O Papa pede que o trabalho “seja resgatado da lógica do mero lucro e possa ser vivido como um direito e dever fundamental da pessoa”

El Papa, con casco de obrero

  • Papa pensa “nas crianças que são obrigadas a trabalhar e naquelas que vasculham os lixões em busca de algo útil para trocar…”
  • “Muitos jovens, muitos pais e muitas mães vivem o drama de não ter um emprego que lhes permita viver com serenidade”
  • “Nestes tempos de pandemia muitas pessoas perderam o emprego e algumas, esmagadas por um peso insuportável, chegaram ao ponto de tirar a própria vida”
  • “O trabalho muitas vezes é refém da injustiça social e, ao invés de ser um meio de humanização, torna-se uma periferia existencial”

 

Em seu ciclo catequético sobre São José, o Papa Francisco aborda seu papel de “carpinteiro”, trabalho que o próprio Jesus também realizou. 

Bergoglio aproveitou a oportunidade para reivindicar a dignidade do trabalho e denunciar a atual exploração de tantos trabalhadores, especialmente “nas crianças que são obrigadas a trabalhar e naqueles que vasculham os aterros em busca de algo útil para trocar”.

A reportagem é de Jose Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 12-01-2022.

 

 

Depois de lamentar o drama do desemprego, sobretudo “nestes tempos de pandemia muitas pessoas perderam o emprego e algumas, esmagadas por um peso insuportável, chegaram ao ponto de tirar a própria vida”,

Francisco denuncia que

“o trabalho é muitas vezes refém do injustiça social” e pede que o trabalho “seja resgatado da lógica do mero lucro e possa ser vivido como direito e dever fundamental da pessoa”. Porque “os governantes devem dar a todos a chance de ganhar seu pão, porque isso traz dignidade”.

Catequese do Papa

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Os evangelistas Mateus e Marcos definem José como um “carpinteiro” ou “marceneiro”. Ouvimos recentemente que o povo de Nazaré, ouvindo Jesus falar, se pergunta: “Não é este o filho do carpinteiro?” (13.55; cf. Mc 6.3). Jesus praticava o ofício de seu pai.

O termo grego tekton, usado para indicar a obra de José, foi traduzido de várias maneiras. Os Padres latinos da Igreja fizeram isso com “carpinteiro”.

Mas lembremos que na Palestina do tempo de Jesus, a madeira era usada, além de fazer arados e móveis diversos, também para construir casas, que tinham janelas de madeira e telhados de terraços feitos de vigas ligadas entre si por galhos e terra.

 

Foto: Religión Digital

 

Portanto, “carpinteiro” ou “trabalhador da medeira” era uma qualificação genérica, indicando tanto marceneiros quanto trabalhadores envolvidos em atividades relacionadas à construção. Um trabalho bastante árduo, tendo que trabalhar materiais pesados, como madeira, pedra e ferro.

Do ponto de vista económico, não assegurava grandes lucros, como se pode deduzir do fato de Maria e José, quando apresentaram Jesus no Templo, terem oferecido apenas um par de rolas ou pombos (cf. Lc 2,24). , conforme prescrito pela Lei para os pobres (cf. Lv 12,8).

Portanto, o adolescente Jesus aprendeu esse ofício com seu pai. Por isso, quando já adulto começou a pregar, seus conterrâneos atônitos se perguntaram:

“De onde vem essa sabedoria e esses milagres?”(Mt 13,54),

e escandalizaram-se por causa dele (cf. v. 57).

Esta informação biográfica sobre José e Jesus faz-me pensar em todos os trabalhadores do mundo, particularmente

  • aqueles que trabalham nas minas e em certas fábricas;
  • naqueles que são explorados com trabalho negro;
  • nas vítimas do trabalho;
  • nas crianças que são obrigadas a trabalhar e naquelas que vasculham os lixões em busca de algo útil para trocar…

Deixem-me repetir isso mais uma vez. Aqueles que trabalham de maneira informal, sem nenhuma segurança. E hoje tem muito trabalho informal.

É terrível que uma criança em idade de brincar seja forçada a trabalhar como um adulto. São todos nossos irmãos e irmãs, que ganham a vida assim, sem dignidade. E isso acontece hoje no mundo.

 

Foto: Religión Digital

 

Mas também penso em quem está sem trabalho; naqueles que se sentem justamente feridos em sua dignidade por não conseguirem encontrar um emprego. Eles voltam para casa sem ter encontrado nada.

  • Dignidade não é trazer pão para casa.
  • Dignidade é ganhar pão, e se não dermos às pessoas a capacidade de ganhar pão, é uma injustiça social.
  • Os governantes devem dar a todos a chance de ganhar seu pão, porque isso traz dignidade.

Muitos jovens, muitos pais e mães vivem o drama de não ter um emprego que lhes permita viver com serenidade. E muitas vezes a busca se torna tão dramática que os leva ao ponto de perder toda a esperança e desejo de vida.

Nestes tempos de pandemia, muitas pessoas perderam o emprego e algumas, esmagadas por um peso insuportável, chegaram ao ponto de tirar a própria vida.

Hoje gostaria de lembrar cada um deles e suas famílias. Oremos por esses homens e mulheres desesperados, porque não conseguem encontrar trabalho.

O fato de que o trabalho é um componente essencial na vida humana, e também no caminho da santificação, não é suficientemente levado em conta.

  • Trabalhar não serve apenas para obter o sustento adequado:
  • é também um lugar onde nos experimentamos, nos sentimos úteis e aprendemos a grande lição da concretude, que ajuda a evitar que a vida espiritual se transforme em espiritualismo.

Mas infelizmente o trabalho é muitas vezes refém da injustiça social e, ao invés de ser um meio de humanização, torna-se uma periferia existencial. Muitas vezes me pergunto:

  • com que espírito fazemos nosso trabalho diário?
  • Como lidamos com o cansaço?
  • Vemos nossa atividade ligada apenas ao nosso destino ou também ao destino dos outros?

Na verdade, o trabalho é uma forma de expressar nossa personalidade, que é por sua natureza relacional. E uma maneira de expressar sua criatividade.

É bom pensar que o próprio Jesus trabalhou e que aprendeu esta arte de São José.

  • Hoje devemos nos perguntar o que podemos fazer para recuperar o valor do trabalho;
  • e que contribuição, como Igreja, podemos dar para que seja resgatada da lógica do mero benefício
  • e possa ser vivida como direito e dever fundamental da pessoa, que expressa e aumenta sua dignidade.

 

Foto: Religión Digital

 

Queridos irmãos e irmãs, por tudo isso hoje desejo recitar com vocês a oração que São Paulo VI ofereceu a São José em 1º de maio de 1969:

 

Oh São José
patrono da Igreja,
você que junto com o Verbo encarnado
você trabalhou todos os dias para ganhar seu pão,
encontrando nele a força para viver e trabalhar;
você que sentiu a inquietação de amanhã,
a amargura da pobreza, a precariedade do trabalho;
tu que hoje mostras o exemplo da tua figura,
humilde diante dos homens,
mas muito grande diante de Deus,
protege os trabalhadores em sua dura existência diária,
defende-0s do desânimo,
da revolta da negação,
como da tentação do hedonismo;
e guarda a paz do mundo,
essa paz que é a única que pode garantir o desenvolvimento dos povos.

 

Foto: Religión Digital

 

Saudações do Papa

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje refletimos em nossa catequese sobre o trabalho de São José, que era um “artesão”, um marceneiro que podia cuidar tanto da fabricação de utensílios e móveis quanto da construção de casas. Trabalho duro e pouco pago, que Jesus aprendeu com seu pai.

Essa condição de trabalhador pobre causa escândalo entre os contemporâneos de Jesus, que não aceitam seus ensinamentos e as obras extraordinárias que realiza não são explicadas. Hoje também há muitas pessoas que sofrem com o trabalho, pessoas que são exploradas ou que não conseguem encontrar trabalho decente. Hoje quero rezar por todos eles e por suas famílias.

 

Foto: Religión Digital

 

Devemos recuperar o sentido do trabalho, como elemento essencial que dignifica o homem e contribui para a sua santificação.

  • Trabalhar, como José e Jesus, além de nos dar a possibilidade de ganhar a vida e sustentar as nossas famílias,
  • permite-nos realizar-nos concretamente,
  • sentir-nos úteis
  • e colaborar num projeto que, em última análise, pertence a Deus.

Saúdo cordialmente os fiéis de língua espanhola. Encorajo-vos a refletir sobre o significado que damos ao nosso próprio trabalho, a vê-lo como um serviço, como uma forma de ajudar os outros com o nosso esforço. Que o Senhor te abençoe e abençoe todas as suas tarefas, para que sejam sempre para maior glória de Deus. Muito obrigado.

 

 

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