O perdão e a génese do religioso

O perdão - Momento Divino - 2326

Pergunto-me a mim próprio se a maior revolução na história das religiões não está naquela ordem que Jesus, na continuidade dos profetas, essas figuras colossais da História, coloca na boca de Deus: “Ide aprender o que isto quer dizer: “Eu não quero sacrifícios, eu quero justiça e misericórdia”.”

 

Por princípio, nas diferentes religiões, uma das componentes essenciais é precisamente o sacrifício a oferecer à divindade.

E degolam-se cordeiros, vitelos, bois, pombas, cabritos. Mesmo pessoas humanas foram sacrificadas.

Quem não se lembra do terror de Isaac, o miúdo carregando com a lenha do sacrifício, desconhecendo que a vítima era ele próprio?

Também por princípio, só os sacerdotes podem oferecer sacrifícios. Há quem afirme que no tempo de Jesus,

  • serviam no Templo de Jerusalém uns 20.000 sacerdotes e levitas
  • – os levitas eram uma ordem inferior de clérigos, que ajudavam os sacerdotes em vários serviços, como apresentar os animais e a lenha para o altar.

Embora hoje os historiadores estejam de acordo em reconhecer que é um número exagerado,

  • Flávio Josefo escreveu que numa Páscoa em Jerusalém foram degolados 255.600 cordeiros.
  • Atendendo ao sangue que corria no meio do calor, entende-se a expressão forte do profeta, quando faz Deus dizer que é um fedor que chega aos céus.

Jesus veio proclamar

  • que Deus é bom,
  • que está farto de sacrifícios,
  • e foi mesmo o enfrentamento com o sacerdócio judaico uma das razões da sua crucifixão.

Deus é amor. Se há definição para Deus, ela só pode consistir na acção de amar: Deus é aquele que ama. Deus está do lado da Humanidade.

  • Deus criou não para a sua maior honra e glória,
  • mas para a alegria e a realização plena dos homens, das mulheres, dos jovens, das crianças.
  • Deus é Pai/Mãe e só quer a felicidade de todos.

Deus não está irado com a Humanidade.  Portanto, não precisa de ser aplacado com sacrifícios.

A revolução é, pois, esta:

  • os homens e as mulheres não têm que ter medo de Deus.
  • Ora, se não precisam de ter medo, são livres e não escravos.
  • Então, libertos do medo, não metem medo.

Porque não haja ilusões: quem tem medo mete medo. Deve-se ter medo de quem tem medo: por paradoxal que pareça, o medo desencadeia toda a forma de violência.

Que a rejeição dos sacrifícios por parte de Jesus constituiu uma revolução

  • prova-se também pelo facto de, a partir de alusões já no Novo Testamento,
  • se ter dado à própria morte de Jesus uma interpretação sacrificial:
  • essa morte era a paga a Deus pela dívida contraída pela Humanidade com o pecado dos primeiros seres humanos.

A ofensa cometida contra Deus era infinita, e, assim, a reparação também tinha de ser infinita. Por isso, Deus não poupou o próprio Filho: a sua morte sangrenta foi exigida para aplacar Deus na sua ira e assim Deus reconciliar-se com a Humanidade.

Foi deste modo que Deus-amor voltou a ser o Deus-Moloch sanguinário e bárbaro.

Mas,

  • se Deus é sádico e exige sangue, os homens podem fazer o mesmo
  • – e aí está a religião enquanto legitimadora de tanto sangue derramado e de tanta violência cometida, desde sempre.

 

Aí está hoje uma invasão injusta com uma guerra hedionda, brutal, torturadora,

  • que não poupa civis nem mulheres nem crianças,
  • que atira cadáveres para valas comuns,
  • que humilha a ONU, que não teme o perigo de uma guerra nuclear, com a ameaça do fim da própria Humanidade,
  • e é uma invasão e uma guerra provocadas por quem se diz cristão, apoiado pelo seu líder religioso, contra cristãos…

O Deus que mete medo e apavora está ao serviço do poder: é fácil subordinar quem vive afogado em medo.

  • Quanto poder religioso e político não foi beber no medo!
  • Pregou-se o medo para poder subjugar e dominar homens e mulheres, povos inteiros.
  • Se o medo for medo de Deus, já se está vencido.

Sim, Jesus sacrificou-se até à morte e morte de cruz, mas não foi Deus que exigiu a sua morte.

Pelo contrário.

  • Jesus, cuja é mensagem é que Deus é Amor, não desistiu, apesar de saber as consequências dela por palavras e obras;
  • foi coerente ao fim, morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor, mandado crucificar pela coligação de interesses religioso-imperiais, postos em causa pelo Deus que Ele pregava.

Morreu crucificado, para proclamar bem alto e para sempre que Deus não quer crucificados.

Ser discípulo de Jesus quer dizer fazer como Ele fez e o que Ele fez: significa libertar os crucificados, os oprimidos, contribuir de todos os modos para a dignificação de todos.

No dia em que a mensagem de Jesus chegar à cabeça e ao coração e à acção dos seres humanos, já não haverá medo de Deus.

O que então habitará no mais íntimo será a reconciliação consigo e com os outros, e a compaixão e a misericórdia, que é o que Deus quer. E até haverá a graça do perdão, para perdoar o imperdoável — o perdão sem condições, que já não pertence à ordem do jurídico nem do político.

Aí, no perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade de cálculo que cessa. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência,

“qualquer coisa de trans-humano”:“na ideia do perdão, há a da transcendência”,

pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião.

“A partir desta ideia do impossível, deste “desejo” ou deste “pensamento” do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso.”

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/o-perdao-e-a-genese-do-religioso-14853342.html

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