Ouvir o Silêncio. Ver o Invisível

Escultura branca maciça em Nova York convida a 'ouvir o silêncio da água' - Emais - Estadão

1.  Há perguntas ingénuas que parece quase tocarem o ridículo. No entanto, são das mais interessantes.

Exemplos:

  • onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico…
  • Em que instante começou um ser humano?

Aliás, a pergunta do início é similar à do fim:

Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo?

No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia ser:

  • o que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém?
  • Hegel disse que vê o abismo do mundo.

Se estivermos atentos, é isso: quando dois olhares se olham, no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.

A pergunta pode explicitar-se, perguntando:

  • o que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê?
  • O que é o invisível do visível?

Ou então:

  • o que é que o visível torna visível?
  • Melhor: o que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde?
  • O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?

Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome

  • senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável?
  • O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?

Afinal, o que vem à luz acende-se na noite…

  • E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio?
  • Mas há o silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala.

E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?

Quando não se ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na Fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala? Não quero apontar para os Parlamentos…

Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio

  • que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos,
  • que a palavra dos professores anda gasta e murcha,
  • que os padres proferem palavras engasgadas e mortas,
  • que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?

 

2.  De repente, tropecei num título antigo da TSF: Como se visse o invisível (Heb, 11, 27 – NdR). É isso: o ser humano anda distraído, mas pode acontecer que subitamente se dê conta.

Aliás,

  • o Homem é Homem, diferente do animal, precisamente porque não vive estando aí pura e simplesmente,
  • mas se dá conta de que vive, reflecte sobre as coisas, sobre a existência, sobre si próprio.

Como se visse o invisível…

Afinal, como é?

  • Trata-se de um simples “como se” ou vê-se mesmo o invisível?
  • E se se vê, que invisível é esse?
  • E como é que se vê o que é invisível? E esse ver é privilégio de alguns ou todos podem vê-lo?
  • Ou acontece até que todos o vêem, simplesmente não se dão conta disso?

Quem ouvia Como se visse o invisível não esperava ouvir dizer que alguém viu Nossa Senhora ou bruxas ou o diabo ou um anjo aí numa esquina qualquer, numa igreja, numa esplanada, no cimo de um monte…

Mas então quem falava em Como se visse o invisível o que é que viu de especial para ousar falar do invisível, como se o tivesse realmente visto? Afinal, o que é que ele ou ela viu ou vê?

Quando não andamos completamente distraídos, sabemos que

  • vemos sempre mais do que aquilo que julgamos ver,
  • ouvimos sempre mais do que pensamos ouvir,
  • pensamos sempre mais do que pensamos.

Toda a experiência é sempre experiência com experiências. Seja qual for a experiência, sabemos dela, de nós e das condições de possibilidade do experienciar. Quando vemos algo, não vemos apenas esse algo que estamos a ver, pois vemo-nos também a nós que estamos a ver, embora não tenhamos imediatamente consciência disso.

Por outro lado,

  • por mais que vejamos de nós, nunca nos vemos completamente:
  • somos sempre mais do que vemos de nós ou sabemos de nós.

Nunca conseguimos ir até ao fundo de nós, tornar-nos completamente transparentes a nós próprios.

O olho vê o que vê, mas nunca se vê a si mesmo; sabemos, no entanto, que está lá.
Como dizem os Vedas, livros sagrados dos hindus,
“o que vê não pode ser visto; o que ouve não pode ser ouvido; e o que pensa não pode ser pensado”.
O mais fundo de nós nunca pode vir à consciência, é, por sua própria natureza, invisível.
  • Quando demos por nós já lá estávamos,
  • e a existência nunca pode ser reflectida adequadamente nem tornar-se plenamente consciente de si própria.
  • Assim, quando nos vemos é sempre com o invisível que contactamos.

Antes da execução, aos condenados à morte vendam-lhes os olhos, porque o olhar da vítima é intolerável. Afinal, quando vemos alguém no olhar o que é que vemos senão o invisível na sua visibilidade, mas precisamente de tal modo que permanece invisível?

  • Uma pessoa no seu corpo, melhor, um corpo pessoal não é simplesmente uma estrutura fisiológica visível:
  • ninguém faz amor com uma estrutura orgânica visível,
  • mas ama-se uma pessoa na sua invisibilidade palpável e visível.

Um corpo humano é uma “alma” visível e vista, cheirada, palpável…

Quando olhamos para o mundo com olhos de ver é sempre com o invisível visível que entramos em contacto.

A realidade toda é a visita do Invisível. Na raiz de tudo está um mistério que se diz, que vem à luz, mas que ao mesmo tempo continua velado e sem se ver: vê-se precisamente como invisível.

Como se visse o invisível: apontamentos para chamar a atenção

  • para o mistério do ser,
  • para a dignidade de ser pessoa,
  • para a justiça,
  • para a religação última à Fonte invisível de tudo o que se vê…

 

.

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>