O Papa denuncia: “Na atual guerra na Ucrânia, estamos testemunhando a impotência das Organizações Internacionais”

Papa exibe bandeira de Bucha ensanguentada e denuncia "as atrocidades" ali cometidas - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

José Manuel Vidal  –  08 Abril 2022 –

Foto: Francisco apresenta bandeira ensaguentada da Ucrânio /  DAQUI

  • O Papa, aos poloneses: “Vocês demonstraram extraordinária e exemplar generosidade com nossos irmãos ucranianos, a quem vocês abriram seus corações e as portas de suas casas. Que o Senhor abençoe sua pátria por esta solidariedade e lhes mostre seu rosto”.
  • Malta é uma espécie de ‘rosa dos ventos’, onde povos e culturas se cruzam”.
  • “Não se canse de ouvir os testemunhos dos emigrantes, porque só assim sairá da visão distorcida que muitas vezes circula na mídia”.
  • “O fenômeno migratório é um sinal de nossos tempos. Deve ser lido e interpretado como tal. Pode se tornar um sinal de conflito, ou um sinal de paz”.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 06-04-2022.

 

Em sua catequese para a audiência de quarta-feira, o Papa Francisco revê sua recente visita a Malta, país evangelizado pelo próprio São Paulo, e o descreve como um país-chave geograficamente, no que diz respeito à emigração e no que diz respeito à evangelização.

Segundo o Papa, “Malta é uma espécie de “rosa dos ventos”, onde se cruzam povos e culturas” e, portanto, pode ensinar ao mundo outra lógica diferente da do poder:

“a do respeito e da liberdade, do convívio das diferenças, contra a colonização dos mais poderosos”.

 

Em segundo lugar, o Papa fala de Malta como um lugar-chave para a emigração, convida os emigrantes a ouvir, porque

“esta é a única maneira de sair da visão distorcida que muitas vezes circula na mídia”,

lembra que os emigrantes contribuem infinitamente mais do que quanto custa o seu acolhimento e assegura que as migrações são “um sinal dos tempos”, que “pode tornar-se um sinal de conflito, ou um sinal de paz”.

E, como não podia deixar de fazer alusão à Ucrânia, o Papa denuncia a impotência da ONU:

“Na atual guerra na Ucrânia, testemunhamos a impotência das Organizações Internacionais”

e destaca a recepção dos refugiados pelo povo polonês.

“Vocês mostraram sinais de generosidade extraordinária e exemplar com nossos irmãos ucranianos, aos quais vocês abriram seus corações e as portas de suas casas. Que o Senhor abençoe o seu país por esta solidariedade e mostre-lhe o rosto”.

 

Texto integral da catequese do Papa

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

No sábado e no domingo passado estive em Malta: uma viagem apostólica que estava programada há muito tempo.

  • Poucos sabem que Malta, mesmo sendo uma ilha no meio do Mediterrâneo, recebeu o Evangelho muito cedo,
  • pois o apóstolo Paulo naufragou próximo à sua costa e milagrosamente salvo com todos os que estavam no navio, mais de duzentas e setenta pessoas .

O livro dos Atos dos Apóstolos diz-nos que os malteses acolheram a todos com“uma humanidade invulgar”(28,2).

Escolhi precisamente estas palavras: com rara humanidade, como mote da minha viagem, porque indicam o caminho a seguir

  • não só para enfrentar o fenômeno dos migrantes, mas de forma mais geral para que o mundo se torne mais fraterno, mais habitável
  • e ser salvo de um “naufrágio”que ameaça a todos nós, que estamos – como aprendemos – no mesmo barco.
  •  Malta é, neste horizonte, um lugar chave.

 

É sobretudo geograficamente, devido à sua posição no centro do Mar que fica entre a Europa e a África, mas que também banha a Ásia.

Malta é uma espécie de “rosa dos ventos”, onde se cruzam povos e culturas. É um ponto privilegiado para observar a zona mediterrânica a 360 graus.

  • Hoje falamos muitas vezes de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos
  • para fazer valer os seus próprios interesses expandindo a área de influência econômica, ideológica e militar.

Estamos vendo isso com a guerra.

 

Malta representa, neste quadro, o direito e a força dos “pequenos”, das pequenas Nações mas ricas em história e civilização, que deveriam levar a cabo outra lógica:

  • a do respeito e da liberdade, do convívio das diferenças,
  • oposta à a colonização dos mais poderosos. Estou assistindo.

Após a Segunda Guerra Mundial, foram feitas tentativas para lançar as bases para uma nova história de paz, mas infelizmente a velha história de grandes potências concorrentes foi adiante.

E, na atual guerra na Ucrânia, estamos testemunhando a impotência das Organizações Internacionais.

 

Segundo aspecto: Malta é um lugar-chave no que diz respeito ao fenômeno da migração. No Centro de Acolhimento João XXIII encontrei numerosos migrantes que desembarcaram na ilha depois de terríveis viagens.

  • Não se deve cansar de ouvir seus testemunhos, pois só assim se pode sair da visão distorcida que muitas vezes circula na mídia e reconhecer os rostos, as histórias, as feridas, os sonhos e as esperanças.
  • Cada migrante é único, é uma pessoa com sua dignidade, suas raízes, sua cultura.
  • Cada um deles é portador de uma riqueza infinitamente maior do que os problemas que sua recepção possa implicar.

E não esqueçamos que a Europa foi criada pela emigração.

 

Certamente,

  • a recepção deve ser organizada, deve ser governada, e antes, muito antes, deve ser projetada em conjunto, em nível internacional.
  • Porque o fenômeno migratório não pode ser reduzido a uma emergência, é um sinal dos nossos tempos.

Como tal, deve ser lido e interpretado.

Pode se tornar um sinal de conflito ou um sinal de paz. Depende de nós. Quem em Malta deu vida ao Centro João XXIII fez a escolha cristã e por isso o chamou de “Laboratório da Paz”: laboratório da paz.

Mas gostaria de dizer que Malta como um todo é um laboratório de paz! E pode cumprir esta sua missão se, das suas raízes, tirar a seiva da fraternidade, da compaixão, da solidariedade. O povo maltês recebeu esses valores junto com o Evangelho e, graças ao Evangelho, poderá mantê-los vivos.

Para isso, como Bispo de Roma, fui confirmar aquele povo na fé e na comunhão.

De fato – terceiro aspecto – Malta é um lugar-chave também do ponto de vista da evangelização.

De Malta e Gozo, as duas dioceses do país, vieram muitos sacerdotes e religiosos, mas também fiéis leigos, que levaram o testemunho cristão ao mundo inteiro. Como se a passagem de São Paulo tivesse deixado a missão no DNA dos malteses!

É por isso que a minha visita foi sobretudo um ato de reconhecimento, reconhecimento de Deus e do seu povo santo fiel que está em Malta e Gozo.

 

No entanto, o vento do secularismo e da pseudocultura globalizada baseada no consumismo,   neocapitalismo  e relativismo também sopra por lá.

Também aí, por isso, é tempo de uma nova evangelização.

A visita que, como os meus predecessores, fiz à Gruta de São Paulo foi como ir à fonte, para que o Evangelho possa brotar em Malta com a frescura das suas origens e reviver a sua grande herança de religiosidade popular.

Isto é simbolizado no Santuário Nacional Mariano de Ta’ Pinu, na ilha de Gozo, onde celebramos um intenso encontro de oração. Ali senti o coração do povo maltês, que confia tanto em sua Santa Mãe. Maria conduz-nos sempre ao essencial, a Cristo crucificado e ressuscitado por nós, ao seu amor misericordioso.

Maria ajuda-nos a reacender a chama da fé, atraindo o fogo do Espírito Santo.

 

Aproveito esta oportunidade para renovar a minha gratidão

  • ao Presidente da República de Malta e às demais autoridades civis, que me acolheram com tanta amabilidade;
  • assim como os bispos e todos os membros da comunidade eclesial,
  • os voluntários e aqueles que me acompanharam com a oração.

Sem esquecer o centro para migrantes: exemplo de zelo apostólico e amor pelos migrantes. Nós, de fato, semeamos, mas é o Senhor que faz crescer. Que a sua infinita bondade conceda abundantes frutos de paz e todo o bem ao amado povo maltês! Obrigado pelo acolhimento, tão humano e tão cristão.

 

José Manuel Vidal

Fonte: IHU

 

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