Europa tenta cavalgar o “tigre chinês”

Cores das bandeiras da União Europeia e da China lado a lado

Barbara Wesel –  de abril de 2022 – Foto: Rainer Unkelimago images

Invasão russa da Ucrânia colocou UE também diante dos escombros da própria política externa. Adeus à era de ingenuidade geopolítica e interesses econômicos acima de tudo: uma nova ordem se anuncia, opina Barbara Wesel.

Ao longo de décadas, os europeus – sobretudo a Alemanha – serviram como idiotas úteis para a China, apostando em desenvolvimento, transformação por meio do comércio e aproximação democrática através de melhores condições de vida para a massa da população.

No processo, deixaram de ver

  • quão totalitário o presidente chinês Xi Jinping age
  • como converteu seu país numa ditadura cada vez mais perfeita.

Agora a guerra na Ucrânia impõe perguntar se a nossa maior parceira comercial também se terá tornado nossa maior inimiga.

  • A questão não pode ser acabar com a amizade ou proximidade entre Xi e seu colega russo: isso é inteiramente utópico.
  • A questão é simplesmente quão apertado o chinês pretende abraçar Vladimir Putin,
  • e se está sequer disposto a considerar os interesses de segurança do Ocidente no confronto com sua parceria estratégica com a Rússia.

Na visão de Xi, num prazo razoável as duas autocracias poderiam dar fim à ordem mundial de orientação ocidental e às suas regras.

  • Contudo no momento a guerra não transcorre absolutamente como deseja Putin,
  • ela debilita a economia russa e desse modo, no médio prazo, a posição de poder dele.

Além disso, pode ser que, a esta altura, o chefe do Kremlin tenha desencadeado em Pequim dúvidas sobre a sua própria capacidade de julgamento político. Por conseguinte, o cálculo estratégico do líder chinês não vai funcionar sem maiores obstáculos.

“Amizade” sino-russa e equilíbrio do medo econômico

Contudo a China pensa numa escala de tempo mais vasta e pretende se aferrar a uma parceria que, para o futuro, promete acesso a importações de energia mais baratas. Por isso Pequim reforça que não quer ser forçado a tomar partido – embora na prática há muito já o tenha feito, ao prometer respaldo continuado a Moscou e evitar condenar a guerra contra a Ucrânia.

Por outro lado, o país asiático

  • não quer, ele mesmo, ser objeto de sanções, uma vez que a União Europeia é seu maior mercado de exportação e garantia para um crescimento econômico continuado.
  • Desse ponto de vista, Pequim não pode se dar ao luxo de perder a UE e os Estados Unidos como parceiros comerciais.

É possível que os chineses também tenham ficado surpresos com o grau de determinação na resposta ocidental à invasão. Agora o presidente Xi tenta praticar a arte diplomática do “tanto isso quanto aquilo”, no sentido de seguir cultivando as relações com a Rússia, mas sem voltar o Ocidente contra si.

Os europeus possuem, portanto, um trunfo econômico perante a China para impedir eventuais fornecimentos de armas à Rússia ou um contorno das sanções. Contudo nesse ponto as subordinações são recíprocas, já que, sabidamente,

  • certos Estados da UE estão tão dependentes do mercado consumidor chinês,
  • que reina uma espécie de “equilíbrio do medo”.

Por isso no momento, com a ajuda de Paris, Berlim também tenta abrandar os tons excessivamente severos contra Pequim.

Clareza atípica por parte da UE

Em sua cúpula virtual com o presidente Xi, entretanto,

  • as lideranças da UE deixaram explícito que a guerra na Ucrânia afeta interesses centrais de segurança europeia que Pequim teria que levar em consideração:
  • eles não querem ver sabotados seus esforços de restringir o conflito, terminá-lo o mais breve possível e, depois, negociar uma paz sustentável.
  • Não haverá um “continuemos assim” nem pseudo-soluções diplomáticas, foi a mensagem que os líderes europeus comunicaram com clareza pouco usual.

No decorrer dos últimos dois anos, a UE já perdeu a ingenuidade geopolítica em relação à China,

  • ao declará-la “rival sistêmico”,
  • congelar o acordo de investimentos
  • e, por fim, ainda ter que ver Pequim encostar na parede a pequena Lituânia, na questão do Taiwan.

Agora trata-se da difícil tarefa de encontrar um novo equilíbrio de forças. Pelo menos nesse ínterim a Europa compreendeu que também

  • terá que lutar com armas mais pesadas
  • e assumir posições definidas em nome dos próprios interesses e segurança.

Foram-se os tempos em que os interesses econômicos suplantavam tudo.

Essa nova era da geopolítica obrigará também a UE a decisões difíceis e a renúncia. E – parafraseando o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski – a se colocar repetidamente a questão: o que é mais importante, o sangue dos ucranianos ou o bem-estar dos europeus?

Além disso, nessa luta também será tomada uma espécie de pré-decisão sobre a configuração dos blocos geopolíticos globais do futuro.

No momento está tudo em jogo, para todos.

Barbara Wesel Studio Brüssel

Barbara Wesel

Barbara Wesel é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

 

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