dos bens da igreja -que são administrados por um Conselho Econômico”,

argumenta.

Tenório e Olívia se beijam em Além da Ilusão (Foto: Reprodução / Globo)

Tenório (Jayme Matarazzo) e Olívia se beijam em Além da Ilusão (Foto: Reprodução / Globo)…

 

Bem mais embaixo

Se a briga pela herança não explica o celibato em sua totalidade, um dos argumentos faz mais sentido para justificar a norma:

o padre solteiro tem mais disponibilidade para seu ministério.

  • “Por trás dessa obrigatoriedade, há a necessidade de ter um ‘exército’ de homens solteiros, livres do ‘empecilho’ da família,
  • para irem para onde os bispos os mandam, em obediência irrestrita e rápida. Padre a tempo integral, em obediência cega ou quase cega, sem preocupação com esposa e filhos.

Só esqueceram que ele também é um homem, um animal racional sexuado, com necessidades biopsíquicas inelutáveis”, completa.

Muitos pastores não católicos conciliam família e o pastorado, como ressalta João. O importante é ser feliz com as suas escolhas.

“Padre celibatário infeliz, ranzinza, neurótico, alcoólatra ou infiel ao seu voto de celibato com certeza não é exemplo positivo para ninguém”, opina.

O celibato é também herança da mentalidade que coloca o sexo na posição de inimigo. Tal deturpação remonta ao filosofo Agostinho de Hipona (354-430), um devasso que se converteu e virou bispo.

  • Ele defendia os ideais de Platão (428 a.C.- 348 a.C.), filósofo grego que, de certa forma, defendia que corpo e alma não se completavam:
  • o primeiro era apenas o sepulcro da segunda,
  • e decisões não deviam ser tomadas guiadas pelo que é material.

Aproveitar os prazeres propiciados pelo corpo, então, não passaria de um desvio em uma vida dedicada ao lado espiritual. Não seria possível, de acordo com essa teoria, conciliar as duas coisas.

Por trás de toda sua filosofia, porém, Agostinho escondia um filho. Ele nunca assumiu Adeodato (372-391), que foi criado apenas pela mãe:

“Como fazem muitos padres e bispos, no passado recente e ainda hoje. Com o beneplácito da hierarquia, pelo menos até o [papa] Bento XVI”, conta Tavares.

 

Tal qual Tenório

Antonio Evangelista, presidente do Movimento da Família dos Padres Casados [do Brasil], conhece bem os argumentos contra o celibato. O advogado, afinal, viveu isso na pele: ele deixou o sacerdócio após 11 anos, quando decidiu se casar com uma paroquiana.

O sacerdote deixou o trabalho na roça em Pombal, na Paraíba, para frequentar um seminário em Brasília. Foram seis anos de estudo antes da ordenação, em 1989.

De lá, seguiu para sua missão: espalhar a palavra de Deus em comunidades remotas.

Em janeiro de 1990, Evangelista já estava instalado em Samambaia, uma comunidade pobre no interior de Goiás.

“Não havia nenhuma igreja construída, o que me fez celebrar as missas ao ar livre com muita poeira nos primeiros anos”,

relembra, em entrevista ao Notícias da TV.

  • Já em novo cargo e em uma paróquia no centro de Brasília, o clérigo conheceu sua futura mulher.
  • Quatro anos depois, encaminhou uma carta aos seus superiores para largar a batina e formar família com aquela por quem se apaixonou.

Da relação, nasceram dois filhos: Dimarco, de 21 anos, e Theodoro, 18.

Para sustentar sua recém-formada família, o padre recorreu à carreira de professor. Ele lecionou filosofia e, atualmente, está aposentado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal. Para completar a renda, abriu seu próprio escritório de advocacia.

Passos semelhantes ao de Tenório na ficção, que se rendeu à Tecelagem Tropical para viver seu romance com Olívia. Afinal, como ressaltou o padre  Agnaldo (Jaime Leibovitch) no folhetim das seis, existem várias formas de servir a Deus.

  • “Se você ama profundamente uma moça, a ponto de formar uma família com ela, você também está amando Deus. Você sempre O amará acima de todas as coisas.
  • Mesmo casado, Tenório, você também pode estar a serviço de Deus”,

disse o sacerdote, diante do martírio que o amigo atravessava.

 

Nova mentalidade

Ao que tudo indica,

  • Tenório continuará espalhando seus conselhos valorosos pela Vila Operária.
  • Assim como Evangelista levantou reflexões em suas aulas,
  • e Tavares leva aos associados do Movimento das Famílias dos Padres Casados.

“Minha impressão é de que este assunto está sendo pouco discutido no Brasil. Pessoalmente tenho questionado alguns bispos quanto à formação atual nos seminários.

  • Para quem estamos formando novos padres?
  • Para o Vaticano?
  • Para a Igreja celebradora de missas, novenas, festejos e procissões?
  • Para a Igreja carismática?

Ou para manter o status quo, sem questionar a realidade de fome, da pobreza, da injustiça, da desigualdade crescentes?”,

questiona o vice-presidente da Federação Latino-americana de Padres Casados.

 

Sabrina Castro

Jornalista – (11) 97495-5621

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Fonte: Enviado, via e-mail pela autora

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