Francisco e a Igreja do futuro: “Uma Igreja em peregrinação. Sem rigidez ideológica. No escândalo da cruz do Verbo Encarnado está o futuro da Igreja”.

Em entrevista, papa diz que não é santo, conta que dança tango e cita Roberto Carlos ao confundir autoria de música | Mundo | G1

Il Fatto Quotidiano – 07 Fevereiro 2022 – Foto: Daqui

 Em entrevista gravada da residência da Casa Santa Marta, o pontífice reafirma a mensagem de paz e fala sobre os migrantes, o meio ambiente, a relação pais-filhos, o trabalho, o futuro da Igreja. Mas o apresentador não apresenta perguntas sobre os temas mais incômodos: pedofilia, corrupção nos círculos eclesiásticos, inimigos internos do Vaticano.
“Hoje o maior mal da Igreja é o mundanismo espiritual“, diz Francisco, “que dá origem à perversão do clericalismo”

Perguntado sobre como imagina a Igreja do futuro, responde: “Uma Igreja em peregrinação […] sem rigidez ideológica… No escândalo da cruz do Verbo Encarnado está o futuro da Igreja”.

A reportagem é publicada por Il Fatto Quotidiano, 06-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

“A guerra é um contrassenso da Criação. Deus cria o homem e a mulher e os convida a trabalhar, ter filhos, cultivar a terra: e fazem guerra entre irmãos. É por isso que a guerra é sempre destruição. Trabalhar a terra, cuidar dos filhos, criar uma família, fazer a sociedade crescer é construir: fazer a guerra é destruir”.

Em entrevista (gravada) com Che tempo che fa da residência da Casa Santa Marta, o Papa Francisco, em primeiro lugar, reitera justamente a mensagem de paz. Na longa entrevista, o pontífice fala sobre os migrantes, o meio ambiente, a relação pais-filhos, o trabalho, o futuro da Igreja.

Mas o apresentador Fabio Fazio não apresenta perguntas sobre os temas mais incômodos: pedofilia, corrupção nos meios eclesiásticos, inimigos internos do Vaticano. Temas sobre os quais, inclusive, o papa já mostrou que não reluta em falar.

A guerra, diz Francisco, está

“em primeiro lugar” no mundo de hoje, dominado pela “cultura da indiferença”.

E dá o exemplo do Iêmen, dilacerado há anos por um conflito com milhares de vítimas. Se a guerra está em primeiro lugar, em segundo lugar

“há as crianças, os migrantes, aqueles que não têm o que comer: claro, há quem tente ajudá-los, mas em primeiro lugar está a guerra. Guerra ideológica, de poder, comercial. E muitas fábricas de armas. É duro de dizer, mas é a verdade. As guerras produzem crianças que morrem de frio, mas também a criança síria que morreu na praia”, o pequeno Aylan, “e muitas outras que não conhecemos”.

 

O papa começa definindo a primeira pergunta de Fazio

(“Como consegue fazer isso, como consegue abraçar todo mundo e suportar uma carga tão pesada?”) “um pouco forçada, porque vejo tanta gente que suporta coisas ruins todos os dias, não seria honesto dizer que suporto tanto. Eu suporto como todos suportam. E, além disso, eu não estou sozinho, há muitas pessoas que suportam junto comigo. Não sou campeão de levantamento de peso, suporto as coisas como a maioria das pessoas”.

E define a política de rejeição dos migrantes como “criminosa”, da qual recorda a odisseia infernal:

“Para chegar ao mar sofrem muito. Há vídeos sobre os campos de concentração, uso esta palavra a sério, na Líbia, sobre o que sofrem nas mãos dos traficantes. Depois eles arriscam atravessar o Mediterrâneo e, às vezes, são mandados de volta. Uma coisa é certa: cada país deve dizer quantos migrantes pode acolher. É um problema de política interna que deve ser bem pensado. Existe a União Europeia, precisamos chegar a um acordo para um equilíbrio”. Enquanto “agora há uma injustiça, eles vão para a Espanha e Itália, os dois países mais próximos”.

“Tocar o mal, como médicos e enfermeiros”

“O migrante”, explica o Papa, “deve ser acolhido, acompanhado, promovido e integrado. Há países, como Espanha e Itália, que precisam de pessoas por causa do declínio demográfico em que vivem, e um migrante integrado ajuda esses países. O fato de o Mediterrâneo ser hoje o maior cemitério da Europa deve fazer-nos pensar”.

Em seguida, outra passagem sobre a indiferença:

“Há sempre uma tentação muito ruim: olhar para o outro lado, não olhar. Quando há uma tragédia, a gente reclama um pouco e depois é como se nada tivesse acontecido. Não basta ver, é preciso sentir, tocar. Falta-nos tocar as misérias e tocá-las nos leva ao heroísmo, penso nos médicos e enfermeiros que tocaram o mal durante a pandemia e escolheram por ficar lá. O tato é o sentido mais pleno”. Em vez disso, hoje “prevalece a psicologia da indiferença: vejo, mas não me sinto envolvido”.

“Criminoso”,para o chefe da Igreja Católica, também é

“jogar plástico no mar: mata a biodiversidade, mata a terra, mata tudo. Cuidar da criação é nossa vocação”.

O apresentador lhe pergunta sobre a famosa foto que o imortaliza ao sair de uma loja de discos em Roma: “Que música o senhor ouve, que discos comprou?”

“Não fui às compras”, responde Francisco, “os donos da loja são meus amigos há anos e eles a reorganizaram, fui abençoar a nova loja. Deu o acaso de um jornalista estar justamente ali, esperando um amigo para pegar um táxi”.

“Olhar de cima para baixo apenas para estender a mão”

“O que diria para nós pais, pais e mães de jovens e adolescentes que parecem não sentir o sofrimento dos outros?”, pergunta Fazio. “Digo apenas uma palavra: proximidade”, responde o pontífice.

“Quando confessam casais jovens ou converso com eles sempre pergunto: “Você brinca com seus filhos?”

Às vezes ouço respostas dolorosas:

“Padre, quando eu saio eles dormem e quando eu volto também”. Esta é a sociedade cruel que afasta os pais dos filhos. É importante brincar com as crianças, ficar com os filhos, não se assustar com as coisas que dizem. Mesmo quando uma criança comete alguns deslizes, é preciso ficar ao seu lado. Os pais devem ser, permita-se dizer esta palavra, cúmplices dos filhos”.

“Quantas vezes”, continua o papa, “se olham os outros de alto a baixo, para dominá-los, subjugá-los e não para ajudá-los a se levantar? Há funcionárias que pagam diariamente com o corpo pela estabilidade no emprego. Olhar de cima para baixo”, explica, estendendo a mão para a tela, “só é permitido para estender a mão, ajudar a se levantar”.

Fazio pergunta se alguns não merecem o perdão e a misericórdia de Deus:

“Deus nos fez bons, mas livres. Entre as nossas liberdades está a de fazer tanto bem, mas também tanto mal. Direi algo que talvez deixe alguns escandalizados: ser perdoado é um direito humano. Todos nós temos o direito de ser perdoados se o pedirmos. Nós nos esquecemos disso”.

E cita a parábola do filho pródigo, em que

“o pai esperava o filho para perdoá-lo: o filho tinha o direito de ser perdoado, mas não o sabia, e por isso duvidava tanto”.

“O clericalismo é uma perversão, a ideologia toma o lugar do Evangelho”

“Uma pergunta que nunca consegui responder”, admite Francisco, “é por que as crianças sofrem. Tenho fé, tento amar a Deus, mas não encontro uma resposta. Deus é forte e onipotente no amor, enquanto o mal e a destruição estão nas mãos de outro. Não se fala com o mal, falar com o mal é perigoso: Jesus nunca falou com o diabo, ele o expulsou ou lhe respondeu com a Bíblia. Só encontro uma resposta para o sofrimento das crianças: sofrer com elas”.

O papa cita uma passagem de sua encíclica Fratelli Tutti sobre as “sombras” da sociedade:

“Muitos líderes mundiais têm boas intenções, mas são impotentes diante das sombras presentes hoje no mundo”.

Como imagina a Igreja do futuro?

Uma Igreja em peregrinação. Hoje o maior mal da Igreja é o mundanismo espiritual. Um grande teólogo costumava dizer que o mundanismo é o pior que pode acontecer à Igreja, pior do que os papas libertinos. O mundanismo faz crescer algo ruim, que é o clericalismo, uma perversão da Igreja. O clericalismo gera rigidez, e sob a rigidez há podridão. Assim, a ideologia toma o lugar do Evangelho”.

“Eu dou meu jeito, não sou tão santo”

Já se sentiu sozinho, tem verdadeiros amigos?

“Sim, tenho amigos que me ajudam, que conhecem minha vida. Por isso moro em Santa Marta, esse hotel onde posso encontrar muitas pessoas, conversar com todos. Uma das razões pelas quais eu não fui morar no apartamento papal é que os papas que ficavam lá antes eram santos: eu dou meu jeito, não sou tão santo”.

O que queria fazer quando crescesse, pergunta Fazio?

“A primeira coisa que eu queria fazer era ser açougueiro, porque quando ia às compras eu o via com um envelope cheio de dinheiro. Isso – ironizou – é um pouco o espírito genovês que herdei de minha mãe. Também os piemonteses são um pouco apegados a dinheiro, mas dissimulam. Depois eu gostava de química, trabalhei em laboratório, estava me preparando para entrar em medicina, mas decidi entrar no seminário. Mas a química me seduziu bastante”.

 

Il Fatto Quotidiano

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/616127-papa-francisco-a-entrevista-a-che-tempo-che-fa-hoje-o-maior-mal-da-igreja-e-o-mundanismo-espiritual-que-da-origem-a-perversao-do-clericalismo#

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