A imposição de Francisco desencadeia o descontentamento dos movimentos

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Paolo Rodari – 18 Novembro 2021 – Francisco e Julian Carron / agf

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.Não será fácil para os mais de cem movimentos e associações eclesiais repensar sua liderança dentro de um ano.

decreto da Santa Sé de junho passado que pede aos dirigentes dos movimentos eclesiais que não ultrapassem dois mandatos (dez anos ao todo) surpreendeu quase todos e causou fortes dores de cabeça:
“O Dicastério dos Leigos deveria ter envolvido mais os movimentos, pedir-lhes um diálogo antes de agir”, comenta um bispo que pede anonimato. “De fato, a decisão veio de cima sem aviso prévio. Na minha opinião é um autoritarismo sem precedentes”. No entanto, a vontade do Dicastério é clara: evitar que os líderes assumam uma autoridade demasiado grande que possa levar ao abuso de poder e abusos espirituais.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por la Repubblica, 16-11-20212. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

 

Segundo apurou o Repubblica, alguns responsáveis desses movimentos, no último dia 16 de setembro, num encontro em que o Papa explicou o sentido das normas – não estavam presentes nem Antonella Frongillo, ex-presidente dos Memores Domini, nem padre Carrón – expressaram sua perplexidade.

“Já existe a dificuldade de encontrar líderes capazes presentes nas várias comunidades espalhadas pelo mundo”, disseram. “Mais ainda encontrar novas lideranças que se responsabilizem pelos vários movimentos dentro de um ano continua sendo uma tarefa difícil e exige um desgaste de energias, cujo resultado nem sempre é garantido”.

Depois de Carrón, esperam-se as demissões (mas para os fundadores fica a critério do dicastérios dos Leigos) dos outros “grandes”,

Mas mudanças no topo também virão, entre outras, para a

  •  Associação Comunitária Papa João XXIII,
  • as Equipes Notre-Dame,
  • Organização Mundial dos Cursilhos de Cristandade.

Igual problema para as numerosas microrrealidades, todas diferentes entre si, que nos últimos anos

  • se formaram sob o guarda-chuva da Santa Sé,
  • mas efetivamente sem controles adequados.

“Mas ainda falta dizer uma coisa”, comenta o bispo. “Por que os movimentos têm que mudar de liderança enquanto os institutos religiosos não?”.

Casos como o dos Legionários de Cristo e a vida dupla de Marcial Maciel Degollado ainda doem. E além das dores de cabeça, dizem que uma mudança precisa acontecer.

João Paulo II nem sempre teve condições de constatar determinados abusos e, numa época histórica em que o “nós”, o ser comunidade, vinha antes do “eu”, focou tudo nos movimentos.

  • Numa Igreja protagonista da batalha do Ocidente contra as ideologias totalitárias,
  • os movimentos foram uma forte presença social. Os carismas foram úteis para a causa.

Bento XVI continuou a linha de Wojtyla,

  • embora tenha sido o primeiro a abrir à ação de cima contra os abusos,
  • também ciente de que o futuro da Igreja não estava mais nas ações de evangelização de massa,
  • mas nas “minorias criativas”, pequenos grupos que soubessem como dar exemplo sem fazer proselitismo.

Depois dele, Francisco, que neste verão, na primeira audiência geral após a hospitalização para a cirurgia, recordou

  • quantas “vezes vimos na história, e vemos até hoje, algum movimento que prega o Evangelho com uma modalidade própria, às vezes com verdadeiros carismas,
  • mas depois exagera e reduz todo o Evangelho ao movimento”.

Mas

  • “isso não é o Evangelho de Cristo,
  • é o Evangelho do fundador ou da fundadora:
  • e pode ajudar no início, mas no final não dá frutos com raízes profundas”,esclareceu.

Aqui está o sentido de suas novas disposições, aqui está a raiz de uma ação que democratizará as lideranças dos movimentos dentro de um panorama eclesial em que o abuso dos líderes sobre as pessoas a eles confiadas não é mais admitido nem tolerado.

Mudar não é fácil. No último 16 de setembro, algumas pessoas manifestaram isso ao Papa, mas agora não há como voltar atrás.

 

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Paolo Rodari

 

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