Por que a Rússia não quer a expansão da Otan para o leste

CONFLITOSRÚSSIA
Bandeiras da Otan e seus membros
William Noah Glucroft – 25.02.2022
Depois que seu inimigo soviético ruiu, a Otan continuou crescendo. Até hoje se debate se essa expansão ajudou a garantir a paz ou constitui uma ameaça. Certo é que tem papel central nos ataques russos contra a Ucrânia.

A discussão sobre papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – aliança militar transatlântica fundada em 1949 especificamente para combater o império soviético na Europa – tem evoluído desde a dissolução da União Soviética, em 1991.

Na época, muitos especialistas em política externa instaram os líderes ocidentais triunfantes

  • para que estabelecessem uma nova estrutura de segurança
  • a fim de redefinir as relações com a Rússia, que herdou as ruínas da União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O Ocidente “tinha todas as cartas na mão em 1990-1991”, diz Dan Plesch, professor de diplomacia da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (Soas) da Universidade de Londres, à DW

. “A União Soviética conseguiu um fim [relativamente] pacífico do império, o que é quase sem precedentes e pelo qual não recebeu qualquer crédito.”

O fim da União Soviética precipitou uma enxurrada de reuniões e negociações de alto nível entre autoridades americanas e soviéticas – mais tarde russas –, mas

“nunca foi feito um esforço sério para integrar os russos”, afirma Plesch.

Contra a expansão

Em meio à intensa instabilidade política e econômica na Rússia na década de 90,

  • a oposição à aliança ocidental foi uma das poucas questões que uniram o espectro político fragmentado do país,
  • de acordo com documentos tornados públicos, do Arquivo de Segurança Nacional na Universidade George Washington, nos Estados Unidos.

“Acreditamos que a expansão da Otan para o leste é um erro. e um erro sério”,

afirmou Boris Yeltsin, o primeiro presidente pós-soviético da Rússia, numa entrevista coletiva em 1997, ao lado do então presidente dos EUA, Bill Clinton, em Helsinque, onde os dois assinaram uma declaração sobre controle de armas.

  • De fato, os documentos mostram um padrão de promessas que os negociadores americanos fizeram aos seus homólogos russos,
  • bem como discussões de política interna que se opõem à expansão da Otan para o Leste Europeu.

“No cenário atual, não é do interesse da Otan ou dos EUA que os Estados [do Leste Europeu] recebam a adesão plena à Otan e suas garantias de segurança”,

diz um memorando do Departamento de Estado americano em 1990, quando esses países ainda estavam emergindo do controle soviético, à medida que se desintegrava o Pacto de Varsóvia.

“Não desejamos, de forma alguma, organizar uma coalizão antissoviética cuja fronteira seja a fronteira soviética. Tal coalizão seria percebida de forma muito negativa pelos soviéticos.”

 

Política de segurança pós-URSS

  • Nenhuma dessas discussões se tornou política oficial, e nenhuma das supostas promessas originou um documento juridicamente vinculativo com a Rússia.
  • Além disso, ocorreram num contexto histórico específico: o Muro de Berlim acabara de cair, em novembro de 1989.

Especialmente os países bálticos, Lituânia, Letônia e Estônia – que fizeram parte da União Soviética entre 1940 e 1991 –, viram um impulso crescente a favor da autodeterminação política e de uma reorientação da estrutura de segurança da região.

As três nações apontaram para a Declaração da ONU sobre a Inadmissibilidade de Intervenção e Interferência nos Assuntos Internos dos Estados, que se refere à “independência política interna e externamente”.

 

Política de portas abertas da Otan com a Rússia

Após a dissolução da União Soviética, foi dissolvida em 1991 a aliança militar formada pelos países socialistas do Leste Europeu, o Pacto de Varsóvia.

  • O presidente americano Bill Clinton perseguiu então a Parceria para a Paz,
  • um programa da Otan ao qual a Rússia aderiu em 1994.

Porém houve desacordo sobre se o programa era uma alternativa à adesão à Otan ou um caminho em direção a ela.

Em 1997,

  • a aliança transatlântica e a Rússia assinaram o assim chamado “Ato Fundador” sobre relações mútuas, cooperação e segurança,
  • e o Conselho Otan-Rússia foi fundado em 2002,
  • ambos destinados a aumentar a colaboração entre as duas partes.

Moscou recebeu acesso e presença permanente na sede da Otan, em Bruxelas. Contudo, essa troca foi em grande parte sustada desde o ataque da Rússia à Ucrânia em 2014.

Durante todo o tempo,

  • a Otan manteve uma política de “portas abertas” para a adesão e defendeu o direito de todos os países de escolherem suas alianças.
  • Do ponto de vista ocidental, manter a Otan em suas fronteiras da Guerra Fria
  • só era válido enquanto as forças soviéticas permanecessem no Leste Europeu.

Nas negociações do Tratado Dois-Mais-Quatro, que selou a Reunificação da Alemanha em 1990, os dois Estados alemães e as quatro potências que ocuparam a Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial – Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética – acordaram que

  • nenhuma tropa da Otan pode estar estacionada no território da antiga República Democrática Alemã (RDA), sob governo comunista.
  • Até hoje, apenas as Forças Armadas alemãs (Bundeswehr) operam nesse local.

Os sentimentos da Rússia sobre a possível expansão da Otan para o leste eram bem conhecidos.

“Não importa quão sutil seja,

  • se a Otan adotar uma política que prevê a expansão para a Europa Central e o Leste Europeu sem manter as portas abertas para a Rússia,
  • isso seria universalmente interpretado em Moscou como uma ação dirigida contra a Rússia”,

escreveu, em 1993, o diplomata americano James Collins, num telegrama do Departamento de Estado.

Contudo, desde 1990, a Otan já passou por cinco rodadas de ampliação para incluir antigos territórios da União Soviética e vários ex-Estados do Pacto de Varsóvia.

 

Foto de 2004 mostra o então presidente dos EUA, George W. Bush, ao lado dos líderes de sete países do Leste Europeu que aderiam à Otan
Em 2004, George W. Bush saudou sete novos países-membros da Otan no Leste Europeu: Letônia, Eslovênia, Lituânia, Eslováquia, Romênia, Bulgária e EstôniaFoto: Charles Dharapak/AP Photo/picture alliance

 

A concepção estratégica da Otan, que rege a política da aliança, diz que a

“Otan não representa uma ameaça à Rússia” e pede uma “parceria estratégica verdadeira” entre as duas partes.

O documento de 2010

  • surgiu dois anos após a intervenção militar russa na Geórgia,
  • mas antes do primeiro ataque de Moscou contra a Ucrânia.
  • Baseia-se em muitos dos acordos pós-Guerra Fria que agora o presidente russo, Vladimir Putin, parece querer abandonar.

Em 2008, a Otan lançou a possibilidade de a Geórgia aderir à aliança. e em 2014 intensificou a cooperação com a Ucrânia. Ao mesmo tempo, muitos dos dispositivos de segurança da Guerra Fria – como verificação de controle de armas e linhas de comunicação – desapareceram.

Mau julgamento dos objetivos do Kremlin

Em 1999, a Otan executou uma campanha de bombardeio aéreo contra a Sérvia – aliada da Rússia –  durante a guerra do Kosovo. Putin foi eleito presidente pouco depois. Até hoje, e também no contexto da crise atual com a Ucrânia, ele menciona o bombardeio como prova da agressividade da Otan.

“Se a Ucrânia se filiar à Otan, isso serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia”,

afirmou Putin num discurso na segunda-feira, quando descreveu o país vizinho como um “trampolim” para um ataque da Otan contra a Rússia.

A Aliança Alântica rejeitou esse sentimento de cerco de Putin, citando o enorme território da Rússia que se estende até o Oceano Pacífico – embora a grande maioria da população russa viva no lado europeu do país, no oeste.

Para o diplomata James D. Bindenagel, ex-vice-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha,

  • o erro da Otan não foi tanto a ampliação em si,
  • mas não levar a sério a visão russa de ter sofrido uma traição.

“Nunca caímos nessa; pensávamos que era uma narrativa ridícula. Então dizíamos, ‘não, não foi nada disso”’,

explica Bindenagel à DW.

 

William Noah Glucroft (@wnglucroft) / Twitter

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William Noah Glucroft

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-russia-nao-quer-a-expansao-da-otan-para-o-leste/a-60919157

 

 

 

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