Byung-Chul Han: smartphone e o “inferno dos iguais”

OUTRASMÍDIAS – CRISE CIVILIZATÓRIA

 

Por Byung-Chul Han, em entrevista a Sergio C. Fanjul, no El País – 14.10.2021 – Foto: DAQUI

Filósofo sul-coreano aponta: telas tornaram-se mescla de confessionário e conexão ininterrupta com o trabalho — e distopia neoliberal perfeita. Retorno às complexidades do mundo exige conexões reais com a diferença do outro.

 

 

Com certa vertigem, o mundo material, feito de átomos e moléculas, de coisas que podemos tocar e cheirar, está se dissolvendo em um mundo de informação, de não-coisas, como observa o filósofo alemão de origem coreana Byung-Chul Han.

Não-coisas que, ainda assim, continuamos desejando, comprando e vendendo, que continuam nos influenciando.

O mundo digital

  • cada vez se hibridiza de modo mais notório com o que ainda consideramos mundo real,
  • ao ponto de confundirem-se entre si, fazendo a existência cada vez mais intangível e fugaz.

 

No-cosas: Quiebras del mundo de hoy (Spanish Edition)

Foto: Reprodução

O último livro do pensador, Não-coisas. Quebras no mundo de hoje,se une a uma série de pequenos ensaios em que o pensador sucesso de vendas (o chamaram de rockstar da filosofia) disseca minuciosamente as ansiedades que o capitalismo neoliberal nos produz.

Unindo citações frequentes aos grandes filósofos e elementos da cultura popular, os textos de Han transitam do que chamou de

  • a sociedade do cansaço”, em que vivemos esgotados e deprimidos pelas inapeláveis exigências da existência,
  • à análise das novas formas de entretenimento que nos oferecem.

Da psicopolítica, que faz com que as pessoas aceitem se render mansamente à sedução do sistema, ao desaparecimento do erotismoque Han credita ao narcisismo exibicionismo atual, que proliferam, por exemplo, nas redes sociais:

a obsessão por si mesmo faz com que os outros desapareçam e o mundo seja um reflexo de nossa pessoa.

O pensador reivindica

  • a recuperação do contato íntimo com a cotidianidade
  • – de fato, é sabido que ele gosta de cultivar lentamente um jardim, trabalhos manuais, o silêncio.

E se rebela contra “o desaparecimento dos rituais”

  • que faz com que a comunidade desapareça
  • e que nos transformemos em indivíduos perdidos em sociedades doentes e cruéis.

 

Byung-Chul Han aceitou esta entrevista como EL PAÍS, mas somente mediante um questionário por e-mail que foi respondido em alemão pelo filósofo e posteriormente traduzido e editado.

 

PERGUNTA. Como é possível que em um mundo obcecado pela hiperprodução e o hiperconsumo, ao mesmo tempo os objetos vão se dissolvendo e vamos rumo a um mundo de não-coisas?

RESPOSTA. Há, sem dúvida, uma hiperinflação de objetos que conduz à sua proliferação explosiva.

  • Mas se trata de objetos descartáveis com os quais não estabelecemos laços afetivos.
  • Hoje estamos obcecados não com as coisas, e sim com informações e dados, ou seja, não-coisas.
  • Hoje somos todos infômanos.

Chegou a se falar de datasexuais [pessoas que compilam e compartilham obsessivamente informação sobre sua vida pessoal].

 

P. Nesse mundo que o senhor descreve, de hiperconsumo e perda de laços, por que é importante ter “coisas queridas” e estabelecer rituais?

R. As coisas são os apoios que dão tranquilidade na vida. Hoje em dia estão em conjunto obscurecidas pelas informações. O smartphone não é uma coisa.

Eu o caracterizo como o infômata que produz e processa informações.

  • As informações são todo o contrário aos apoios que dão tranquilidade à vida.
  • Vivem do estímulo da surpresa. Elas nos submergem em um turbilhão de atualidade.
  • Também os rituais, como arquiteturas temporais, dão estabilidade à vida.

A pandemia destruiu essas estruturas temporais. Pense no teletrabalho. Quando o tempo perde sua estrutura, a depressão começa a nos afetar.

 

P. Em seu livro se estabelece que, pela digitalização, nos transformaremos em homo ludens, focados mais no lazer do que no trabalho. Mas, com a precarização e a destruição do emprego, todos poderemos ter acesso a essa condição?

R. Falei de um desemprego digital que não é determinado pela conjuntura. A digitalização levará a um desemprego maciço. Esse desemprego representará um problema muito sério no futuro.

  • O futuro humano consistirá na renda básica e nos jogos de computador? Um panorama desalentador.
  • Com panem et circenses(pão e circo) Juvenal se refere à sociedade romana em que a ação política não é possível.

As pessoas se mantêm contentes com alimentos gratuitos e jogos espetaculares. A dominação total é aquela em que as pessoas só se dedicam a jogar.

A recente e hiperbólica série coreana da NetflixRound 6, em que todo mundo só se dedica ao jogo, aponta nessa direção.

 

P. Em que sentido?

R. Essas pessoas

  • estão totalmente endividadas
  • e se entregam a esse jogo mortal que promete ganhos enormes.

Round 6 representa um aspecto central do capitalismo em um formato extremo.

 Walter Benjamin já disse que

  • o capitalismo representa o primeiro caso de um culto que não é expiatório,
  • e sim nos endivida.

No começo da digitalização se sonhava que ela substituiria o trabalho pelo jogo. Na verdade, o capitalismo digital explora impiedosamente a pulsão humana pelo jogo. Pense nas redes sociais, que incorporam elementos lúdicos para provocar o vício nos usuários.

 

P. De fato, o smatphone nos prometia certa liberdade… Não se transformou em uma longa corrente que nos aprisiona onde quer que estejamos?

R. smartphone é hoje um lugar de trabalho digital e um confessionário digital. Todo dispositivo, toda técnica de dominação gera artigos cultuados que são utilizados para a subjugação. É assim que a dominação se consolida. O smartphone é o artigo de culto da dominação digital.

Como aparelho de subjugação age como um rosário e suas contas; é assim que mantemos o celular constantemente nas mãos.

  • O like é o amém digital.
  • Continuamos nos confessando.
  • Por decisão própria, nos desnudamos.

Mas não pedimos perdão, e sim que prestem atenção em nós.

 

P. Há quem tema que a internet das coisas possa significar algo assim como a rebelião dos objetos contra o ser humano.

R. Não exatamente.

  • A smarthome [casa inteligente] com coisas interconectadas representa uma prisão digital.
  • smartbed [cama inteligente] com sensores prolonga a vigilância também durante as horas de sono.

A vigilância vai se impondo de maneira crescente e sub-reptícia na vida cotidiana como se fosse o conveniente. As coisas informatizadas, ou seja, os infômatas, se revelam como informadores eficientes que nos controlam e dirigem constantemente.

 

P.O senhor descreveu como o trabalho vai ganhando caráter de jogo, as redes sociais, paradoxalmente, nos fazem sentir mais livres, o capitalismo nos seduz. O sistema conseguiu se meter dentro de nós para nos dominar de uma maneira até prazerosa para nós mesmos?

R. Somente um regime repressivo provoca a resistência.

  • Pelo contrário, o regime neoliberal, que não oprime a liberdade, e sim a explora, não enfrenta nenhuma resistência.
  • Não é repressor, e sim sedutor.

A dominação se torna completa no momento em que se apresenta como a liberdade.

 

P. Por que, apesar da precariedade e da desigualdade crescentes, dos riscos existenciais etc., o mundo cotidiano nos países ocidentais parece tão bonito, hiperplanejado, e otimista? Por que não parece um filme distópico e cyberpunk?

R. O romance 1984 de George Orwell se transformou há pouco tempo em um sucesso de vendas mundial. As pessoas têm a sensação de que algo não anda bem com nossa zona de conforto digital. Mas nossa sociedade se parece mais a Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

  • Em 1984 as pessoas são controladas pela ameaça de machucá-las.
  • Em Admirável Mundo Novo são controladas pela administração de prazer.

O Estado distribui uma droga chamada “soma” para que todo mundo se sinta feliz. Esse é nosso futuro.

 

P. O senhor sugere que a Inteligência Artificial e o big data não são formas de conhecimento tão espantosas como nos fazem crer, e sim mais “rudimentares”. Por que?

R. O big data dispõe somente de uma forma muito primitiva de conhecimento, a saber, a correlação: acontece A, então ocorre B. Não há nenhuma compreensão.

A Inteligência Artificial não pensa. A Inteligência Artificial não sente medo.

 

P.Blaise Pascal disse que a grande tragédia do ser humano é que não pode ficar quieto sem fazer nada. Vivemos em um culto à produtividade, até mesmo nesse tempo que chamamos “livre”. O senhor o chamou, com grande sucesso, de a sociedade do cansaço. Nós deveríamos nos fixar na recuperação do próprio tempo como um objetivo político?

R. A existência humana hoje está totalmente absorvida pela atividade. Com isso se faz completamente explorável. A inatividade volta a aparecer no sistema capitalista de dominação com incorporação de algo externo. É chamado tempo de ócio.

  • Como serve para se recuperar do trabalho, permanece vinculado ao mesmo.
  • Como derivada do trabalho constitui um elemento funcional dentro da produção.

Precisamos de uma política da inatividade. Isso poderia servir para liberar o tempo das obrigações da produção e tornar possível um tempo de ócio verdadeiro.

 

P. Como se combina uma sociedade que tenta nos homogeneizar e eliminar as diferenças, com a crescente vontade das pessoas em ser diferentes dos outros, de certo modo, únicas?

R. Todo mundo hoje quer ser autêntico, ou seja, diferente dos outros. Dessa forma, estamos nos comparando o tempo todo com os outros. É justamente essa comparação que nos faz todos iguais.

Ou seja: a obrigação de ser autênticos leva ao inferno dos iguais.

 

P. Precisamos de mais silêncio? Ficar mais dispostos a escutar o outro?

R. Precisamos que a informação se cale. Caso contrário, explorará nosso cérebro. Hoje entendemos o mundo através das informações. Assim a vivência presencial se perde. Nós nos desconectamos do mundo de modo crescente. Vamos perdendo o mundo. O mundo é mais do que a informação. A tela é uma representação pobre do mundo. Giramos em círculo ao redor de nós mesmos. O smartphone contribui decisivamente a essa percepção pobre de mundo.

Um sintoma fundamental da depressão é a ausência de mundo.

 

P.A depressão é um dos mais alarmantes problemas de saúde contemporâneos. Como essa ausência do mundo opera?

R. Na depressão perdemos a relação com o mundo, com o outro. E nos afundamos em um ego difuso. Penso que a digitalização, e com ela o smartphone, nos transformam em depressivos. Há histórias de dentistas que contam que seus pacientes se aferram aos seus telefones quando o tratamento é doloroso. Por que o fazem? Graças ao celular sou consciente de mim mesmo.

O celular me ajuda a ter a certeza de que vivo, de que existo. Dessa forma nos aferramos ao celular em situações críticas, como o tratamento dental. Eu lembro que quando era criança apertava a mão de minha mãe no dentista.

Hoje a mãe não dá a mão à criança, e sim o celular para que se agarre a ele. A sustentação não vem dos outros, e sim de si mesmo. Isso nos adoece. Temos que recuperar o outro.

 

P.Segundo o filósofo Fredric Jameson é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. O senhor imaginou algum modo de pós-capitalismo agora que o sistema parece em decadência?

R. O capitalismo corresponde realmente às estruturas instintivas do homem.

  • Mas o homem não é só um ser instintivo.
  • Temos que domar, civilizar e humanizar o capitalismo. Isso também é possível. A economia social de mercado é uma demonstração.
  • Mas nossa economia está entrando em uma nova época, a época da sustentabilidade.

 

P.O senhor se doutorou com uma tese sobre Heidegger, que explorou as formas mais abstratas de pensamento e cujos textos são muito obscuros até o profano. O senhor, entretanto, consegue aplicar esse pensamento abstrato a assuntos que qualquer um pode experimentar. A filosofia deve se ocupar mais do mundo em que a maior parte da população vive?

R. Michel Foucault define a filosofia como uma espécie de jornalismo radical, e se considera a si mesmo jornalista.

Os filósofos deveriam se ocupar sem rodeios do hoje, da atualidade. Nisso sigo Foucault. Eu tento interpretar o hoje em pensamentos. Esses pensamentos são justamente o que nos fazem livres.

 

 

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