Ressuscitar uma aurora de esperança

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5 fenômenos naturais incríveis - Saia da Zona de Conforto

Frei Bento Domingues, O.P. – 24.10.2021 – Foto: DAQUI

Intervenções notáveis de alguns bispos e a adesão explícita de quase todas as dioceses ao projecto desafiante de Bergoglio.

 

 

1. Mais vale tarde do que nunca!

Havia a impressão de que as lideranças da Igreja, em Portugal, andavam meio distraídas e não seria a convocatória do Sínodo de toda a Igreja que as iria despertar. Engano. No domingo passado, fomos surpreendidos por intervenções notáveis de alguns bispos e pela adesão explícita de quase todas as dioceses ao projecto desafiante de Bergoglio.

Dir-se-á que foi apenas a voz da hierarquia, mas o interessante está precisamente aí. Foi ela a dizer claramente que este Sínodo é para acabar com o domínio clerical. Vale a pena registar essas vozes.

Destaco as homilias de D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, e a do cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima [1].

 

Mensagem de Natal do Senhor Arcebispo D. Jorge Ortiga – Igreja pobre e bela…

D. Jorge (Foto: Reprodução) disse explicitamente:

a Igreja

  • “passou por muitas configurações, mais ou menos de índole piramidal e de estrutura de sociedade perfeita onde tudo acontece e se idealiza a partir de uns tantos pré-escolhidos.
  • Como povo de Deus, temos sido conduzidos por pastores dotados de autoridade divina
  • e agora as exigências de uma nova era mostra que o povo de Deus tem de interpretar a responsabilidade que Deus lhe concede.
  • Devemos passar da passividade e obediência a um compromisso corresponsável no pensar e no agir”.

Apontou o que deve ser uma Igreja no nosso mundo contemporâneo:

  • “Vamo-nos ouvir, mas abramos, também, os ouvidos ao mundo. Não são suficientes os nossos raciocínios intraeclesiais. Teremos de sair e não basta sair para ouvir como cronistas. Precisamos de sair para ouvir a voz do mundo a partir de dentro. Deixemos que ele fale e nos aponte as nossas incongruências e infidelidades. Pode custar muito e poderemos não ter vontade de ouvir.
  • Mergulhemos no mundo e deixemos que manifeste as suas insatisfações e expectativas. Não coloquemos filtros. (…) Aproximemo-nos. Saiamos das nossas zonas de conforto. Já estamos cansados de ouvir as nossas vozes e as nossas apreciações. Escutemos e, sobretudo, inventemos maneira para que o façam. Seremos capazes? (…)
  • Precisamos de nos preparar para concretizar uma conversão sinodal. Não bastará falar por falar. Oferecer ideias interessantes e inovadoras, mas depois continuamos com os mesmos processos de uma igreja autorreferencial e piramidal, com a verdade em poucas pessoas”.

No santuário de Nossa Senhora do Alívio, pediu

  • “que suscite no coração dos sacerdotes, membros dos conselhos económicos, catequistas, pessoas da liturgia e da caridade e, sobretudo, nas equipas arciprestais e paroquiais este compromisso de ressuscitar uma aurora de esperança.
  • Não podemos continuar no pessimismo e alarmismo, no desencanto e desânimo, no deixar correr esperando que apareça um Messias salvador.
  • Um mundo novo deve nascer e é preciso que nasça por nosso intermédio. Poderá parecer que a Igreja não tem grandes possibilidades.

A história mostra que foi nos momentos de crise que a Igreja manifestou a originalidade da sua mensagem”.

 

Papa Francisco anuncia 14 novos cardeais - Santuário Divina Misericórdia

Da diocese Leiria-Fátima, ouvimos o cardeal António Marto (Foto: Reprodução) de quem já sabíamos a sua adesão à linha do Papa Francisco.

Agora, em três momentos convergentes, foi muito incisivo, quer na Nota Pastoral (14/10/21), quer na Assembleia Diocesana, quer na homilia (17/10/21).

  • Fez apelo ao “discernimento comunitário”
  • para fazer face “às tentações do clericalismo, da rigidez e do sectarismo”
  • e encontrar “consensos num processo espiritual de escuta”.

“Esta atitude marca uma visão da Igreja: convida a passar de um modelo de Igreja clerical a um modelo sinodal, baseada na corresponsabilidade de todos os fiéis leigos, fiéis padres, fiéis bispos e fiel sucessor de Pedro.”

Lembrou que,

  • já na comunidade apostólica, Jesus Cristo teve de contrariar os seus discípulos,
  • movidos pela ambição de lugares de honra, privilégios, prestígio, fama, poder e grandeza,
  • que só podia gerar rivalidades entre eles.

A Igreja tinha de entender o mestre que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos [2].

Insistiu que

“a meta deste caminho [sinodal] é uma Igreja missionária, de portas abertas e em direcção às periferias. Estamos muito habituados a dizer ‘vinde à Igreja’, mas Jesus disse ‘ide’. Até o Papa Francisco diz que a Igreja tem Jesus prisioneiro e ele quer sair, quer ir às periferias”.

Não tenhamos medo:

“O Espírito Santo está activo na vida da Igreja para tornar vivo o evangelho e pode acender um fogo mesmo com lenha molhada”,

mas não dispensa a nossa colaboração.

Não basta começar. Dois anos passam depressa e são incompatíveis com a nossa lentidão. Seria criminoso deixar passar esta oportunidade.

 

2. É sempre possível que surja uma tensão entre o local e o global. Importa que a tensão não se transforme em conflito fratricida. Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco, lembrando a Evangelii Gaudium, acautela esse perigo. Reconhece que

“é preciso prestar atenção à dimensão global para não cair numa mesquinha quotidianidade”.

Ao mesmo tempo, convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com os pés por terra.

As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos:

  • o primeiro, que os cidadãos vivam num universalismo abstracto e globalizante (…);
  • o outro extremo é que se transformem num museu folclórico de “eremitas” localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas,
  • incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.

É preciso olhar para o global, que nos resgata da mesquinhez caseira.

  • Quando a casa deixa de ser lar para se tomar confinamento, prisão,
  • resgata-nos o global, porque é como a causa final que nos atrai para a plenitude.

Ao mesmo tempo, temos de assumir intimamente o local,

  • pois tem algo que o global não possui:
  • ser fermento, enriquecer, colocar em marcha mecanismos de subsidiariedade. (…)

Separá-los leva a uma deformação e a uma polarização nociva” [3].

 

3. O Papa, nas suas intervenções, é um exemplo da simultânea atenção às questões locais e globais. Lembro, nesse sentido, o seu notável Discurso aos Membros do Corpo Diplomático [4] e a recente Mensagem para os Movimentos Populares [5].

São peças essenciais para que o Sínodo não perca de vista os muitos mundos que se albergam sob a palavra mundo.

Para Bergoglio, a pandemia mostrou-nos

“a fisionomia dum mundo doente não só por causa do vírus, mas também no meio ambiente, nos processos económicos e políticos e mais ainda nos relacionamentos humanos.

[A pandemia] salientou os riscos e as consequências duma forma de viver dominada pelo egoísmo e a cultura do descarte e colocou-nos perante uma alternativa: continuar pela estrada percorrida até agora ou empreender um novo caminho”.

É este novo caminho que importa descobrir, na própria dinâmica do caminho sinodal, se queremos ressuscitar uma aurora de esperança.

 

NOTAS:

[1] Manuel Pinto apresentou um panorama interessantíssimo do que aconteceu no lançamento do Sínodo nas dioceses portuguesas. Cf. 7Margens de 18/10/2021.

[2] Mc 10,35-45.

[3] Fratelli Tutti, 142.

[4] 08/02/2021. Sente-se a importância deste discurso no belo livro de Eduardo Paz Ferreira, Como Salvar Um Mundo Doente, Edições 70, 2021.

[5] 16/10/2021.

 

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Frei Bento Domingues

in Público, 24.10.2021

Fonte: https://www.publico.pt/2021/10/24/opiniao/opiniao/ressuscitar-aurora-esperanca-1982231

 

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