Alemanha. Caminho sinodal. As reformas nascem da fé. Temas e propostas da II Assembleia presencial

O 'caminho sinodal' alemão apresenta propostas revolucionárias ao Vaticano

Sarah Numico – 26 Outubro 2021 – Foto: Vatican Media

 Enquanto a tempestade de casos de abusos e violências sexuais cometidos no contexto eclesial também atinge a França, em proporções que deixam sem fôlego, a Alemanha católica segue o seu caminho de reflexão em busca de vias para uma renovação indispensável que o escândalo dos abusos e das violências revelou como inadiável.

A reportagem é de Sarah Numico, publicada por O Reino, outubro de 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Como a França em 5 de outubro passado, a Alemanha ficou chocada em 2018 com o agora famoso Estudo Mhg (sobre Violência sexual contra menores por sacerdotes católicos, diáconos e religiosos pertencentes a ordens religiosas na área da Conferência Episcopal alemã).

É impressionante ver que a mesma mensagem chega da França humilhada por esse flagelo: erros sistêmicos tornaram possíveis os abusos e as violências; por isso, para evitar que o desastre aconteça novamente, esses erros devem ser eliminados.

Em particular, 4 áreas precisam ser repensadas:

  • gestão do poder na Igreja,
  • papel das mulheres,
  • moral sexual,
  • figura do sacerdote.

É sobre essas 4 áreas que a Igreja alemã se confronta no Caminho Sinodal iniciado pelos bispos e leigos alemães em 2019.

Entre 30 de setembro e 2 de outubro passado, realizou-se finalmente a 2ª reunião presencial: agendada para setembro de 2020, tinha sido adiada duas vezes devido ao COVID.

  • No imenso Centro de Congressos de Frankfurt, onde foi respeitado todo o distanciamento necessário,
  • os 215 delegados presentes discutiram intensamente e votaram 13 dos 16 documentos já disponibilizados pela presidência e pelos 4 fóruns temáticos.
  • O tempo não foi suficiente para revisar todas as mais de 180 páginas à disposição dos sinodais.
  • O que ficou faltando, será recuperado no encontro do início de fevereiro.

“Santo Padre porém, especificou o presidente dos bispos Georg Bätzing, em resposta à preocupação de Francisco de que os sínodos se tornem meras assembleias editoriais –

  • não discutimos textos, mas sonhos traduzidos em palavras sobre como queremos mudar a Igreja na Alemanha:
  • uma Igreja participativa, inclusiva em relação aos gêneros e em caminho com as pessoas.

E como percebemos que

  • demora muito para escutar-se, confrontar-se e se entender,
  • a tal ponto que mais duas assembleias em 2022, conforme previsto, não seriam suficientes
  • para encerrar o primeiro confronto e liberar em segunda leitura dos documentos definitivos,

a presidência propôs adicionar uma 5ª Assembleia sinodal no início de 2023.

Ainda será possível levar o que vai resultar na Alemanha para o Sínodo dos Bispos da Igreja universal”.

Existem aqueles que amam o clima de confronto, existem aqueles que o temem.

experiência alemã continua extremamente interessante em muitos níveis. Antes de fazer referência aos textos que ocuparam a agenda de “Frankfurt 2”, algumas considerações surgiram das trocas vividas durante os dias da Assembleia.

“Seria impensável para nós ver tal assembleia discutir com tanta franqueza, sinceridade e grande humildade por parte dos bispos”. 

O comentário é do francês Jérome Vignon, um dos observadores estrangeiros presente nas assembleias. Não vale apenas para a França.

A franqueza e transparência com que se continua a discutir dão arrepios.

  • Expressa-se aprovação, críticas pesadas são feitas, histórias pessoais são contadas,
  • manifesta-se desconforto, propostas são apresentadas, tudo à luz do dia (e ao vivo com o resto do mundo).

Entre os convidados internacionais presentes em Frankfurt, também o bispo de Copenhague, Czeslav Kozon; mas o seu olhar atordoado expressa tudo menos entusiasmo:

“Estou preocupado com o que está acontecendo aqui”,

confidencia, explicando que os países nórdicos têm dificuldade até em compreender como terão que fazer para viver a fase nacional do Sínodo Universal, e estão esperando orientações de Roma.

Certamente,

  • o que lemos nas minutas dos documentos alemães ou ouvimos na maioria das intervenções na Assembleia
  • nem sempre está perfeitamente de acordo com os pronunciamentos magisteriais e com o Catecismo.

No entanto, a preocupação explicitada por muitos sinodais

Também é claro que as propostas serão encaminhadas ao Santo Padre, que talvez deva convocar um concílio para reconhecê-las. Enquanto um certo número de mudanças desejadas será realizável através do poder já conferido ao bispo diocesano e outros na Conferência Episcopal.

A grande maioria dos sinodais almeja uma mudança: o resultado das várias votações dos textos mostrou-o claramente.

A questão permanece sobre o espaço que a minoria pode e deveria ter.

“Aqui se podem discutir as diferentes posições, mas depois elas não aparecem nos textos”

  • criticou Hanna Barbara Gerl-Falkowicz em determinado momento da Assembleia,
  • expressando o desconforto daqueles sinodais menos inclinados a mudanças radicais
  • e que no momento da votação sobre os documentos revelou-se um grupo transversal que oscilava entre 20 e 40 pessoas.

É o grupo

  • que tem no bispo Rudolf Voderholzer (Regensburg) o principal crítico do processo sinodal,
  • que acusa os coirmãos de terem “politizado” e ideologizado o estudo de 2018 sobre as violências para forçar as reformas.
  • Em setembro, o bispo também abriu uma página alternativa na web, na qual publica “contribuições sinodais”muitas vezes assinadas com o cardeal de Colônia Rainer Maria Woelki.

Este último, na última plenária, nunca fez uso da palavra:

  • no centro de fortes críticas pela forma como geriu os abusos e as violências na sua arquidiocese,
  • e depois por ter sido deixado à frente da arquidiocese pelo Papa Francisco, apesar de um período sabático de 6 meses solicitado a ele por Bergoglio. 

Woelki não gosta do processo sinodal e no passado ele o comparou em termos depreciativos a um “parlamento protestante”.

Também faz parte desse grupo o bispo salesiano de Passau, Stefan Oster,

  • preocupado porque a discussão sobre as reformas estruturais prejudicou a reflexão sobre o tema da evangelização
  • e porque a perspectiva proposta pelo documento sobre a moral sexual representa um afastamento imperdoável de um magistério que é pensado para a liberdade e o amor.

O grupo inclui também o bispo auxiliar de Bamberg, Herwig Gössl, mas também uma leiga como Dorothea Schmidt:

  • ela representa o movimento mariano Maria 1.0
  • e com grande determinação tentou defender o magistério,
  • apesar de alguns sinodais terem levantado cartões vermelhos de dissenso na sala enquanto falava.

A pluralidade, ou melhor, a unidade na diversidade, continua a ser o desafio, tanto em nível de Igreja universal como dentro das Igrejas particulares. Paralelamente, o funcionamento democrático do caminho sinodal deve ser afinado para que não penalize ou marginalize as minorias.

 

“A Igreja universal é a nossa perspectiva”

Embora a experiência alemã em outros países pareça irrepetível (pela cultura, pela história, também pela demografia eclesial e pela singularidade de suas estruturas), fica claro que também os alemães não querem ir em frente sozinhos.

“É bom que você esteja aqui e agora pode contar ao Papa sobre o nosso esforço”,

disse a vice-presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, Karin Kormann, nos últimos momentos do trabalho, dirigindo-se ao núncio apostólico Nikola Eterovic.

“Ajude-nos a criar novas pontes de comunicação; diga-lhe que gostaríamos muito de ir a Roma se quiserem se encontrar conosco”,

foi o seu pedido. E também a garantia:

“A Igreja universal é sempre a nossa perspectiva”.

A presidência do Caminho Sinodal havia escrito

  • convidando o Sínodo dos Bispos da Igreja universal a enviar um delegado para acompanhar os trabalhos;
  • mas ninguém veio de Roma, nem mesmo uma resposta à carta.

Esse foi um motivo de tristeza e de alguma decepção,

Quanto aos textos discutidos e aprovados:

  • os sinodais já haviam lido e apresentado emendas a 16 textos:
  • um preâmbulo, uma orientação teológica, três textos básicos e algumas recomendações de ação para os diversos fóruns temáticos.

Durante a Assembleia, cada texto foi discutido como um todo, em seus elementos básicos e, para seu potencial desenvolvimento, a partir das emendas coletadas e estudadas por equipes específicas.

  • Para cada texto, houve um tempo para as intervenções (limitados a 1 minuto de fala) e depois a votação:
  • sobre as indicações individuais, ainda que gerais, de modificação
  • e depois sobre o texto como um todo segundo essas “promessas” de ulterior elaboração.

Será depois sobre a segunda minuta dos textos que cada contribuição será discutida linha a linha.

  • O tempo foi suficiente para examinar 13 dos 16 textos apresentados.
  • Todos aprovados com uma “maioria reconfortante”,mas não sem intensas confrontações.
  • Por exemplo, o texto sobre o papel do sacerdote suscitou grandes reservas porque oferecia apenas uma leitura do hoje, sem indicações para repensar o seu papel para o futuro.

 

Um Conselho Sinodal permanente

A aprovação da orientação teológica, preparada pela Presidência juntamente com um “Preâmbulo”que explica o contexto e o sentido do caminho, foi particularmente satisfatória.

O texto define os “critérios teológicos”a que se referem as reflexões elaboradas nos fóruns e são abordados temas como

  • a relação entre teologia e Escritura, e seu vínculo imprescindível e dinâmico com o magistério, que está a serviço do anúncio evangélico,
  • a questão dos sinais dos tempos,
  • sensum fidei et fidelium.

É muito consistente a reflexão sobre o tema do poder, que aborda temas como

  • a responsabilidade,
  • os ministérios,
  • a relação entre democracia e sinodalidade como princípio e estilo eclesial,
  • a questão da liderança e da participação,

integrando-se com propostas específicas relativas

  • à figura do o bispo, à sua nomeação, ao exercício das suas responsabilidades,
  • mas também à transparência das finanças e dos processos de decisão,
  • aos mecanismos de supervisão e de garantias,
  • até à proposta de um “conselho sinodal permanente”para a Alemanha, que leve adiante e verifique se as decisões tomadas no atual Caminho Sinodal são implementadas.

 

O documento sobre o sacerdócio

  • é mais enxuto e parte do magistério conciliar e de uma reflexão sobre o ministério ordenado e os conselhos evangélicos
  • para chegar ao tema da inculturação (com referência à Querida Amazônia),
  • passando pelo conceito de “Christusrepräsentanz” do presbítero (“in persona Christi“).

O tema é enorme, e o texto precisará ser revisado e completado significativamente, também à luz do contexto alemão específico.

 

O grupo de trabalho sobre o papel da mulher na Igreja ainda não apresentou o seu “texto básico”, mas trouxe 5 indicações concretas à Assembleia,

  • entre as quais o pedido de que os bispos alemães apresentem ao Sínodo da Igreja universal o pedido de reabertura da reflexão sobre as decisões magisteriais relativas aos serviços e ministérios das mulheres na Igreja.
  • Uma proposta, por outro lado, diz respeito à questão da presença feminina nas instituições teológicas (faculdades, institutos de ciências religiosas), ou em relação à liderança das comunidades.

 

Por outro lado, o documento básico sobre moralidade sexual é encorpado;

  • parte da discrepância entre o magistério e a vida dos fiéis,
  • investiga suas origens,
  • retoma o tema da sexualidade nas Escrituras,
  • reformula muitos temas a partir daquele da responsabilidade ou da fecundidade,
  • até incluir em termos de abertura os casais homossexuais ou em nova união, com coragem e delicadeza.

 

Para onde vai levar todo este enorme esforço de confrontação, discernimento e repensamento, certamente ainda deve ser compreendido.

Enquanto isso, continua-se a caminhar.

“Mesmo que no final do Caminho Sinodal acabe acontecendo uma série de reformas, isso não vai impedir automaticamente as pessoas que querem deixar a Igreja ou pôr um fim às crises de fé”,

destacou lucidamente o presidente dos bispos Georg Bätzing.

O que é igualmente claro, porém, é que

“todas as questões levantadas têm a ver com a dimensão da fé e, portanto, com a existência da Igreja”.

Sarah Numico - Academia.edu.

Sarah Numico

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/613967-caminho-sinodal-as-reformas-nascem-da-fe-temas-e-propostas-da-ii-assembleia-presencial

 

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