A oração de Fernando Pessoa

Prece" - O poema 'oração' de Fernando Pessoa declamado por Bethânia

“Senhor, Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

 

 

1. “Não acredito em Deus porque nunca o vi.” “Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos / Por isso se nos não mostrou…”

Estas são afirmações célebres de Fernando Pessoa.

É verdade: se não houvesse nenhuma experiência de Deus, se ele se não mostrasse, se não se desse nenhuma possibilidade de encontrá-lo, como é que alguém poderia acreditar nele?

À pessoa religiosa Deus manifesta-se

  • tanto na natureza – na sua contingência e ao mesmo tempo na sua beleza, no seu fascínio e nos seus enigmas, remete para uma Fonte criadora -,
  • como na história, concretamente na história da liberdade e nos seus dinamismos:
  • no apelo ao bem e ao respeito incondicional pela dignidade humana em si mesmo/a e nos outros
  • e nesse impulso imparável de transcendência em ordem à realização pessoal e colectiva e da realidade toda, que só no próprio Infinito pode encontrar a sua satisfação adequada.

De qualquer modo, o encontro com Deus só pode dar-se verdadeiramente numa experiência pessoal. É de tal modo decisiva a experiência que Simone Weil, a filósofa e mística, dizia:

“De duas pessoas que não fizeram a experiência de Deus, a que O nega está provavelmente mais perto dele do que a que O afirma.”

Esta experiência pode acontecer em múltiplas ocasiões e de muitos modos:

  • na palavra que nos fala em silêncio no mais profundo de nós,
  • na vivência da beleza sem nome de um pôr do Sol no horizonte sobre o oceano ou no longe da montanha,
  • naquele súbito saber-se a si próprio como dom recebido a partir de uma fonte que jorra desde o abismo,
  • no sentido da vida que de repente se vê ameaçado pela morte,
  • na exaltação sublime de uma sinfonia ou do encontro no amor,
  • no olhar abissal, triste ou saltitante de um ser humano,
  • na solidão insuportável de um abandono,
  • na visita surpreendente de um rosto que nos obriga a um transcendimento total, na recusa existencial radical do absurdo,
  • no apelo suplicante e irrecusável de um esfomeado,
  • no abalo até à raiz provocado pela morte da pessoa amada, no toque irrecusável do ser perguntado e do perguntar sem limites,
  • naquela inquietação que impele permanentemente a pôr-se a caminho,
  • numa experiência única de Jesus Cristo vivo,
  • no acontecimento mais simples, que é, como escreveu o ateu Ernst Bloch, “a mística do quotidiano”, sempre em conexão com “a pergunta inconstruível”…

Há sinais de transcendência no mundo. Deus aparece implicado nas experiências radicais e originárias da existência humana, e todas estas experiências são, em última análise, expressão do reconhecimento de que só no Infinito o finito encontra a sua verdade.

A experiência religiosa de Deus é a experiência pessoal mais radical que um ser humano pode fazer. Ela transforma a vida, de tal modo que já nada é como era.

Estritamente falando, sobre a relação eu-tu entre Deus e o Homem só pode falar quem fez a experiência. Quem olha de fora é como se estivesse perante o vazio, pois Deus não é objecto de curiosidade objectivante.

Mas, quando essa luz interior se acende, a pessoa pode experienciar que a sua existência já não soçobra no nada, não é roída pelo vazio, mas participa no mistério incomensurável, insondável e inesgotável da plenitude do Ser.

 

2. Fernando Pessoa rezava assim:

“Senhor,

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a Lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.”

 

Esta era a belíssima oração de Fernando Pessoa, num texto que deve ser de 1912.

O que é rezar?

Muitas vezes, crentes e até não crentes queixam-se de que Deus deve estar surdo. Mas ainda bem que Deus não ouve as nossas orações, pois frequentemente só pedimos disparates.

  • Em vez de pedir o Espírito Santo, como Jesus mandou,
  • pedimos a Deus o triunfo do nosso egoísmo e o abate dos nossos adversários;
  • honra, glória e riqueza para nós, e os outros que fiquem na miséria e sejam nossos servos…

Por um lado, queremos ser livres e autónomos e, por outro, desejaríamos que Deus resolvesse todos os nossos problemas…

Com a ladainha das nossas petições, quereríamos manter-nos na preguiça, continuar infantis e colocar Deus pura e simplesmente à nossa disposição e serviço…

Afinal, Deus dá-nos tudo o que é bom, e rezar é agradecer e louvar e preparar-se para receber o que Deus tem para nos dar…

Rezar é ficar à escuta do que Deus no silêncio tem para nos dizer.

Rezar não é a tentativa idólatra de converter Deus ao nosso desejo, mas tentarmos nós próprios converter-nos ao desígnio de Deus, que consiste na liberdade digna e na dignidade livre de todos.

Rezar é fazer a paz dentro de nós e lembrar o essencial e olhar para o Infinito e ver o Divino em todas as coisas e contemplar a Presença viva de Deus no mais íntimo de nós e no rosto de cada homem e mulher…

 

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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