Padres ortodoxos russos pedem fim imediato da guerra na Ucrânia

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Elise Allen – 06 março 2022

Nesta foto tirada na terça-feira, 2 de junho de 2020, o padre ortodoxo russo Vasily Gelevan fala durante entrevista à Associated Press na Igreja da Anunciação da Santa Virgem em Sokolniki em Moscou, Rússia.

O afresco ao fundo mostra um padre ortodoxo russo andando com uma cruz na mão ao lado de soldados do exército russo em uma batalha de 1904 com tropas japonesas. (Crédito: AP Photo/Alexander Zemlianichenko.)

 

ROMA – Um grupo de padres ortodoxos russos lançou uma petição aberta pedindo um cessar-fogo imediato à guerra com a Ucrânia e criticou a repressão de protestos não violentos exigindo paz.

Na petição, que já tem quase 300 assinaturas após ser lançada no início desta semana, os padres e arciprestes disseram que estão apelando pessoalmente

“a todos aqueles de quem depende a cessação da guerra fratricida na Ucrânia, com um apelo à reconciliação e um imediato cessar-fogo”.

O apelo é considerado incomum porque a Igreja Ortodoxa Russa, especialmente em nível de liderança, é considerada há muito uma aliada confiável do Kremlin. Fato notável é que, entre os signatários da petição, não há metropolitas, as figuras mais importantes da hierarquia ortodoxa russa.

Eles observaram que o apelo foi lançado entre o segundo domingo antes da Quaresma, que é dedicado ao Juízo Final, e o último domingo antes da Quaresma, que na Igreja Ortodoxa é conhecido como “Domingo do Perdão”.

Em seu apelo, os padres advertiram que

“o Juízo Final espera cada pessoa. Nenhuma autoridade terrena, nenhum médico, nenhum guarda irá proteger deste julgamento”.

“Preocupados com a salvação de cada pessoa que se considera filho da Igreja Ortodoxa Russa, não queremos que ele compareça a este julgamento, carregando o pesado fardo das maldições das mães”, disseram.

Na comunhão no domingo, disseram eles, o corpo e o sangue de Jesus serão recebidos

“por aquelas pessoas que dão ordens assassinas, não para a vida, mas para o tormento eterno”.

“Lamentamos o julgamento ao qual  os nossos irmãos e irmãs na Ucrânia foram imerecidamente submetidos”,

disseram eles, chamando a vida um “presente inestimável e único” e pedindo o retorno seguro de todos os soldados, Russos e Ucranianos, às suas casas e famílias.

Os padres lamentaram

“o abismo que nossos filhos e netos na Rússia e na Ucrânia terão de superar para voltar a ser amigos, respeitar e amar uns aos outros”.

Sublinhando o valor da liberdade da humanidade como um direito dado por Deus, eles disseram que a Ucrânia deveria decidir o seu futuro

“por conta própria, não sob a mira de uma arma, sem pressão do Ocidente ou do Oriente”.

À medida que se aproxima o Domingo do Perdão, observado em 7 de março pelos Russos Ortodoxos, os sacerdotes disseram que os portões para o céu estão abertos para todos, mesmo para os que cometeram pecados graves, desde que busquem o perdão daqueles a quem

“humilharam, insultaram, desprezaram ou daqueles que foram mortos por suas mãos ou por sua ordem”.

“Não há outro caminho senão o perdão e a reconciliação mútua”, disseram eles.

Citando uma passagem bíblica de Gênesis, depois que Caim matou seu irmão Abel por ciúmes, os sacerdotes disseram:

“O sangue do teu irmão está clamando da terra. E agora amaldiçoado és tu pela terra que abriu a boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão”.

“Ai de toda pessoa que percebe que estas palavras são dirigidas a ela pessoalmente”, disseram eles.

Os padres também se opuseram à repressão de manifestantes pacíficos contra a guerra na Rússia, muitos dos quais foram presos, dizendo que

“nenhum apelo não violento à paz e ao fim da guerra deve ser reprimido à força e considerado uma violação da lei, pois tal é o mandamento divino: ‘Bem-aventurados os pacificadores’”.

Eles chamaram todas as partes envolvidas para um diálogo construtivo, dizendo:

“Não há  outra alternativa à violência”.

“Somente a capacidade de ouvir o outro pode dar esperança de uma saída do abismo em que nossos países foram lançados em apenas alguns dias”, disseram eles, acrescentando: “Deixem que vocês mesmos e todos nós entremos na Grande Quaresma no espírito da fé, esperança e amor. Parem a Guerra”.

Agora no seu 11º dia, a guerra começou em 24 de fevereiro, quando militares russos entraram na Ucrânia para o que o presidente russo, Vladimir Putin, chamou de “operação militar especial”.

Numerosos países em toda a Europa e no resto do mundo emitiram duras sanções contra empresas e indivíduos russos como resultado da guerra, que até agora se estima tenha ceifado a vida de quase 3.000 militares ucranianos e cerca de 500 soldados russos, de acordo com estimativas oficiais.

A guerra tomou um rumo assustador na sexta-feira, quando militares russos dispararam contra a usina nuclear de Zaporizhzhia, no sudeste da Ucrânia, causando um incêndio que mais tarde foi extinto. Agora as tropas russas ocupam a usina e estão forçando os técnicos a trabalhar sob a mira de armas.

Numerosos países ao redor do mundo condenaram o incidente, com a embaixada dos Estados Unidos na Ucrânia alertando que um ataque a uma usina nuclear é um “crime de guerra” e o Conselho de Segurança das Nações Unidas convocando uma reunião de emergência.

Desde que a guerra eclodiu,  várias outras igrejas e líderes Cristãos, incluindo muitas outras comunidades Ortodoxas, condenaram-na e pediram o fim imediato das hostilidades.

Enquanto os padres ortodoxos russos que assinaram a petição estão pedindo um cessar-fogo, o patriarca ortodoxo russo Kirill ainda não emitiu a sua própria condenação.

Kirill rezou pela segurança e bem-estar dos civis e pelo fim rápido dos combates. No entanto, ele foi criticado pela sua reconhecida falta de apoio à independência e à integridade territorial Ucraniana.

Durante uma liturgia divina em Moscou em 27 de fevereiro, apenas três dias depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, Kirill disse:

Não devemos deixar forças externas sombrias e hostis rirem de nós; devemos fazer tudo para manter a paz entre nossos povos e, ao mesmo tempo, proteger nossa pátria histórica comum de todas as ações externas que possam destruir essa unidade”.

Vários líderes católicos e ortodoxos apelaram a Kirill para implorar a Putin pelo fim da guerra, incluindo o padre ortodoxo romeno Ioan Sauca, secretário geral interino do Conselho Mundial de Igrejas; o arcebispo polonês Stanislaw Gadecki de Poznan, presidente da Conferência Episcopal Polonesa; a recentemente independente Igreja Ortodoxa da Ucrânia; e a outra Igreja Ortodoxa da Ucrânia que está em plena comunhão com a Igreja Ortodoxa Russa.

Kirill ainda não respondeu a nenhum desses apelos públicos. No entanto, ele se encontrou com o enviado do Vaticano para a Rússia, o arcebispo Giovanni D’Agnello, no patriarcado de Moscou em 3 de março.

O Papa Francisco, embora ainda não mencione diretamente a Rússia ou Putin, sempre apelou ao diálogo e a uma resolução pacífica para a guerra na Ucrânia. Espera-se que ele se encontre com Kirill durante o verão.

Segundo o patriarcado de Moscou, em seu encontro com D’Agnello Kirill, elogiou o Papa Francisco como alguém que

“faz uma importante contribuição para a criação da paz e da justiça entre as pessoas”.

Ele também disse que a “posição moderada e sábia” da Santa Sé em muitos assuntos internacionais é consistente com a da Igreja Ortodoxa Russa.

“É muito importante que as igrejas cristãs, incluindo nossas igrejas, voluntária ou involuntariamente, às vezes sem vontade, não se tornem participantes dessas tendências complexas e contraditórias que estão presentes na agenda mundial hoje”, disse Kirill.

“Estamos tentando assumir uma posição de pacificação, inclusive diante de conflitos existentes”, disse ele, “porque a Igreja não pode ser participante de um conflito – só pode ser uma força de pacificação”.

Elise Ann Allen

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Elise Allen

Fonte: https://cruxnow.com/church-in-europe/2022/03/russian-orthodox-priests-call-for-immediate-end-to-war-in-ukraine

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