CADÊ O POVO?

 

CADÊ O POVO?

Frei Betto – 30 março 2022 – Imagem: DAQUI

O que ocorre com o povo brasileiro? Dá pra ecoar, hoje em dia, “Viva o povo brasileiro” exaltado por João Ubaldo Ribeiro? Cadê aquele povo aguerrido que desencadeou, ao longo de sua história, tantas revoltas libertárias, hoje encobertas ou edulcoradas pelos livros didáticos?

 

Desde a ditadura militar (1964-1985) nosso povo não sofria tanto quanto nos três anos do (des)governo Bolsonaro. Mandato que veio para destruir como dinamites que implodem um edifício. Não há segmento do país (exceto a minoria mais rica) que não tenha sido duramente afetado por este governo.

Há retrocessos em todos os setores: economia, saúde, educação etc.

  • O preço dos combustíveis disparou;
  • a inflação furou o teto previsto; o desemprego aumentou; os salários perderam poder aquisitivo; a educação está sucateada;
  • a saúde padece na UTI do descaso dos preços abusivos dos medicamentos e dos planos privados.
  • E, sobretudo, no genocídio de quase 660 mil vidas perdidas devido à irresponsabilidade de um presidente que ignorou a vacina e prestigiou a ineficaz cloroquina.

Na área socioambiental,

  • o trator da devastação trafega com a mesma gula destrutiva dos dentes de aço de uma motosserra.
  • Agrotóxicos envenenam o solo e os alimentos;
  • a Amazônia sofre o seu maior índice de desmatamento;
  • garimpos e mineradoras contaminam rios, igarapés e lagoas, esburacando a floresta;
  • os povos indígenas têm suas terras invadidas e espoliadas.

E cadê o povo? Cadê a capacidade de mobilização dos movimentos populares, dos sindicatos, das pastorais e dos partidos políticos progressistas?

Serão agora meras lembranças, como em um álbum de retratos,

  • a Passeata dos 100 mil (1968, em plena ditadura),
  • as greves metalúrgicas no ABC paulista (1978-1980),
  • a luta por Diretas Já (1984), o impeachment de Collor (1992),
  • a mobilização da juventude em junho de 2013?

Sim, há manifestações pontuais, como

  • as marchas do MST, os protestos do MTST, a dos povos indígenas em Brasília,
  • as de gays. mulheres e negros por suas pautas identitárias,
  • a de Caetano Veloso no “Ato pela Terra”.

E há indignação por todos os lados, sobretudo nas redes digitais, embora o “fuhrer” ainda detenha apoio de mais de 30% da população.

A esquerda perdeu a guerra das narrativas?

  • Sim, abandonamos o trabalho de base junto aos excluídos, deixamos a periferia ser ocupada pelo fundamentalismo religioso, o narcotráfico e as milícias.
  • E só agora estamos aprendendo a lidar com as trincheiras digitais.

Ao nos afastarmos do lugar social popular,

  • voltamos à linguagem hermética dos círculos acadêmicos. Falamos para nós mesmos.
  • Nossa linguagem é estranha aos moradores de favelas, aos sem-terra, aos sem-teto.
  • E apesar de tudo que sofrem – como pagar mais de R$ 100 por um botijão de gás – não se reduz o apoio de mais de 30% a Bolsonaro. Por quê?

Porque não é prioritariamente pelo estômago que as pessoas raciocinam. É, sobretudo, pelo sentido que imprimem às suas vidas.

  • É o sentido impregnado na mente que faz um jovem se dispor a morrer na guerra.
  • É o sentido que leva fiéis à sujeição dos ditames descabidos do padre ou do pastor.
  • É o sentido que causa abnegação ou revolta, submissão ou reação, medo ou coragem.

Cadê a narrativa de sentido emitida pelos segmentos progressistas?

Sabemos prometer, e até promover (como nos 13 anos de governos do PT) melhorias de vida à população. Mas não é a barriga que, em última instância, comanda a razão.

Eu poderia dizer tudo isso com citações de autores consagrados, mas prefiro evitar o que soaria pernóstico a muitos leitores de meus textos.

Hoje, há apenas duas narrativas disponíveis no mercado epistêmico: a capitalista e a marxista.

  • A primeira nos impregna pelos poros, em especial agora que o planeta se encontra globocolonizado.
  • A outra, que rompe o círculo hermético do sistema, é o marxismo, que nos abre a viabilidade de um sistema de justiça e paz.
  • Mas esta parece soterrada pelos escombros do Muro de Berlim e por tantas atrocidades cometidas pelo desvio stalinista.

O tabu de citar Marx e se assumir como marxista é compreensível.

Mas não o preconceito de adotá-lo como método de análise da realidade, inclusive na ótica religiosa, como fez a Teologia da Libertação.

Será que o reformismo nos arrancará do atoleiro? Ou nos deixará no mesmo lugar, como caminhões atolados na lama das estradas de terra, apesar de seus motoristas afundarem o pé no acelerador como fazemos em períodos eleitorais?

 

Leia a carta de Frei Betto a Lula na data que marca um ano de injustiça | Partido dos Trabalhadores

Frei Betto

é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Fonte: https://www.acessepiaui.com.br/ver_coluna2/3746/CADE-O-POVO?%C3%82%C2%A0

 

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