Em Atenas, o papa Francisco denuncia o ‘retrocesso da democracia’, um ‘ceticismo em relação à democracia’

Papa com a presidente da Grécia, Katerina Sakellaropoulou

06 Dezembro 2021  –  Papa Francisco no seu discurso às autoridades na Grécia, com a presença da Presidenta da República: Katerina Sakellaropoulou| Foto: Santa Sé 

Na manhã de sábado, 04-12-2021, o papa Francisco encontrou as autoridades políticas e religiosas, os membros do Corpo Diplomático e Representantes da Sociedade Civil no Palácio Presidencial de Atenas.Na ocasião o Papa fez um importante pronunciamento que reproduzimos na íntegra.O discurso é publicado, em português, pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 04-12-2021.

Eis o discurso.

Senhora Presidente da República,
Membros do Governo e do Corpo Diplomático,
Distintas Autoridades religiosas e civis,
Ilustres Representantes da sociedade e do mundo da cultura,
Senhoras e Senhores!Saúdo-vos cordialmente e agradeço à Senhora Presidente as palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome vosso e de todos os cidadãos gregos. É uma honra estar nesta cidade gloriosa. Faço minhas as palavras de São Gregório Nazianzeno:

«Atenas áurea e dispensadora de bem (…), enquanto procurava a eloquência, encontrei a felicidade» (Oratio 43, 14).

Venho como peregrino a estes lugares que superabundam de espiritualidade, cultura e civilização, para beber na mesma felicidade que entusiasmou o grande Padre da Igreja:

  • era a alegria de cultivar a sabedoria e partilhar a sua beleza;
  • e por conseguinte uma felicidade não individualista nem isolada, mas, porque nascida do espanto, tende para o infinito e abre-se à comunidade;
  • uma felicidade sapiente, que a partir destes lugares se espalhou por toda a parte:

sem Atenas e sem a Grécia, a Europa e o mundo não seriam o que são; seriam menos sapientes e menos felizes.

 

A partir daqui dilataram-se os horizontes da humanidade. Também eu me sinto convidado a erguer o olhar e pousá-lo na parte mais alta da cidade, na Acrópole. Visível de longe aos viajantes que aqui desembarcaram no decurso dos milênios, oferecia uma alusão imprescindível à divindade. É o apelo a alargar os horizontes rumo ao Alto:

  • do Monte Olimpo à Acrópole e ao Monte Athos,
  • Grécia convida o ser humano de cada tempo a orientar a viagem da vida para o Alto, para Deus,
  • porque temos necessidade da transcendência para ser verdadeiramente humanos.

E enquanto hoje no Ocidente, que daqui surgiu, se tende a ofuscar a necessidade do Céu, enredados pelo frenesi de mil correrias terrenas e pela ganância insaciável dum consumismo despersonalizante,

  • estes lugares convidam a deixarmo-nos maravilhar pelo infinito, a beleza do ser, a alegria da fé.
  • Por aqui passaram as vias do Evangelho, que uniram Oriente e Ocidente, Lugares Santos e Europa, Jerusalém e Roma;
  • aqueles Evangelhos que, para levar ao mundo a boa nova de Deus amante do homem, foram escritos em grego, língua imortal usada pela Palavra – pelo Logospara se expressar, linguagem da sapiência humana feita voz da Sapiência divina.

 

 

Mas nesta cidade o olhar, além de ser impelido para o Alto, é-o também para o outro. No-lo recorda o mar, sobre o qual se debruça Atenas e que orienta a vocação desta terra, situada no coração do Mediterrâneo para ser ponte entre os povos.

  • Aqui, grandes historiadores se apaixonaram na narração das histórias dos povos vizinhos e distantes.
  • Aqui, segundo a conhecida afirmação de Sócrates, começaram a sentir-se cidadãos não só da própria pátria, mas do mundo inteiro.
  • Cidadãos: aqui o homem tomou consciência de ser «um animal político»(Aristóteles, Política, I, 2) e, como parte duma comunidade, nos outros viu, não súditos, mas cidadãos com os quais deviam organizar juntos a polis.
  • Aqui nasceu a democracia. Milênios depois, o berço tornou-se uma casa, uma grande casa de povos democráticos: refiro-me à União Europeia e ao sonho de paz e fraternidade que constitui para muitos povos.

 

Contudo não se pode deixar de constatar, com preocupação, que hoje – e não só no continente europeu – se verifica um retrocesso da democracia.

  • Esta exige a participação e o envolvimento de todos e, consequentemente, requer fadiga e paciência.
  • É complexa, ao passo que o autoritarismo é despachado, e as garantias fáceis propostas pelos populismos aparecem tentadoras.

Em várias sociedades, preocupadas com a segurança e anestesiadas pelo consumismo, o cansaço e o descontentamento levam a uma espécie de «ceticismo democrático».

  • Mas a participação de todos é uma exigência fundamental;
  • e não só para alcançar objetivos comuns, mas porque responde àquilo que somos:
  • seres sociais, irrepetíveis e ao mesmo tempo interdependentes.

 

Entretanto há também um ceticismo em relação à democracia provocado

  • pela distância das instituições,
  • pelo medo da perda de identidade,
  • pela burocracia.

O remédio para isto não está

  • na busca obsessiva de popularidade, na sede de visibilidade,
  • na proclamação de promessas impossíveis nem na adesão a colonizações ideológicas abstratas,
  • mas na boa política.

Porque a política é uma coisa boa e deve sê-lo na prática, como responsabilidade máxima do cidadão, comoarte do bem comum. Para que o bem seja verdadeiramente compartilhado, uma atenção particular – diria prioritária – deve ser prestada às faixas mais frágeis.

Esta é a direção a seguir, que um pai fundador da Europa indicou como antídoto às polarizações que animam a democracia, mas arriscam-se a exasperá-la:

«Fala-se muito de quem vai à esquerda ou à direita, mas o ponto decisivo é avançar e ir para a frente, quer dizer, caminhar rumo à justiça social» (A. de Gasperi, Discurso proferido em Milão, 23/IV/1949).

Neste sentido, há necessidade de mudar o passo,

  • vendo como dia a dia se difundem medos, amplificados pela comunicação virtual,
  • e se elaboram teorias para se contrapor aos outros.

Em vez disso, ajudemo-nos a passar

  • do tomar partido ao participar;
  • do empenho em apoiar apenas a própria parte ao envolvimento ativo em prol da promoção de todos.

 

 

Do tomar partido a participar: tal é a motivação que nos deve mover em várias frentes.

Penso no clima, na pandemia, no mercado comum e, sobretudo, nas pobrezas generalizadas. São desafios que exigem uma colaboração concreta e ativa.

  • Precisa dela a comunidade internacional, para abrir sendas de paz através dum multilateralismo que não seja sufocado por excessivas reivindicações nacionalistas.
  • Precisa dela a política, para antepor as exigências comuns aos interesses privados.

Pode parecer uma utopia, uma viagem sem esperança num mar turbulento, uma odisseia longa e irrealizável. E contudo a viagem num mar agitado – como ensina o grande conto homérico – muitas vezes é a única via.

E alcança a meta se estiver animada

  • pelo desejo de casa,
  • pela diligência de avançar juntos,
  • pelo nóstos álgos, pela nostalgia.

A propósito, gostaria de reiterar o meu apreço pelo não fácil percurso que levou ao «Acordo de Prespa», assinado entre esta República e a da Macedônia do Norte.

 

Ainda olhando para o Mediterrâneo, o mar que nos abre ao outro, penso nas suas férteis margens e na árvore que poderia vir a ser o seu símbolo: a oliveira, cujos frutos acabam de ser colhidos e que irmana as diferentes terras que se debruçam sobre o único mar.

É triste ver como, nos últimos anos, muitas oliveiras centenárias acabaram queimadas, consumidas por incêndios muitas vezes causados por condições meteorológicas adversas, provocadas por sua vez pelas alterações climáticas.

À vista da paisagem ferida deste país maravilhoso, a oliveira pode simbolizar a vontade de contrastar a crise climática e as suas devastações. De fato, depois do cataclismo primordial narrado pela Bíblia, o dilúvio, uma pomba voltou para Noé «trazendo no bico uma folha verde de oliveira» (Gn 8, 11).

Era o símbolo do recomeço, da força de recomeçar mudando estilo de vida, renovando as próprias relações com o Criador, as criaturas e a criação.

Neste sentido,

  • espero que os compromissos assumidos na luta contra as alterações climáticas apareçam cada vez mais compartilhados
  • e não sejam de fachada, mas seriamente implementados.
  • Que às palavras sigam os fatos, para que os filhos não paguem mais uma hipocrisia dos pais.

Neste sentido, ressoam as palavras que Homero põe nos lábios de Aquiles:

«Sinto odioso, como as portas do Hades, aquele que diz uma coisa e, no coração, esconde outra»(Ilíada, IX, 312-313).

Na Escritura, a oliveira constitui também um convite a ser solidário, especialmente para com aqueles que não pertencem ao próprio povo.

«Quando varejares as tuas oliveiras, não voltes a colher o resto que ficou nos ramos; deixa-o para o estrangeiro» – diz a Bíblia (Dt 24, 20).

Este país, caracterizado pela hospitalidade, viu em algumas das suas ilhas desembarcar um número de irmãos e irmãs migrantes superior ao dos próprios habitantes, aumentando assim as contrariedades que ainda padecem das fadigas da crise econômica.

Mas também persiste a demora europeia:

  • a comunidade europeia, dilacerada por egoísmos nacionalistas,
  • em vez de ser motor de solidariedade, às vezes aparece bloqueada e descoordenada.
  • Se antes os contrastes ideológicos impediam a construção de pontes entre o leste e o oeste do continente, hoje a questão migratória abriu brechas também entre o sul e o norte.
  • Desejo apelar mais uma vez a uma visão de conjunto, comunitária, face à questão migratória,
  • e encorajar a ter atenção aos mais necessitados para que, segundo as possibilidades de cada um dos países,
  • sejam acolhidos, protegidos, promovidos e integrados no pleno respeito dos seus direitos humanos e da sua dignidade.

Mais do que um obstáculo para o presente,

  • isso representa uma garantia para o futuro
  • a fim de que decorra sob o signo duma convivência pacífica com aqueles que cada vez mais são obrigados a fugir à procura de casa e esperança.
  • Eles são os protagonistas duma terrível odisseia moderna.

Gosto de lembrar que,

  • quando Ulisses desembarcou em Ítaca, não foi reconhecido pelos senhores do lugar, que lhe tinham usurpado casa e bens, mas por quem cuidara dele.
  • A sua ama compreendeu que era ele ao ver as cicatrizes.

Os sofrimentos irmanam-nos, e reconhecer a pertença à mesma frágil humanidade ajudará a construir um futuro mais integrado e pacífico.

Transformemos em ousada oportunidade o que parece ser apenas uma infeliz adversidade.

 

 

Ao contrário, a pandemia é a grande adversidade. Fez-nos redescobrir frágeis, necessitados dos outros. Também neste país é um desafio que envolve oportunas intervenções por parte das Autoridades – penso na necessidade da campanha de vacinação – e não poucos sacrifícios aos cidadãos.

Mas, no meio de tanto esforço, surgiu um notável sentido de solidariedade, para o qual a Igreja Católica local se sente feliz em poder continuar a contribuir, na convicção de que isto constitua a herança a não perder com o lento aplacar-se da tempestade.

Parecem escritas para os dias de hoje algumas palavras do juramento de Hipócrates, como o compromisso

  • de «regular o padrão de vida para o bem dos enfermos»,
  • de «abster-se de causar danos e ofensas» aos outros,
  • de salvaguardar a vida em todos os momentos, particularmente no ventre materno (cf. Juramento de Hipócrates, texto antigo).

Deve ser sempre privilegiado o direito a ser cuidado e os tratamentos para todos, a fim de que os mais frágeis, em particular os idosos, nunca sejam descartados:

  • que os idosos não sejam as vítimas privilegiadas da cultura do descarte.
  • Os idosos são o sinal da sabedoria dum povo.
  • De fato, a vida é um direito; ao contrário da morte, que se deve acolher, não subministrar.

 

Queridos amigos,

  • alguns exemplares de oliveira mediterrânica testemunham uma vida tão longa que antecede o aparecimento de Cristo.
  • Seculares e duradouras, resistiram ao passar do tempo e lembram-nos a importância de conservar raízes fortes, impregnadas de memória.

Este país pode ser definido a memória da Europa– vós sois a memória da Europa – e sinto-me feliz por o visitar vinte anos depois da histórica visita do Papa João Paulo II e no bicentenário da sua independência. A este respeito, é conhecida a frase do general Colocotronis:

«Deus pôs a sua assinatura sobre a liberdade da Grécia».

Deus coloca de boa vontade, sempre e por toda a parte, a sua assinatura sobre a liberdade humana. É o seu maior presente, e aquele que por sua vez mais aprecia de nós. Na verdade, Ele criou-nos livres, e aquilo de que mais gosta é que livremente amemos a Ele e ao próximo.

Para o tornar possível contribuem as leis, mas também a educação para a responsabilidade e o crescimento duma cultura do respeito.

A propósito, desejo renovar a minha gratidão pelo reconhecimento público da comunidade católica e asseguro a sua vontade de promover o bem comum da sociedade grega, orientando neste sentido a universalidade que a caracteriza, na esperança de que na prática lhe sejam sempre garantidas aquelas condições necessárias para bem cumprir o seu serviço.

 

 

Há duzentos anos, o Governo provisório do país dirigiu-se aos católicos com palavras comoventes:

«Cristo ordenou o amor ao próximo. E quem nos é mais próximo do que vós, nossos concidadãos, apesar de haver algumas diferenças nos ritos? Possuímos a mesma e única pátria, pertencemos a um só povo; nós, cristãos, somos irmãos – irmãos nas raízes, no crescimento e nos frutos – pela Santa Cruz».

O fato de ser irmãos no sinal da Cruz, neste país abençoado pela fé e pelas suas tradições cristãs, incita todos os crentes em Cristo a cultivarem a comunhão em todos os níveis, no nome daquele Deus que abraça a todos com a sua misericórdia.

 

 

Neste sentido, amados irmãos e irmãs, agradeço o vosso empenho, animando-vos a fazer progredir este país na abertura, na inclusão e na justiça. Desta cidade, deste berço da civilização,

  • elevou-se e oxalá nunca cesse de se elevar uma mensagem que encaminha para o Alto e para o outro;
  • que às seduções do autoritarismo responda com a democracia;
  • que à indiferença individualista oponha a solicitude pelo outro, pelo pobre e pela criação, colunas essenciais para um humanismo renovado, de que precisam os nossos tempos e a nossa Europa.

O Theós na evloghí tin Elládha [Deus abençoe a Grécia]!

 

Papa Francisco

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/615058-em-atenas-o-papa-francisco-denuncia-o-retrocesso-da-democracia-um-ceticismo-em-relacao-a-democracia

 

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