O racismo de quem chora pela Ucrânia, mas ignora a dor que está ao seu lado

Beatriz Drague Ramos – 28 Fevereiro 2022

Foto: Divulgação/Redes da Maré.Desenho de criança retrata a violência policial na Maré, em 2018 

 Situação de violência cotidiana contra a populaçãopobre e negra no Brasil é banalizada e incomoda menos do que guerra na Europa, dizem moradores de comunidades do Rio.

Som de tiros e bombas. Blindados avançam sobre as ruas. Homens em trajes militares, arma.

A reportagem é de Beatriz Drague Ramos, publicada por Ponte, 27-02-2022.

 

Armados de fuzis, invadem as casas da população civil, arrombando portões, atirando em pessoas e destruindo pisos e paredes. Assustados, moradores se trancam em suas residências, sem ter para onde fugir.

  • A internet deixa de funcionar.
  • Em meio ao ataque, postos de saúde fecham as portas,
  • escolas não abrem e milhares de alunos ficam sem aulas.

Poderia ser na Ucrânia, de onde cenas muito parecidas com essa passaram a inundar o noticiário de todas as televisões e sites de notícias do Brasil, em todas as horas, virando assunto de tudo quanto é rede social e de todas as conversas, desde que o país foi invadido pela Rússia de Vladimir Putin, na madrugada de quinta-feira (24/5).

Mas as cenas que abrem esta reportagem aconteceram no dia anterior, bem longe do inverno do Leste Europeu, mas aqui mesmo, deste lado do Atlântico, em pleno verão carioca.

Tratava-se

  • de uma operação realizada em 8 das 16 favelas que integram o Complexo da Maré, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro,
  • por policiais militares do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), acompanhados da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

Os ataques contra a população não partiam de um Exército inimigo, mas de quem deveria protegê-la.

Ao contrário da comoção gerada pelo sofrimento europeu, a dor dos moradores das comunidades do Rio passou despercebida para a maioria dos brasileiros.

As notícias sobre a operação policial na Maré saíram principalmente em meios independentes, como o Maré de Notícias, e nos relatos de moradores que foram às redes sociais denunciar o que estavam vendo.

Como a jornalista e doutoranda na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gizele Martins, 36 anos, autora do livro Militarização e censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré (NPC, 2019), que escreveu:

 

O comentário de Gizele também não recebeu a mesma solidariedade que as postagens de ucranianos vítimas da guerra costumam ganhar nas redes.

  • Na verdade, solidariedade nenhuma:
  • todas as respostas ao tweet foram negativas e atacaram a jornalista por criticar a violência policial.

“Eu só queria trabalhar, mas não dava para sair de casa. Estava sem internet há cinco dias e ia para o escritório trabalhar, mas quando tem operação a vida para, os postos de saúde fecham e as escolas também. A operação na quarta durou o dia inteiro”,

conta Gizele à Ponte.

A falta de solidariedade com o sofrimento da Maré, na mesma semana em que tanta gente se sentiu comovida com o sofrimento em Kiev, infelizmente não a surpreendeu. É sempre assim.

“Os bairros que estão do lado da favela da Maré, as pessoas desses locais não se incomodam com o barulho do tanque, ou do caveirão, ou do helicóptero blindado que passa aqui na favela e atira no chão e nos corpos favelados e negros, não se comovem. Mas se incomodam com um conflito e uma guerra na Rússia e na Ucrânia”,

compara a jornalista.

É uma situação que expõe um contexto de invisibilidade, de criminalização da pobreza e de racismo.

“Falamos de novo de racismo e de um Estado brasileiro que é dono das mídias e que faz com que toda uma sociedade aplauda o sangue negro no chão das favelas do Rio de Janeiro”,

aponta Gizele.

“Eles nos culpabilizam no lugar de problematizar o porquê existem vidas negras sendo assassinadas a cada 23 minutos no Brasil. Não há esse questionamento. Então há, sim, uma diferença de cobertura, de apelo e de comoção”, aponta Gizele.

A jornalista aponta que

“países europeus e populações brancas historicamente têm apelo midiático”por serem os que detêm o poder no mundo.

“Há sempre uma relevância maior a tudo o que ocorre nesses locais, porque eles detêm todas as forças também, bélica, indústria, midiática, são países colonizadores”,

diz. E dá um outro exemplo:

“Existe um ataque do estado israelense contra a população palestina há décadas e isso não tem a mesma proporção midiática”.

 

Blindado avança em rua da Maré, no Rio, um dia antes da invasão da Ucrânia pela Rússia | Foto: Maré de Notícias

 

  • Essa visão racista, de encarar a violência contra corpos brancos e europeus como algo fora da normalidade, e que por isso deveria gerar horror e comoção,
  • fica evidente nos atos falhos de jornalistas e comentaristas internacionais.

“Este não é um lugar, com todo o respeito, como o Iraque ou o Afeganistão, onde há décadas de conflito. Esta é uma cidade relativamente civilizada, relativamente europeia – tenho que escolher essas palavras com cuidado também –, onde você não esperaria que isso acontecesse”,

disse o repórter Charlie D’Agata, da CBS News.

 

Outro que desnaturalizou a violência contra europeus foi o jornalista francês Ulysse Gosset:

“Estamos no século 21, em uma cidade europeia, e temos disparos de mísseis de cruzeiro como se estivéssemos no Iraque ou no Afeganistão, dá para imaginar!”.

 

Mais explícito, David Sakvarelidze, ex-procurador geral adjunto da Ucrânia, destacou que a morte choca mais por atingir gente branca:

“É muito tocante para mim porque estou vendo europeus loiros e de olhos azuis sendo assassinados”.

 

Os números mostram o alcance da violência estatal promovida contra as comunidades fluminenses. Uma operação ocorrida há pouco mais de duas semanas na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, zona norte,

  • deixou oito pessoas mortas
  • e 5.740 alunos ficaram sem aulas.

Somente no ano passado,

  • mais de 4.600 tiroteios foram registrados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro,
  • uma média de 13 por dia, de acordo com dados do Relatório Anual de 2021 do Instituto Fogo Cruzado.

Ademais, as operações policiais

  • provocaram a morte de 1.084 vidas,
  • deixaram 1.014 pessoas feridas
  • e 17 crianças e 43 adolescentes baleados na região metropolitana.

Apesar da dimensão da violência, Gizele afirma que não se pode chamar de “guerra” o que acontece aqui.

“Nas favelas e periferias do Rio, quem nos ataca é o Estado. Um Estado que tem do seu lado outros tipos de política que atacam a vida negra e pobre favelada para além dos ataques bélicos”, afirma.

Outro ponto mencionado pela moradora da Maré é a intensa utilização de novas tecnologias de guerra nas favelas.

  • “Fazem da gente laboratórios de uma política da morte,
  • testam nas nossas vidas os tanques, os helicópteros blindados e as armas,
  • acredito que esses conflitos em territórios empobrecidos, seja no Brasil, no Haiti, na Palestina
  • são para fazer das nossas vidas grandes laboratórios de uma política da morte”, destaca.

“Por trás disso há grandes empresas bélicas e de tecnologias de vigilância fazendo testes com as nossas vidas.”

Para Fransérgio Goulart, coordenador da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), os ataques do estado do Rio de Janeiro contra a população negra e pobre são possíveis de serem comparados a uma verdadeira guerra.

“A violência e as opressões não podem ser hierarquizadas, o que precisamos fomentar é a reflexão do porque a guerra na Ucrânia mobiliza e sensibiliza a sociedade a se posicionar e a guerra aos territórios de favelas, a guerra aos negros e pobres não?”, questiona.

“Sei que alguns críticos irão dizer: ‘Mas há guerra no Brasil? Há guerra nas favelas?’ Digo que sim, pois o Estado capitalista racial no Brasil constituiu corpos negros e periféricos como inimigos.”

O ponto em comum entre a guerra vivida na Ucrânia e os conflitos nos territórios das periferias cariocas é o capitalismo, afirma ele.

“Lembrando que são contextos totalmente diferentes, mas o que tem de comum é que essas guerras são produzidas pelo imperialismo. Tanto nas favelas quanto na Ucrânia, ou seja, se trata da sociedade capitalista.”

Isso demonstra para ele que a violência está banalizada há muito tempo.

“Desde sempre pois determinados corpos, como negros e periféricos não são considerados humanos e não sendo humanos, a vida destes não vale nada após muito produzir no sistema capitalista racializado”, critica.

O ativista vive em um território dominado pela milícia no Rio e por isso prefere não citar o nome do bairro, ele relata ainda que o sentimento dos moradores com tanta violência é de “muita dor e adoecimento”.

Ainda assim, são criadas formas de acolhimento entre eles.

“Como o Estado é o promotor destas violências, também percebemos que não será este Estado que irá colaborar com o fim deste adoecimento e a partir disso constroem-se apoio mútuo e estratégias de proteção e cuidado nestes territórios.”

 

Beatriz Drague Ramos 🌱 (@beatriz_drague) / Twitter

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Beatriz Drague Ramos

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/616525-o-racismo-de-quem-chora-pela-ucrania-mas-ignora-a-dor-que-esta-ao-seu-lado#

 

 

 

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