A invenção do papado.

Rome and the Invention of the Papacy

Eduardo Hoornaert – 22 maio 2022.

 O texto que aqui publico é um comentário do livro, escrito pela historiadora inglesa Rosamond McKitterick, intitulado

Rome and the Invention of Papacy: The ‘Liber Pontificalis’ (‘Roma e a invenção do papado: O ‘Liber Pontificalis’) e editado em Cambridge, na Cambridge University Press, em 2020.

Autoridade inconteste em estudos acerca dos tempos carolíngios na Europa, ou seja, do período entre o século VI e IX, McKitterich produz incansavelmente publicações de ordem historiográfica, com grande criatividade e reconhecida competência.

Todas as fotos: Reprodução

 

NOTA DA REDAÇÂO:

Apesar de bastante longo para a estrutura de nosso Site, acho que vale a pena propor à atenção de nossos leitores este excelente texto do historiador, filósofo e teólogo Eduardo Hoornaert. O assunto é importante demais e de muita atualidade numa Igreja que quer ser “Igreja em saída, rumo às periferias”, a exemplo de Jesus – JT – Editor

O livro da historiadora faz parte de uma investigação mais ampla. Ela focaliza o papel exercido por escritos na formação e consolidação de autoridades políticas e religiosas na Alta Idade Média, uma época em que a grande maioria do povo não dominava a leitura.

Dessa relação entre poucos letrados e muitos iletrados resultou, no dito período (entre os séculos VI e IX)

  • uma intensa manipulação do passado, basicamente por meio da criação de narrativas que se apresentavam como relatos históricos.  Fake News, diríamos hoje.
  • A historiadora sustenta que o ‘Liber Pontificalis’, concebido e desenvolvido nos referidos séculos, e que contém uma impressionante listagem de papas desde São Pedro, entra nesse rol, ao plasmar uma visão da igreja e do papado que, em grandes linhas, permanece até nossos dias.

O livro de McKitterich merece ser lido ao lado de outro, igualmente publicado em 2020 e escrito em espanhol: Acerbi, S. & Teja, R., El Primado del Obispo de Roma. Orígenes históricos y consolidación en los Siglos IV-VI (Trotta, Madrid).

O tema é do mais vivo interesse:

  • donde se originou o papado?
  • Das próprias palavras de Jesus, dirigidas a Pedro e registradas no capítulo 16 do Evangelho de Mateus?
  • De uma lenta evolução, desde as peregrinações a Roma, passando pela interpretação do bispo Cipriano para desembocar na teoria da ‘sucessão apostólica’, tal qual se apresenta na ‘História Eclesiástica’ de Eusébio de Cesareia?
  • Ou de uma dinâmica inerente à ideologia imperialista, concretizada na figura de ‘Roma Eterna’, tal qual vai expressa no ‘Liber Pontificalis’?

Convido você a sobrevoar os panoramas acima assinalados, para, depois, tirar alguma conclusão.

 

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‘Pela intercessão dos Santos Apóstolos’.

Desde as origens do cristianismo, peregrinos, iletrados em sua grande maioria, viajam a Roma a venerar os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo. Mas não é só a Roma que concorrem peregrinos.

  • Em Alexandria se procura a intercessão de Marcos Evangelista,
  • em Antioquia se invoca o Confessor Inácio,
  • em Éfeso se cultiva de João Apóstolo,
  • em Jerusalém se venera Tiago Apóstolo,
  • e, a partir do século IV, em Constantinopla se rememora André Apóstolo.

Um sonho frequentemente acalentado durante anos ou mesmo ao longo de toda uma vida: ir ad limina apostolorum, ou seja, passar ‘pelo umbral’ de uma igreja devotada a apóstolos.

Em Roma, concretamente, isso significa visitar uma série de ‘basílicas’, como

  • São Pedro no Vaticano,
  • São Paulo ‘fora dos muros’,
  • Santa Maria ‘Maior’,
  • Santa Inês, etc.

Há de deixar, em cada uma dessas basílicas, ‘óbolos santos’, que – não raramente – representam economias reunidas ao longo de toda uma vida. São esses óbolos que, ao lado de doações provenientes do poder público, permitem construir, engrandecer, melhorar e embelezar ditas basílicas, ao longo de séculos.

 

Qual a força histórica que impulsiona e unifica esse processo?

Aqui aparece um nome decisivo: a ‘intercessão’. Ir a Deus ‘por intercessão’ dos/das santos/as.

Nos tempos do Império Romano, como nos mostram historiadores como Peter Brown e J.D. Crossan (veja, por exemplo:

  • Peter Brown, A Antiguidade Tardia, em: Ariès, Ph., e Duby, G.(org.),
  • História da Vida Privada, vol. 1, Companhia das Letras, São Paulo, 1990/1, pp. 225-299,
  • ou ainda: Crossan, J.D. & Reed, J.L., Em Busca de Jesus. Debaixo das pedras, atrás dos textos, Paulinas, São Paulo, 2007),

o que mantém coesão, na sociedade romana, é a ‘intercessão’.

Como faltam políticas sociais, o recurso de uma vida melhor, e por vezes até da sobrevivência, depende da intercessão, do ‘apadrinhamento’.

O Império Romano pode ser caracterizado como ‘um império de intermediários’, composto de um sem-número de pirâmides sociais de apadrinhamento, cujo topo é constituído,

  • seja por uma família influente de latifundiários, por um funcionário do Império, um ricaço, um negociante influente,
  • seja – no plano eclesial/religioso – um líder religioso, um bispo, um ‘santo padroeiro’.

Uma relação paradoxal, mas que funciona: ‘fracos’ a serviço de ‘fortes’, dos quais dependem e ‘fortes’ intercedendo por ‘fracos’.Os processos de apadrinhamento são os mais variados, e recebem os mais diversos nomes.

Em todo canto se encontram pessoas que protegem, e – em contrapartida –

  • são tratadas por meio de termos que sugerem relacionamentos familiares, como ‘padrinho’, ‘padre’, ‘papa’, ’padroeiro’, ‘patrão’, ‘patriarca’.
  • Os camponeses bem sabem que só com as boas graças do fazendeiro, do ‘patrão’, chegam a alcançar alguma coisa na vida.

O ‘afiliado’ ou afilhado, pode chegar a ser alguém, o outro desaparece no anonimato.

Na realidade, o padrinho é a face mansa do senhor (de terras e de pessoas).

  • Senhor e escravo, sim, mas, ao mesmo tempo padrinho e afihado.
  • Senhores padrinhos versus escravos afilhados.
  • Eis a relação que sustenta o Império.

A rede de apadrinhamentos cobre a sociedade como um todo, inclui associações, grupos, municípios e cidades inteiras. Todos têm seu ‘padrinho’.  A ‘amizade’ faz funcionar o sistema.

Ela constitui, ao mesmo tempo, a dinâmica moral que mantém a sociedade coesa, e o alicerce da representação política. As reais relações de poder se apresentam camufladas pela ‘amizade’.

Estamos diante de uma estrutura social, cultural e política de ‘longa duração’.

Aos poucos, a moral da amizade e do ‘apadrinhamento’ penetra nas comunidades cristãs.

  • Não só os apóstolos, evangelistas, confessores e mártires se tornam ‘padroeiros’,
  • mas igualmente os líderes religiosos, doravante chamados ‘padres’, ‘patriarcas’, ‘papas’.

O termo ‘papa’, até o século III,

  • não é privativo do bispo de Roma, mas costuma ser usado para se dirigir a líderes religiosos particularmente apreciados.
  • Santos protetores no céu, padres e papas na terra.
  • Tece-se uma rede de relações ‘padrinho-afilhado’ e ‘santo-devoto’, que, com o aumento de fiéis, vira uma maré irresistível a atingir as praias das comunidades cristãs.

Assim, a base do prestígio de Roma, numa primeira visão panorâmica,

  • não está tanto no fato que aí reside um bispo que se diz sucessor do Apóstolo Pedro,
  • mas sim no fato de ela abrigar os túmulos dos dois apóstolos maiores do cristianismo,
  • onde se pode conseguir ‘graças’, ‘intercessão’, ‘proteção’.

Prevalece o fator devocional, a ‘intercessão’.

 

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Cipriano.

Cipriano (200-258), bispo de Cartago, no Norte da África, é primeiro escritor cristão a desvincular as imagens devocionais de Pedro e Paulo e falar na cathedra Petri. Nada de privativo.

Para ele, cada ‘sé’ episcopal é ‘cathedra Petri’.

  • Em cada comunidade, o bispo segue o ministério de Pedro, ele mesmo seguidor de Jesus. Nada de especial com Pedro.
  • Mas, como Roma é capital do Império, a igreja de Roma é a ecclesia principalis (a igreja principal – NdR), com a função de manter a unidade entre as comunidades espalhadas pelo mundo, por toda a ‘oikoumenè catholikè’, (o universo de igrejas espalhadas pelo mundo).
  • O primado do bispo de Roma é, pois, de ordem moral. Ele é o ‘primus inter pares’, o ‘primeiro entre irmãos iguais’. Ele tem de dar o exemplo.

Interessante observar que essa visão de Cipriano

  • encontra eco em diversos textos do Concílio Vaticano II
  • e é assumida com entusiasmo por teólogos da época, como Edward Schillebeeckx e Yves Congar.
  • E hoje pelo Papa Francisco: Cipriano ‘patrono’ da sinodalidade, da unidade sem hegemonia, da autonomia dos episcopados locais.  

O papa é o primeiro, sem dúvida, mas entre pares: ‘primus inter pares’.

 

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Eusébio de Cesareia.

História Eclesiástica por [Eusébio de Cesareia]

No século IV entra o bispo historiador Eusébio de Cesareia (265-339), que escreve uma obra que faz história, intitulada História Eclesiástica (São Paulo, Editora Paulus, 2000, volume 15 da Coleção Patrística).

Eusébio transporta estruturas eclesiásticas do século IV para as origens do movimento de Jesus.

  • Para ele, os apóstolos são bispos. Anacronismo flagrante.
  • A partir dessa premissa, ele tenta provar uma ‘sucessão apostólica’ ininterrupta, por meio de bispos. Anacronismo, sem dúvida.

Escrever que o escritor Clemente Romano é o terceiro bispo de Roma, sucessor de Lino e Anacleto, sem apresentar provas, é algo que, no mínimo, é aleatório.

  • Mesmo assim, nos capítulos 4 a 7 de sua ‘História’,
  • Eusébio monta listas ininterruptas de bispos monárquicos, nas diversas regiões por onde se espalham as comunidades cristãs, do tempo dos apóstolos até o século IV.

Com isso, ao longo de 261 breves capítulos, Eusébio tenta provar que

  • a sucessão ininterrupta de bispos locais, apresentados como herdeiros dos apóstolos, no governo de igrejas locais,
  • é a maior garantia de fidelidade ao evangelho, ao longo dos tempos.

A história da igreja apresenta-se como uma história de sucessões apostólicas.

Para conseguir seu intento, Eusébio tem de provar que o apóstolo Pedro foi à Roma.

O que sabemos a respeito desse assunto?

  • Nos Atos dos Apóstolos, 12, 17 se escreve que Pedro, em 43, saiu de Jerusalém e foi para outro lugar. Mas não especifica qual seria esse lugar.
  • Os mesmos Atos não trazem nenhuma informação acerca de Pedro entre 43 e 49.
  • Só reencontramos o apóstolo em Jerusalém no ano 49, por ocasião da visita de Paulo.

Informações indiretas nos chegam por parte de historiadores romanos, que acusam alguma atividade missionária cristã em Roma entre 43 e 49.

Assim, o historiador romano Suetônio conta que o Imperador Cláudio expulsa da cidade judeus, apresentados como agitadores sob o incentivo de um Chrestos. Isso em 49.

Essa informação combina com o fato que,

  • em 51, Paulo encontra em Corinto um casal expulso de Roma: Aquila e Priscila,
  • e em 57 ele escreve a Carta aos Romanos, o que prova que ali já existe uma comunidade cristã.
  • Ele mesmo encontra cristãos em Puteoli e Roma por ocasião de sua viagem em 60 (Daniélou, J. e Marrou, H., Nova História da Igreja, vol. 1, Vozes, Petrópolis, 1967, p. 52).

Mas nada acerca de uma viagem de Pedro a Roma.

Eusébio passa por cima disso tudo e escreve redondamente que

  • Pedro foi a Roma no início do reino de Cláudio, ou seja, por volta do ano 44 dC (HE, 2, 14, 6).
  • O motivo alegado: exercendo a missão de expulsar ‘sopros imundos’ (exorcismos), a ele conferida por Jesus, Pedro viaja a Samaria, uma terra tradicionalmente hostil ao judaísmo.
  • Aí, ele encontra um exorcista rival, de nome Simão Mago (Atos dos Apóstolos, 8, 14).

Eusébio conta então

  • que esse Simão teria ida a Roma para mostrar ali a eficiência de seu trabalho.
  • E que Pedro o seguiu, levado a Roma pela providência do universo, para combater o usurpador, desafiador do movimento de Jesus.

Pedro

  • parte (sempre segundo Eusébio) revestido de uma armadura divina,
  • combate como um nobre capitão de Deus
  • e consegue trazer a luz espiritual do Oriente para o Ocidente,

enquanto Simão sai de cena (HE, edição Paulus, pp. 87-89).

Historiadores da igreja da época do Concílio Vaticano II, como Daniélou, Jedin e outros, encaram essa história de Pedro em Roma com muita reserva. Você encontra material sobre essa discussão na Revista Concílium do tempo do Concílio Vaticano II e na Revista de Teologia latino-americana.

Eusébio avança igualmente a ideia de uma repartição territorial das áreas de influência na igreja, já entre os apóstolos.

  • Ora, a diocese, uma ordenação administrativa do Império romano, só entrou no organograma da igreja católica no século IV.
  • Quando o historiador, nos capítulos 4 a 7 de sua História Eclesiástica, elabora listas de bispos ‘diocesanos’ que remontam até os apóstolos,
  • ele comete outro anacronismo.

No final desta breve análise, chamo a atenção para um detalhe importante:

  • embora tão interessado em relacionar a sucessão apostólica à figura de Jesus,
  • Eusébio não comenta o trecho evangélico Tu és Pedro (Mt 16, 13-20).

 

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O ‘Liber Pontificalis’.

Aqui entra o estudo da historiadora McKitterick (foto: Reprodução).Rosamond McKitterick - Hay Festival - Hay Player Audio & Video

  • Ela nos coloca diante de um panorama bem  diferente e põe um novo ator em cena: a Roma Imperial.
  • Roma ‘inventa’ o papado, sustenta McKitterick.
  • Como prova, ela apresenta o ‘Liber Pontificalis’.

Trata-se de uma compilação de diversos textos que tratam da história do papado romano ao longo de diversos séculos, sob os mais diversos títulos, como ‘Liber Episcopalis’,Gesta Pontificum’, ‘Chronica Pontificum’ ou ainda ‘Actus Gestorum a beati Petri Apostoli principato usque ad nostra tempora’ (‘Livro episcopal’, ‘Feitos memoráveis de Pontífices, ‘Crônica dos Pontífices’, ‘Atas desde o principado do beato Pedro Apóstolo até nossos tempos’).

Compilações que, nos chamados ‘tempos carolíngios’, entre os séculos VI e IX, desembocam num único texto.

R. McKitterick está bem colocada para tratar do assunto, pois é autoridade reconhecida na historiografia dos referidos séculos.

OMNIA - Liber pontificalisOutro nome que merece ser mencionado aqui é o do historiador francês L. Duchesne (1843-1922), sacerdote católico, filólogo e historiador renomado, que publicou, entre 1886 e 1892, dois volumes sob o título: Le Liber Pontificalis: Texte, Introduction et Commentaire (diversas edições, veja Internet).

Na Introdução, o historiador francês descreve a evolução, gradual e irregular, do texto, ao longo de muitos séculos.

  • Os dados referentes aos primeiros seis séculos são raramente identificáveis.
  • Chegou-se a um texto mais consistente a partir dos séculos V ou VI, quando se inicia o registro, logo depois da morte de um ‘Pontífice’, de dados biográficos a seu respeito.

O próprio título ‘Liber Pontificalis’ só aparece no século XII e só se torna corrente no século XV.  A ampla divulgação da obra, entre os séculos VIII e XVIII (ao longo de dez séculos), consagra o ‘Liber Pontificalis’ na memória popular.

 

No ‘Liber Pontificalis’ aparecem novos vocábulos, que comprovam de cheio a tese de McKitterick.

 

Pontífice.

O bispo de Roma, até o século IV carinhosamente chamado de ‘papa’, ganha, no ‘Liber Pontificalis’ o nome ‘Pontifex’, uma titulação imperial romana.

Ainda no século III,

  • o escritor Tertuliano, em seu tratado ‘De Pudicitia’, vê no título ‘Pontifex Romanus’ uma referência pagã, algo a dar vergonha a um cristão.
  • Mas, apenas um século depois, o próprio papa é chamado Pontífice e se ressuscita o tradicional cerimonial pontifical do Império Romano,
  • como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Revestido de vestes talares (como se fosse sacerdote romano), o Pontífice faz seu ‘introito’ na ‘Basílica’ e se dirige à ‘cathedra’, com os costumados gestos de benevolência, próprios de um potentado romano.

 

Basílica.

Os novos modos romanos se manifestam na arquitetura. Transforma-se, aos poucos, a paisagem urbana, principalmente em metrópoles como Constantinopla, Roma, Antioquia e Alexandria.

  • Já no século IV, a primeira Basílica cristã da história, a Hagia Sofia de Constantinopla (hoje Istambul), é uma imensa sala de teatro.
  • A Basílica de São Pedro, em Roma, imita o modelo.
  • Tanto em Constantinopla como em Roma, a paisagem urbana dos tempos imperiais se revesta de roupagens cristãs, mas – no fundo – não muda. Trata-se de uma substituição,

No Império Romano clássico, a Basílica e a ‘Sala de Audiência’ do Imperador.

  • Ali, ele ‘recebe’ o povo (Brown, P., A Antiguidade Tardia, em: Ariès, Ph., e Duby, G.(org.), História da Vida Privada, vol. 1, Companhia das Letras, São Paulo, 1990/1, p. 265).
  • Ela marca a topografia das grandes cidades romanas, ao lado das Termas, dos Templos, do Circo e do (Anfi)teatro, do Hipódromo e sobretudo do Fórum, lugar público por excelência.

Como as autoridades cristãs

  • fazem questão de manter distância diante de edifícios religiosos explicitamente politeístas, como os Templos,
  • e, de outro lado, procuram um espaço onde possam afirmar sua presença nas cidades,
  • elas aceitam de bom grado Basílicas eventualmente cedidas pelas autoridades,
  • reinterpretando-as como ‘Salas de Audiência de Deus’ e dando-lhe nomes de santos cristãos.

Em 340, o Imperador doa às autoridades cristãs uma grande Basílica, prontamente rebatizada sob o nome Basílica Santa Maria Maior. Ornada de esplêndidos mosaicos,

  • essa construção marca uma virada no modo em que a população de Roma enxerga sua própria cidade.
  • O Deus cristão torna-se o Imperador invisível da cidade, representado pelo Pontífice.

Tudo se ‘teatraliza’.

  • Os sacerdotes adotam o cerimonial do Império Romano,
  • os bispos herdam dos sacerdotes de Mitra as suas ‘mitras’,
  • enquanto tanto sacerdotes como bispos só aparecem de veste talar.

As autoridades da cidade entendem perfeitamente o que está ocorrendo: uma nova vida para o Império.

  • Elas beneficiam o clero das basílicas com exonerações de impostos e alocações de alimentos.
  • Assim, o clero cresce rapidamente.
  • Em seu bojo, aparece uma diversidade de ‘ordens’. Por meio da Basílica, o bispo tem acesso ao governador e outras autoridades, geralmente para interceder em favor dos pobres.

Pois a Basílica se torna, igualmente, um espaço de circulação de pobres e de socialização.

  • Ricos e pobres circulam pelos vastos espaços internos, criando um trânsito entre as diversas classes da sociedade, inusitado na sociedade romana:
  • pobres ruidosos, insistentes nas portas a pedir esmola, ao lado de ‘patrícios’ ostensivos.

Um clima de convivência e mesmo de solidariedade,

  • apesar dos contrastes nas vestes, nos olhares, na mentalidade.
  • A Basílica vira um ambiente onde pode surgir a ideia de igualdade entre todos,
  • sob o olhar penetrante e onipresente de Deus.

Trata-se de um processo de séculos.

  • No século IV, a Basílica ainda é marginal diante do Fórum, do Teatro, dos Templos, das Termas.
  • Seu destino histórico, contudo, é de se apropriar aos poucos do espaço público como um todo.

Com o tempo, as famílias ‘poderosas’

  • não colaboram mais com as obras públicas da cidade,
  • não frequentam mais o Fórum, lugar cívico por excelência,
  • não praticam mais as ‘benevolências’ a favor da cidade como um todo:

tudo se canaliza em direção das ‘obras de caridade’ promovidas pela Basílica.

Num processo de séculos,

  • o Fórum desaparece do mapa e a Basílica vai ocupando o lugar central,
  • enfraquecendo a influência dos notáveis, dos senadores, da antiga elite,
  • e promovendo o clero, o episcopado.

No final do processo encontramos uma cidade completamente diferente:

  • Fórum e Teatro vazios,
  • ruas tortuosas e estreitas conduzindo à Basílica.

Eis o ‘caminho da igreja’, trilhado por gerações e gerações, ao longo de séculos. Uma imagem que desponta em Antioquia, já no final do século IV, e que vai se aplicando, aos poucos, em Alexandria, Roma e Constantinopla.

Na Basílica,

  • o Pontífice ‘pontifica’.
  • Sua ‘Cátedra’ fica na abside, logo abaixo do olhar de Deus.
  • É lá, na ‘Sé’ basilical, que ele se revela a grande figura emergente das cidades romanas cristianizadas.

Essa dinâmica vai se revelar plenamente por volta do ano 400, com bispos do porte de Ambrósio em Milão, João Crisóstomo em Constantinopla, Agostinho em Hipona, Teófilo em Alexandria.

  • Figuras públicas que já falam em nome da cidade e mesmo – em certos casos – do Império,
  • como se evidencia na postura de Leão I em Roma, no século V: ele comporta-se como o primeiro Imperador cristão do Ocidente.

 

Nova paisagem urbana.

Em Roma, a partir do século VI, a paisagem já é totalmente ‘cristianizada’. Os monumentos de Roma antiga são substituídos por monumentos cristãos:

  • São Pedro no Monte Vaticano,
  • São Paulo ‘fora dos muros’,
  • São João no impressionante complexo arquitetônico do Latrão,
  • São Lourenço (no mesmo Latrão)
  • e Santa Inês ‘fora dos muros’ (construção iniciada em 342 e só terminada no século VII). Construções imponentes que impressionam o povo.

 

Diocese

é um termo que, em grego, significa ‘disposição de casas, distrito, região habitada’.

  • No organograma do Império Romano, a diocese é uma subdivisão territorial e administrativa
  • com a finalidade de controlar a cobrança de impostos e manter a ordem pública na mais variadas regiões do imenso Império.

Nos primeiros séculos, o cristianismo não se articula por meio de dioceses  regionais.

  • Só por meio do Decreto do Imperador Teodósio I, em 380, que confere ao cristianismo o status de religião oficial do Império Romano,
  • as autoridades eclesiásticas passam a adotar disposições administrativas territoriais.

Isso cria uma relação entre bispo e localidade, que será fundamental na ulterior evolução do cristianismo.

A diocese é uma opção administrativa fundamental, pois ela possibilita a implementação do grande projeto católico, a partir do século V.

Isso beneficia os defensores da ideia imperialista. Impressionados com as facilidades organizatórias, os bispos embarcam na política romana de unificação do Império.

  • Eles combatem as heresias e qualquer ameaça à unidade do império
  • e, desse modo, se tornam colaboradores indispensáveis da administração imperial.

Como escrevi acima, Eusébio de Cesareia já projeta a imagem da igreja diocesana sobre as origens do cristianismo.

 

Corporação.

O termo não aparece tal qual nos documentos, mas a realidade é patente. Escrevi acima que as Basílicas formam o núcleo inicial da corporação clerical.

  • Crescendo em número e importância, já no século IV, clérigos cristãos se engajam numa árdua luta com sacerdotes da oficialidade romana.
  • Eles não se sentem integrados nem devidamente respeitados na administração pública.
  • Desse modo, se unem numa corporação.

Doravante a igreja católica, em seu topo, se apresenta como uma corporação clerical.

 

Em tudo isso aparece uma força histórica: a ideia imperial. Desde antes da era cristã, Roma funciona como o ponto de convergência de um Império imenso.

  • O historiador grego Políbio (203-120 aC) já escreve: o império romano é eterno.
  • O mesmo escreve, em outras palavras, quatro séculos depois, o escritor cristão Ireneu (180-185 dC): todos os caminhos levam a Roma (Adversus Haereses, 3, 3, 1-3).

Efetivamente, para lá migram muitos que se fazem notar por seus escritos:

  • Marcião do Ponto Euxino (a. 140),
  • Justino da Palestina (a. 160),
  • o próprio Ireneu de Esmirna (entre 180 e 185),
  • e, mais tarde, já no início do século III, Tertuliano, do Norte da África.

 

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‘Tu és Pedro’

Até aqui, passamos em revista quatro imagens históricas de Pedro:

(1) a imagem popular, anônima e iletrada, dos primeiros tempos, sempre relacionada com a imagem de Paulo;

(2) a imagem, expressa pelo bispo Cipriano, no século III, do bispo de Roma como sucessor de Pedro, em pé de igualdade com seus colegas bispos;

(3) as ‘genealogias’ de bispos, apresentadas, no século IV, por Eusébio, com destaque de Pedro que, por ser bispo de Roma, capital do Império, não é mais ‘primus inter pares’: ocupa um ‘primado’ de fato.

(4) Finalmente, nos séculos VI a IX emerge a imagem do ‘Pontífice Romano’, tal qual aparece no ‘Liber Pontificalis’.

 

Resta contemplar de que modo o primado de Pedro se apresenta no imaginário cristão.

Voltamos nossa atenção para os versículos 13 a 20 do capítulo 16 do Evangelho de Mateus, especificamente para o versículo 18: Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha igreja.

A instituição católica costuma traçar uma linha direta entre os evangelhos e a igreja por meio da figura de Pedro, o apóstolo que teria sido indicado por Jesus para continuar sua obra.

O referido versículo 18 vem de cheio corresponder à expectativa da instituição no sentido de se ver fundamentada numa palavra de Jesus, como se pode verificar nas letras enormes ‘Tu es Petrus’, gravadas na cúpula da Basílica de São Pedro em Roma.

  • Ainda nos anos 1950, sob o Papa Pio XII, foram feitas escavações em baixo daquela Basílica, para ver se ali existiriam indícios de um túmulo de São Pedro,
  • mas as obras foram interrompidas por falta de evidências.

 

Leiamos atentamente a narrativa Mateus 16, 13-20.

Na região de Cesareia de Filipe, uma área fora do controle do judaísmo, Jesus faz a seus discípulos uma pergunta inusitada:

quem é que as pessoas dizem ser o Filho do Homem? (v. 13).

Eles respondem:

Uns dizem que és João Batista, outros, Elias, outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas (v. 14).

Jesus:

E vocês, quem vocês dizem que eu sou?

Aí, no v. 16,

Pedro toma a palavra e diz: ‘Tu és o Ungido, o Filho do Deus dos viventes’.

Ao que Jesus responde (vv. 17-18):

’Tu falas certo, Simão Bar-Jona. Nem a carne, nem o sangue te ensinaram o que dizes. É de meu Pai, que está nos céus, que tu recebeste (esse conhecimento). De minha parte, eu te digo que tu és Pedro e sobre essa pedra eu vou construir minha igreja. As portas de Hades não poderão fazer nada contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: o que você abrir na terra será aberto no céu, e o que fechares na terra será fechado no céu’. Em seguida, recomendou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Ungido (v. 20).

 

Há de se situar essa narrativa em seu contexto.

  • Dizer que Jesus é um profeta, como relatam os apóstolos, afinal, não é nada demais, quando se considera a mentalidade reinante.
  • Mas dizer que ele é o Ungido (‘Messias’, em aramaico, ‘Christos’, em grego) e Filho de Deus, isso é perigoso.

Ainda bem que o grupo se encontra em Cesareia de Filipe. Pois não se pode esquecer que é exatamente essa atribuição que, mais tarde, servirá como motivo decisivo da condenação à morte de Jesus.

Lembremo-nos de que o Sumo Sacerdote, na narrativa de Marcos 14, 53-65, faz a Jesus exatamente a pergunta que esse dirige aqui a seus discípulos:

Você é o Ungido, o Filho do Bem-dito? (v. 61).

E recordemos que Jesus responde:

Eu sou, e ainda acrescenta: E vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu (v. 62).

Assim entendemos por que, no término do diálogo de Mateus 16, Jesus recomenda a seus discípulos de não contar a ninguém a conversa entre ele e Pedro. É comprometedora demais.

 

Uma segunda observação:

com essa narrativa mergulhamos no universo cultural aramaico.

  • O Evangelho de Mateus é o mais aramaico dos textos do Novo Testamento,
  • com locuções que nós não costumamos usar e que só com dificuldade entendemos.
  • Importa, para nós, tentar descobrir o Jesus aramaico por trás de um texto escrito
  • que, em diversas passagens, deixa entrever ser redigido na encruzilhada da cultura semita (especificamente aramaica) com a cultura helenística da época.

O texto vem em grego, mas representa uma conversa entre pessoas de língua e cultura aramaicas.

  • Palavras como ‘céus’, ‘terra’, ‘portas de Hades’, ‘infernos’, ‘chaves’, ‘pedra’, ‘reino dos céus’, ‘ungido’, ‘abrir e fechar’, que aparecem em Mt 16, 13-20,
  • embora escritas em grego,
  • expressam modos de se expressar na língua aramaica.

Por isso, é saudável recorrer aqui a um dos raríssimos exegetas que, nos idos de 1950, dominava suficientemente as línguas e literaturas hebraica e aramaica para alcançar, ainda, um Jesus aramaico e ler o texto de Mateus sem óculos ocidentais.

 

Teologia do Novo Testamento | J. Jeremias

Refiro-me ao exegeta alemão Joaquim Jeremias (1900-1979) e a seu livro Teologia do Novo Testamento (São Paulo, Hagnos, 2008).

Ler Mateus não é coisa fácil, como Jeremias mesmo pondera numa nota da página 435 do referido livro:

ainda não se conseguiu apresentar uma análise satisfatória da redação do primeiro Evangelho (o Evangelho de Mateus)

 

Uma terceira consideração.

Tenho por mim que em Mateus 16, 13-20, como em poucas passagens dos evangelhos, Jesus explicita a consciência que ele tem de sua missão. Vejo, nesse trecho, quatro afirmações fundamentais:

  • (1) ‘Sou o Ungido, o filho do Deus dos viventes’;
  • (2) ‘As portas de Hades não podem fazer nada contra mim’;
  • (3) ‘Tu recebeste de meu Pai o que dizes, Pedro’;
  • (4) ‘Sobre essa pedra construirei minha igreja’.

Antes de explicitar esses quatro ditos, escrevo umas palavras acerca da cosmovisão de Jesus.

  • Ele tem em comum com seus contemporâneos (e com muitos até hoje) a imagem de um universo em três andares: céus, terra, infernos.
  • Nos céus (em plural), ou seja, atrás das nuvens, o Reino de Deus está firmemente estabelecido. Aí reina a vida.
  • No polo oposto, nos infernos em baixo da terra, reina Hades (aqui aparece, estranhamente, uma referência helenística, pois Hades é o deus grego do inferno. Um exemplo da ‘miscigenação’ do texto de Mateus). Aí reina a morte.
  • A terra fica no meio. Por ora, vive sob o poder dos infernos, do mundo subterrâneo.

A missão do Ungido consiste em trazer o Reino de Deus para a terra. Para tanto, ele tem de enfrentar os poderes dos infernos.

 

Passo aos quatro pontos, numa tentativa de reproduzir a ‘ipsissima vox Iesu’ (a fala mesma de Jesus).

1. ‘Eu sou o Ungido, o Filho do Deus dos viventes.

Desde toda a eternidade estabelecido nos céus, o Reino de Deus – nos dias que correm – desce à terra. Eu recebi de Deus a missão de anunciar essa chegada e isso me causa uma intensa alegria. O Reino de Deus vem e me prontifiquei a difundi-lo na terra. Sim, sou o Ungido, como Pedro diz apropriadamente’.

 

 2. ‘As portas de Hades não podem fazer nada contra mim.

Até hoje, a terra vive sob o domínio do Grande Adversário do Reino de Deus, que causa prostituições, roubos, assassinatos, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez (Mc 7, 21-22).

Com resultados desastrosos: cegueira, surdez, paralisia, mendicância, pobreza.

Donde nos vem tanta desgraça?

  • Houve uma guerra no céu. Miguel e seus adjuvantes fizeram a guerra contra o dragão.
  • O dragão e seus comparsas reagiram, mas não tiveram força e caíram do céu.
  • O dragão, o grande, a antiga serpente, aquele que se chama Divisor e Adversário, aquele que engana o mundo inteiro, esse dragão caiu na terra. Foi jogado à terra com seus comparsas (Apoc. 12, 7-10).
  • Hoje, com a difusão do Reino de Deus, vejo Satanás cair que nem um raio do céu (Lc 10, 18) e ficar confinado atrás das portas de Hades, fechado por chaves que abrem e ninguém fecha, fecham e ninguém abre’.

 

3. ‘Tu recebeste de meu Pai as palavras que tu dizes, Pedro.

Não foi carne nem sangue que te ensinaram isso. Tu percebes que eu tenho comigo as chaves do Reino de Deus. Não as ostento. O Reino de Deus não se apresenta com sinais ostensivos:

Não se diga: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! Pois o Reino de Deus está no meio de vocês (Lc 17, 20-22).

É uma ação em profundidade, com pouca gente, não um movimento de massa. Mas vocês, que são testemunhas de meus trabalhos, verificaram:

  • cegos veem, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam.
  • Feliz quem não interpreta mal o que digo e faço (Mt 11, 5).

Aqui acontece

  • algo mais que os feitos de Moisés e dos patriarcas, mais que o êxodo, a travessia do mar vermelho, a passagem pelo deserto por quarenta anos.
  • Aqui acontece a chegada do Reino de Deus, em silêncio’.

 

4. ‘Sobre essa pedra, vou congregar meu povo. Sobre a pedra de tua confissão, Pedro.

E digo mais:

  • a quem me reconhece como Ungido, entrego chaves que abrem e ninguém fecha, fecham e ninguém abre (Apocalipse, 3, 7, Isaías, 22, 22, Jó 12,14).
  • Confio as chaves a vocês, que concordam em me acompanhar em minha tarefa de instalar um novo Israel, expulsar do Templo o Deus falso e introduzir o Deus Pai, soprar um Sopro Novo, lutar contra quem se aproprie do sagrado, introduzir uma esfera de solidariedade onde existe discriminação. Vocês têm confiança em mim.
  • Retribuo com confiança em vocês, entregando-lhes as chaves.

 

Guardo em mente a imagem das doze tribos de Israel (Mc 3, 14) e compreendi que minha vida está em continuidade com o plano que Deus concebeu com Israel. Mas não se trata simplesmente em continuar as tarefas dos antepassados.

  • Deus intenta formar um novo Israel, estabelecer uma nova aliança com seu povo. Desta vez, com chaves que fecham e ninguém abre, abrem e ninguém fecha.
  • Quando escolhi, dentro do grupo de meus discípulos, doze nomes, é que esses doze serão os patriarcas de um novo Israel, os gerentes, o núcleo gerador. Fiz questão de escolhê-los a dedo. Neles confio. Não foram eles que se candidataram, fui eu quem os escolhi (Lc 22, 30).
  • Assim como Deus confiou a mim a missão de curar e expulsar demônios, do mesmo modo ele me confiou o encargo de mandar doze apóstolos a formar um novo povo seu.

É nesse sentido que entrego a vocês as chaves do Reino, em confiança.

  • Não fiquem orgulhosos. Não lhes entrego as chaves por seus méritos, mas por reconhecer que vocês abriram seus corações para meu Pai.
  • Essas chaves estão sendo entregues a todos os discípulos e todas as discípulas que se dispõem em me seguir, sem méritos. Pois não vim chamar gente com méritos, mas gente reprovada pela sociedade (Lc 15, 2, Mc 2, 13-17, Mt 9, 13).
  • Quando chamei Levi, o cobrador de impostos que estava sentado no entreposto fiscal, e lhe disse: ‘siga-me’, ele se levantou e me seguiu. Instantaneamente. Assim quando chamei vocês, camponeses ou pescadores, vocês me seguiram no instante.  Não fiquem orgulhosos, fiquem fiéis’.

 

 

Termino: para conseguir uma leitura correta do texto,

  • há de captar o sentido das correlações Pedro – pedra, tu és o Ungido – tu és Pedro, portas do inferno – chaves do céu, o dizer das pessoaso saber de vocês (vv. 13 e 20), ou seja, entender como essas correlações funcionam dentro da narrativa de Mateus.
  • Aí se verá que aqui não se trata da entrega de algum ‘poder’, mas da coragem em ir caminhado com o Ungido. As palavras elogiosas, direcionadas por Jesus a Pedro, indicam o caminho a seguir:

enfrentar a luta contra os poderes do inferno, abrir as portas dos céus às pessoas, ser ‘pedra’ na firmeza e na coragem.

Assim,

  • aprendemos a não traduzir o termo grego ‘ekklèsia’, que aparece no texto de Mateus, por ‘igreja’, mas por ‘povo de Deus’,
  • entendemos corretamente a oposição entre as ‘portas de Hades’ e o ‘Reino de Deus’,
  • captamos o significado da imagem de chaves que ‘fecham e ninguém abre, abrem e ninguém fecha’ (se for necessário, leiamos Apocalipse, 3, 7, Isaías, 22, 22 e Jó 12,14, conforme lembrei acima)
  • e tomamos consciência de que a expressão ‘carne e sangue’ significa ‘fraqueza’ (isso em oposição ao termo ‘sôma’ [corpo], que aparece na tradução grega realizada pelos ‘Setenta’, no século III aC), etc.

Assim não cometemos a leviandade de retirar as palavras ‘tu es Petrus’ fora de seu contexto.

 

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Roma imperial vira Roma papal.

 

Quando a historiadora Rosamond McKitterick fala em ‘invenção do papado’, ela não é leviana, mas se baseia em questionamentos que fazem pensar:

  • quais os reais motivos que, durante tantos séculos, levaram a elaborar biografias de ‘Pontífices’?
  • Por que, em Roma, tantas basílicas, igrejas, mosaicos, inscrições, estátuas, aclamações, procissões, durante tantos séculos?
  • Isso não tem nada a ver com a tentativa de gravar, na mente do povo, um nexo de continuidade entre a Roma do papa e a Roma, capital de um Império que governou o Ocidente durante tantos séculos?
  • O imperialismo não estará por trás de tantos esforços?O intento não confessado não será a transformação da Urbs, Caput Mundi (Cidade Cabeça do Mundo) em Cidade dos Papas, ou seja, Capital do mundo cristão?

Outra pergunta: por que tanta insistência numa sucessão apostólica de caráter monárquico?

 

McKitterick ajuda a compreender que a insistente manipulação do imaginário popular se mostra capaz de transformar memórias de Roma antiga em memórias de Roma cristã.

Um processo de continuação, não de substituição.

  • Perpetua-se a ideia do Império, em moldes novos e novas roupagens. A Roma dos Papas é a continuação da Roma dos Imperadores.
  • Nesse processo, o ‘Liber `Pontificalis’ é um fator importante, sem ser o único.
  • A Roma pontifícia herda o lema dos Imperadores antigos: dominare populos memento, Roma! (‘Lembre-se, Roma: sua missão consiste em dominar povos’).

Sabemos que o imperialismo desconhece fronteiras. Por isso, a ideia imperial não se ‘reforma’. Ela tem de ser superada para que o evangelho possa entrar em cena.

Finalmente, o trabalho da historiadora McKitterick deixa claro que

  • não é o texto de Mateus 16, 13-20 que está na origem do papado,
  • nem a figura do ‘bispo de Roma’ (Cipriano)
  • e nem a da ‘sucessão apostólica’ (Eusébio de Cesareia).

Temos de pensar antes na importância de textos como o ‘Liber Pontificalis’.

 

 

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Eduardo Hoornaert

Belga, padre casado, mais de 60 anos de Brasil, professor em vários seminários do Nordeste, historiador, mais de vinte livros publicados. dedica-se, há anos ao estudo do Movimento de Jesus. Mora em Salvador, Bahia

Fonte: http://eduardohoornaert.blogspot.com/2022/05/a-invencao-do-papado.html

 

1 comment to A invenção do papado.

  • Osvaldo Costa

    Texto esclarecedor! Como mudar realidades cimentadas no poder e no absolutismo?

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