OUTRASMÍDIAS – DIREITA ASSANHADA

Dario Pignotti, no Página 12 –  19/01/2022 – Imagem: Danilo Balderrama/Reuters

Jornal argentino amplia investigação sobre encontros encobertos entre o presidente brasileiro e Jeanine Áñez, que assumiu a Bolívia após golpe e está presa. Suspeita: articulação com direita brasileira, tráfico de armas e fuga de funcionários. Tradução de César Locatelli, na Carta Maior

 

Jair Bolsonaro reconheceu ter se encontrado com a ex-presidente boliviana Jeanine Añez, confirmando as suspeitas sobre o apoio brasileiro ao golpe que derrubou o presidente Evo Morales. O possível encontro pode ser a ponta de uma meada onde conspirações, fugas clandestinas, fuga de ministros e, talvez, até mesmo a entrega de armas se enredem.

Em um ato aparentemente involuntário, o ex-capitão e presidente afirmou:

“A ex-presidente da Bolívia, Jeanine… Eu estive com ela uma vez, ela é uma pessoa legal que está na prisão”.

Para depois acrescentar, com raiva, “você sabe qual é a acusação contra ela? (ter cometido) atos antidemocráticos”.

Bolsonaro troca afagos com ditadora boliviana, que também está com coronavírus - Revista Fórum

Na foto: Janine Añes e Bolsonaro: eles andaram tendo encontros secretos e suspeitos / Revista Forum

Como até o momento não há notícias de nenhum encontro oficial entre os dois, essa conversa ocorreu secretamente.

Segundo essa declaração,

  • para Bolsonaro, atacar instituições é algo que não deve ser punido com a prisão da ex-presidente,
  • que permanece detida em um presídio em La Paz, onde se prepara para enfrentar um novo julgamento.

O que Bolsonaro não disse foi quando e onde ocorreu o encontro com a mulher que governou de fato a Bolívia, entre novembro de 2019 e dezembro de 2020, quando o presidente Luis Arce tomou posse.

Nesse período de pouco mais de um ano, o avião presidencial boliviano, que só pode decolar com autorização do chefe de Estado ou com ele a bordo, voou com frequência e clandestinamente ao Brasil.

A confissão

Em alguns canais bolsonaristas do YouTube,

  • eles aparentemente perceberam a gravidade das declarações do presidente sobre o encontro com Añez e as retiraram do ar.
  • O comentário presidencial, ou melhor, a confissão, pode ser levada à consideração do tribunal que, a partir desta semana, começará a julgar Añez junto com os ex-chefes militares e policiais no processo denominado “Golpe de Estado II”.

Uma ex-alta funcionária de Morales e diplomata que atualmente trabalha fora de seu país

  • analisou, em diálogo com Página 12, em condição de anonimato, a conexão Brasília-La Paz
  • e os elementos que tal fato pode aportar ao iminente novo julgamento.

“Acredito que a declaração do presidente Bolsonaro é importante para este julgamento porque é mais uma prova de que o governo de Evo Morales foi atacado por uma organização internacional. Isso significa que o golpe de estado recebeu ajuda desde o exterior.”

Devemos esperar a evolução desta fase oral do julgamento, propõe a ex-funcionária, mas

“se Añez aceitar que houve essa reunião, ela terá que explicar por que não a informou”.

  • “A senhora Añez está sendo investigada pelo modo não constitucional como chegou ao poder, usando o caminho da violência.
  • O povo boliviano quer que ela seja investigada pelas mortes ocorridas para que ela chegasse ao poder”,

continuou o diplomata.

 

Añez, bem-vinda

O encontro secreto de Bolsonaro e Añez

  • está em sintonia com o apoio público dado por Brasília ao movimento que depôs Morales.
  • Na manhã de 13 de novembro de 2019, horas após a posse de Añez,
  • o Brasil foi o primeiro país da região a parabenizar o novo governo “constitucionalmente” surgido.

Añez chegou ao Palacio del Quemado junto com o líder de Santa Cruz de la Sierra, Fernando Camacho, apelidado de “Bolsonaro da Bolívia”, que em meados de 2019 havia sido recebido pelo então chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Após a conversa, Camacho e Araújo foram fotografados junto com a deputada Carla Zambelli, de ardorosa estirpe bolsonarista.

Vale ressaltar que

  • o golpe boliviano não foi do novo tipo “soft”, seja parlamentar ou via “lawfare”,
  • como os que derrubaram Dilma Rousseff em 2016 e o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo em 2012.

O golpe boliviano

  • seguiu os moldes clássicos, com a participação de policiais e militares,
  • guardando alguma semelhança com aqueles que levaram às ditaduras dos anos 60 e 70 até hoje defendidas pelo presidente brasileiro.

O apoio brasileiro ao regime civil-militar de La Paz continuou em 2020

  • com o objetivo de construir uma hegemonia regional de direita,
  • que incluiu o apoio aos candidatos Keiko Fujimori no Peru e Antonio Kast no Chile.

Para isso, era necessário impedir o retorno do partido Movimento ao Socialismo, de Morales, através da candidatura de Luis Arce, que finalmente venceria por ampla margem em outubro de 2020.

Dessa vez, o Brasil foi o último país importante a manifestar seus votos ao vitorioso Arce, ex-ministro da Economia e Finanças durante os governos de Morales.

 

Voos

Página 12 publicou em junho de 2020,

  • quando Añez estava no Palacio del Quemado há seis meses,
  • um artigo assinado por Felipe Yapur sobre os “voos suspeitos e repetidos” do avião presidencial da Força Aérea Boliviana 001, o FAB001, com destino ao Brasil.

A investigação é baseada em informações da empresa de rastreamento de voos dos EUA FlightAware.

Na lista de viagens ao Brasil

  • estão várias com destino a Brasília onde poderia ter ocorrido o encontro entre Bolsonaro e Añez,
  • ao qual o ex-capitão se referiu durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais ocorrida meses atrás,
  • quando acusou seu rival, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, de “apoiar a volta do povo de Evo Morales na Bolívia”.

O primeiro voo do FAB001 foi em 11 de novembro de 2019

“após a queda do presidente Morales e antes da assunção de Añez”,

diz a fonte boliviana consultada por este jornal.

  • “Minha percepção é que o movimento do avião no dia 11 de novembro é extremamente estranho, não sabemos se era para levar ou trazer algo do Brasil.
  • Sou diplomata de carreira, quando um presidente sai do país ele tem que avisar e deixar o vice-presidente em seu lugar, e isso não aconteceu.”

Senador Carvalho

O senador brasileiro Rogério Carvalho, do PT, não tem dúvidas sobre a participação brasileira na trama contra Morales.

“De zero a dez, a chance de apoio de Bolsonaro ao golpe é dez.”

Questionado por este jornal, o deputado afirmou que

“Bolsonaro dá seu total apoio a qualquer governo que seja antidemocrático ou a forças políticas antidemocráticas”.

Segundo Carvalho, o Congresso poderia tomar providências sobre o assunto e descobrir como foram as relações de Bolsonaro com Añez e outras possíveis conexões.

Uma área cheia de perguntas sem resposta é a fronteira entre os dois países, com mais de 3.400 quilômetros de extensão,

  • por onde teriam passado recursos para o movimento sedicioso de 2019
  • e que poderia ter servido como zona de fuga em 2020 para os funcionários de Añez,
  • o ministro da defesa Luis Fernando López e o ministro do governo Arturo Murillo.

 

Armas?

A diplomata e ex-funcionária de Morales lembra que

  • Murillo, depois de passar pelo Brasil, foi preso nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e outros crimes relacionados à compra de armas.
  • Ela suspeita que o ex-chefe da Defesa, López, pode estar escondido no Brasil.

A nossa fonte, que entrevistamos em agosto e voltamos a consultar brevemente no domingo, refere-se novamente às viagens clandestinas da FAB001 e destaca a viagem realizada no final de dezembro de 2020.

A data desse voo

  • coincide com a de um documento do Ministério da Defesa boliviano
  • em que se menciona que uma carga de armas deve ser retirada em 30 de dezembro.

“Como simples cidadã me pergunto:

  • o avião presidencial estava no Brasil em dezembro? Sim.
  • Existe algum documento em papel timbrado do Ministério da Defesa do Estado Plurinacional da Bolívia afirmando que haveria entrega de armas no Brasil? Sim.
  • É possível que em um aeroporto no Brasil as armas sejam entregues a outro país. Isto é normal?”

pergunta a ex-funcionária boliviana.

E conclui propondo que

  • sejam investigados os pontos de “contato”que relacionam “Bolsonaro dizendo que se encontrou com Añez”
  • com a possível “saída do país da ex-presidente” e a suposta “entrega de armas no Rio”.