O essencial, sem ilusões

 

Há aquele conto persa sobre o jardineiro e a morte:

“O jardineiro de um príncipe persa correu para o seu senhor, dizendo: “Senhor, acabo de ver a morte no pátio, e ameaçou-me. Empresta-me um cavalo, para poder fugir depressa para Ispaão; deste modo, a morte não me alcançará.”

O senhor satisfez o desejo do seu jardineiro, que imediatamente cavalgou para Ispaão. Pouco depois, também o príncipe encontrou a morte, e perguntou-lhe:

“Porque é que ameaçaste o meu jardineiro?”

A morte respondeu:

“Eu não o ameacei. Apenas olhei para ele atónita, pois hoje à noite tenho de ir buscá-lo a Ispaão.””

Aí está um conto cru, que tem muitas versões, mas essencial. Passamos a vida a fugir da morte, ela, porém, está sempre lá. À nossa espera. Em qualquer parte. Não sabemos onde. Nem quando. Nem como. Mas é inútil tentar esquecê-la, pois ela não vai esquecer-se de nós.

 

Emil M. Cioran (@_Cioran_) | Twitter

Foto:  E. Cioran /  DAQUI

E. Cioran, o filósofo da desesperança, escreveu:

“Há meses, encontrei uma senhora e falámos de um conhecido comum, alguém que eu já não via há muito tempo.

Ela disse que era melhor não voltar a vê-lo, pois ele estava muito infeliz. Não pensava noutra coisa senão na morte.

Respondi-lhe: “Em que é que quer que pense?” Em última análise, não há outro assunto.”

O pensamento da morte tem o condão de ao mesmo tempo nos libertar e nos paralisar.

Perante a morte,

  • ficamos neutralizados: tudo é vão e inútil.
  • Ou fugimos para a frente: comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.
  • Ou então despertamos finalmente para a liberdade: a consciência da morte faz-nos radicalmente livres, e tornamo-nos nós.

 

A morte é implacável. Com ela, não há negociação possível. Mais tarde ou mais cedo, ela sai vencedora. Mas precisamente aqui reside o seu nó todo de enigma:

  • ela é a evidência bruta que anula,
  • e, por outro lado, ergue-se, irredutível, a pergunta:
  • como é que uma consciência pode morrer?

A minha consciência morta é a contradição. Por isso, através deste enigma, as culturas não são senão tentativas de abertura de caminhos de sentido, na busca de um Sentido último, final.

 

Talvez não seja mau reflectir sobre a crise das nossas sociedades científico-técnicas que tem o seu vértice no tabu da morte.

  • Vivemos numa sociedade que nos arrasa com conhecimentos, mas que não nos ensina o essencial: a sabedoria de viver na consciência da mortalidade.
  • Essa consciência talvez possa despertar-nos para o que é nuclear e fundamental: somos mortais; logo, somos irmãos.
  • E é a morte que obriga a distinguir entre o que verdadeiramente vale e tudo o resto.

É um lugar-comum: o reconhecimento de que

  • nas nossas sociedades científicas e técnicas, urbanas e consumistas, hedonistas e invadidas pelo niilismo,
  • a morte se tornou tabu.

Disso, pura e simplesmente, não se fala. Fazê-lo é quase obsceno, embora se admita que o mundo dos mortos invada o mundo dos vivos um ou dois dias por ano – 1 e 2 de Novembro, os dias dos Finados, amanhã e depois.

As nossas sociedades são as primeiras na história a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte.

De facto, como é que uma sociedade

  • que gira à volta da organização socioeconómica, determinada pelo individualismo concorrencial feroz,
  • onde os valores são ter, poder, prazer, êxito, parecer e aparecer, eficácia, lucro, acumulação de bens materiais, progresso, riqueza,
  • pode ainda acompanhar afectivamente os doentes, os velhos, os moribundos,
  • e suportar o supremo fracasso da morte?

Uma sociedade sem Eternidade tem de ignorar a morte. Neste tipo de mundo, a morte é o não integrável, e o nosso dever é não pensar nela.

Mas não se julgue que se deixou de pensar na morte por ela já não constituir problema. É exactamente o contrário que se passa:

  • de tal modo a morte é problema, o problema para o qual uma sociedade que se considera omnipotente não tem solução,
  • que só resta a solução de ignorá-la, ocultá-la, reprimi-la.
  • Aquilo que provoca dor infinda e para que não há solução é recalcado.

Por isso, se a experiência de solidão acompanha sempre a morte, nas nossas sociedades essa solidão pode atingir o paroxismo do intolerável.

É certo que talvez nunca como hoje

  • a morte foi objecto de estudos científicos, desde a medicina à sociologia, à psicologia e à história,
  • que nos permitem compreender, por exemplo, que as atitudes face à morte variam segundo os tempos e as sociedades.

Proliferam os colóquios e as conferências e os especialistas da morte.

  • Mas não se aninha aí precisamente o perigo de uma estratégia para evitar o pensamento da minha morte?
  • Quer dizer, essa é ainda uma forma paradoxal de confirmar o tabu:
  • falar da morte em abstracto e academicamente pode ser um meio de iludir a minha própria morte.

Ora, é evidente que é necessário excluir todas as atitudes mórbidas face à morte. Até porque o medo da morte foi utilizado até pela Igreja como verdadeiro exercício de terrorismo sobre as consciências, para uso do poder.

Mas é igualmente verdade que,

  • quando uma sociedade nada tem a dizer sobre a morte,
  • é porque, em última análise, nada tem a dizer sobre a existência autenticamente humana.

Quando uma sociedade precisa de afastar a morte do seu horizonte, temos aí um sinal decisivo de desumanização e alienação. A ocultação da morte anda vinculada ao profundo mal-estar provocado pelo vazio de uma existência sem sentido.

O pensamento da morte não pode servir para envenenar a vida. Pelo contrário. O saber da morte própria confronta-nos com os limites e o que se deve fazer no tempo que há. Sem ilusões.

 

Fátima e a covid-19 | PÚBLICO

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

 

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