Há desigualdades que matam

A desigualdade mata – DMT – Democracia e Mundo do Trabalho em Debate

frei Bento Domingues, O.P. – Imagem: Reprodução

Quem poderá fechar os olhos, os ouvidos e o coração perante a vergonha descrita no último relatório da Oxfam?

 

 

1. Vivemos, como humanos, na e através das experiências da linguagem, ou melhor, das linguagens. A significação das nossas concepções, afirmações e negações depende do seu uso. O uso profano e religioso não são da mesma ordem, embora se possam servir das mesmas palavras. A diferença da linguagem do sagrado nota-se, sobretudo, no culto [1].

Quando, no Credo, dizemos que Jesus Cristo

  • desceu dos céus,
  • foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos,
  • ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus onde está sentado à direita do Pai,

só tem sentido no âmbito das confissões de fé. Fora desse contexto, presta-se ao ridículo.

 

Por outro lado, essas expressões nasceram num contexto cultural que já está muito longe das nossas experiências actuais de relação entre o sagrado e o profano.

A interpretação da linguagem simbólica

  • não é para a superar, mas para a entender e há metáforas vivas e metáforas mortas.
  • Se as religiões e o diálogo inter-religioso quiserem ser compreendidos, para além do seu âmbito,
  • têm de mostrar o seu sentido para dimensões da existência humana que transcendem as verificações científicas.

O saudoso P. João Resina, professor de Física durante 30 anos e um cristão fervoroso, era também discípulo de Kant, para o qual há três questões fundamentais:

o que posso saber, o que devo fazer, o que me é lícito esperar.

À primeira responde a ciência, à segunda, a ética e à terceira, a religião.

Gostava de sublinhar: uma coisa é tentar compreender o universo. Para isso há a física e a biologia.

  • Se quero saber se houve ou não big bang, se a vida evoluiu ou não, não pergunto à Bíblia, não pergunto à Igreja, que não tem competências nessa matéria.
  • Era alérgico à confusão entre a linguagem da ciência e a da fé.
  • Para Kant, a pergunta que resume todas as outras é esta: o que é o ser humano?

A esta responde a antropologia.

  • Não é por acaso que o Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado pelo Papa Francisco e o Grão-Imame Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, a 4 de Fevereiro de 2019,
  • será adoptado pela República de Timor-Leste como um documento nacional,
  • a ser implementado nas instituições educacionais e culturais desta nação do Sudeste asiático, como deseja o seu actual Presidente, Ramos-Horta.

 

2. Segundo os Actos dos Apóstolos que estamos a ler na liturgia, o primeiro dia da semana é sempre o Domingo, que não é um dia depois do Sábado. É um começo novo. A encenação que Lucas faz do início da Igreja cristã

  • supõe um período de múltiplas manifestações do Ressuscitado, a discípulas e a discípulos,
  • e também o tempo que nós vivemos sem a experiência misteriosa desses encontros.

Lucas quer marcar que a Igreja nascente levou tempo a despedir-se de uma restauração política de Israel.

Nasce, então, a narrativa da Ascensão, isto é, o modo que encontraram para figurar a renúncia a essa nostálgica tentação.

A melhor maneira era de mostrar que os discípulos não podiam continuar a manipular frutos da imaginação do poder. Cristo era absorvido pelo irrepresentável mistério de Deus, pois, o céu não é um lugar, mas nós vivemos sempre em categorias de tempo e espaço.

  • Ao dizer que Cristo subiu aos céus, significa que Cristo entrou na dimensão do divino, sem tempo e sem lugar.
  • É por isso que surgem figuras da divindade a dizer: a vossa missão não se deve perder no passado, mas agir no presente aberto ao futuro.

Este Papa não tem dias nem semanas suficientes para colocar a Igreja actual em movimento:

  • a intensificação e alargamento do diálogo inter-religioso, para que as religiões sejam caminhos de paz e não de guerra;
  • para que a Laudato Sí’ não seja arquivada, mas concretizada, dedicou-lhe, de novo, uma semana de estudo e conscientização que termina hoje, não para ser encerrada, mas relançada;
  • o dia 31 deste mês será dedicado aos meios de comunicação social, estimulando os jornalistas a escutar os acontecimentos com o ouvido do coração.

Além disso,

  • a preparação do Sínodo 2023 está em andamento para que, de novo, se torne o próprio estilo de viver em Igreja;
  • a erradicação do abuso sexual nas comunidades cristãs;
  • a preparação do Domingo, 24 de Julho, 2022 — 2º Dia Mundial dos Avós e dos Idosos — já comçou com o tema Dão fruto mesmo na velhice
  • e pretende destacar a que ponto os avós e idosos são um valor e um dom, tanto para a sociedade, como, para a comunidade eclesial.

Este tema, segundo uma nota do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, é também um convite a reconsiderar e valorizar os avós e os idosos, frequentemente deixados às margens das famílias, das comunidades civis e eclesiais.

A experiência de vida e de fé deles pode contribuir, com efeito,

  • para construir sociedades conscientes das suas próprias raízes
  • e capazes de sonhar um futuro mais solidário,
  • fundamental para uma concepção intergeracional da aventura humana [2].

 

3. Há muito que o Papa Francisco alertou as Igrejas, as religiões e a sociedade para uma realidade em que não se queria pensar: estamos a viver a III Guerra Mundial aos bocados.

  • A guerra, pela invasão da Ucrânia, veio ter com um Ocidente distraído.
  • Agora, tornou-se o assunto das televisões, das rádios, dos jornais, das redes sociais.

Francisco ofereceu-se para ser mediador de paz entre a Rússia e a Ucrânia.

  • Está a enviar continuamente delegados ao povo sofredor.
  • As consequências desta guerra absurda — como são todas as guerras — já se fazem sentir a nível mundial e os negócios das armas estão a enriquecer os muito ricos.

Por falar em ricos, Victor Ferreira, no PÚBLICO (25/05/2022),

  • fez eco ao Relatório da Oxfam, Lucrando com a dor,
  • dizendo com ironia que os multimilionários que estão no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, têm muito que celebrar.

“Durante a pandemia de covid-19, a sua fortuna atingiu picos estonteantes e sem precedentes. A pandemia — um tempo cheio de dor para a maioria da humanidade — tem sido um dos melhores momentos na história dos multimilionários.”

A referida confederação internacional de luta contra a pobreza

“afirma que

  • nos últimos dois anos surgiram 573 novos multimilionários, ou seja, um novo milionário a cada 30 horas,
  • ao mesmo tempo que mais cerca de 263 milhões de pessoas correm risco de pobreza extrema em 2022 — ou seja, um milhão de pobres a cada 33 horas —,
  • devido às consequências da pandemia e por causa do custo crescente da alimentação”.

“A Oxfam quer, acima de tudo,

  • destacar que o crescimento rápido dessas fortunas hoje em dia e a crise no custo de vida enfrentada por milhares de milhões de outras pessoas são duas faces do mesmo fenómeno.
  • Isto não é apenas algo que está a acontecer, enquanto eles mandam; isto está a concretizar-se de forma deliberada com o seu apoio.”

Os relatórios desta organização pedem, em Davos, medidas contra “uma desigualdade que mata” [3].

Quem poderá fechar os olhos, os ouvidos e o coração perante esta vergonha?

 

Notas:

[1] Cf. Leszek Kolakowski, Si Diós no Existe…,Tecnos, 1995; Juan Martin Velasco, Metamorfosis de lo Sagrado y Futuro del Cristianismo, Sal Terrae, 1999.

[2] Cf. www.vatican.va.

[3] Para muitos outros dados, ver na Internet os relatórios da Oxfam.

 

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Frei Bento Domingues

in Público, 29.05.2022

https://www.publico.pt/2022/05/29/opiniao/opiniao/ha-desigualdades-matam-2007843

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