O fardo dos inocentes: pedofilia na igreja católica

 

Faustino Teixeira – 13 Outubro 2021 – Imagem: DAQUI

“De forma ousada e corajosa o papa Francisco, na audiência geral de 06 de outubro de 2021, no Vaticano, retomou o relatório acolhido pela Conferência dos religiosos e religiosas franceses, redigido por uma comissão independente, a respeito dos abusos sexuais ocorridos no âmbito eclesial desde a década de 1950.

Emocionado, o papa expressa sua tristeza e dor diante do que ocorreu com todas as vítimas dessa violência e mais ainda, sua vergonha, que é de todos, sobretudo pela incapacidade da igreja em colocar tudo isso no centro de suas preocupações.

E partilha uma oração: “A ti Senhor a glória, e a nós a vergonha“. Em seguida, encoraja “os bispos e superiores religiosos a continuarem a cumprir todos os esforços a fim de que semelhantes dramas não mais se repitam”.

O artigo é de Faustino Teixeira, professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

Eis o artigo.

No impressionante conto de Clarice Lispector, “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos (1), a figura do sacerdote foi a que mais me marcou. Trata-se de alguém perpassado por dúvidas difíceis, diante da condenação de uma mulher que pecou. No fundo, ele está dilacerado diante do julgamento pois ninguém nesse mundo está livre de pecados e falhas. Em certo momento do conto ele relata:

“Os inimigos do homem estão na sua própria casa”.

Sua grande dor estava em ser cúmplice de um “pecado de castigar o pecado“.

Algo semelhante dito também pelo personagem Riobaldo Tatarana, em Grande Sertão: Veredas (2),

  • quando sinaliza que “o diabo vige dentro do homem”,
  • revelando uma  dimensão “torva” que indica mais os seus “avessos”,
  • obstaculizando a percepção da beleza e do brilho de cada um.

Revela ainda que

“quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos”.

O conto de Clarice serviu de base para uma reflexão minha sobre o grave problema da pedofilia na igreja católica, e nas igrejas em geral. O problema é grave e universal. Imagina o que significa para o fiel viver essa experiência com alguém que deveria ser para ele um exemplo de vida…

Em matéria de página inteira do Jornal O Globo, de 06/10/2021, essa questão vem tratada de forma viva e ardente.

Com o título, Indiferença até cruel, o artigo expõe as veias abertas da pedofilia no âmbito do catolicismo  mundial.

  • Na França são 216 mil vítimas de abuso sexual desde 1950, como apontou um recente relatório.
  • Nos Estados Unidos conhecemos o escândalo que envolveu o ex-arcebispo Bernard Law, que encobriu os abusos sexuais envolvendo 90 padres durante décadas;
  • Na Alemanha, um relatório de 2018 apontou o abuso de pelo menos 3.677 crianças, com 13 anos ou menos, por 1.670 membros do clero entre 1946 e 2014;
  • No Chile, outro relatório apontou a presença de 158 pessoas ligadas à igreja católica envolvidas em abusos sexuais desde 1960;
  • na Polônia, país tradicionalmente católico, os casos de abusos sexuais também foram inúmeros. Um relatório revelou casos de abusos sexuais envolvendo 382 membros da igreja pelo abuso sexual de 625 crianças, e a grande maioria menor que 16 anos.

De forma ousada e corajosa o papa Francisco, na audiência geral de 06 de outubro de 2021, no Vaticano, retomou o relatório acolhido pela Conferência dos religiosos e religiosas franceses, redigido por uma comissão independente, a respeito dos abusos sexuais ocorridos no âmbito eclesial desde a década de 1950.

Emocionado, o papa expressa sua tristeza e dor diante do que ocorreu com todas as vítimas dessa violência e mais ainda, sua vergonha, que é de todos, sobretudo pela incapacidade da igreja em colocar tudo isso no centro de suas preocupações. E partilha uma oração: “A ti Senhor a glória, e a nós a vergonha”.

Em seguida, encoraja

“os bispos e superiores religiosos a continuarem a cumprir todos os esforços a fim de que semelhantes dramas não mais se repitam”.

O caso dos Legionários de Cristo e de seu fundador, Marcial Maciel Degollado, foi desentranhado por Marco Politi, grande vaticanista, em precioso livro: “Joseph Ratzinger, crisi di un papato” (Laterza, 2011) .

Ainda no pontificado de Ratzinger (Bento XVI)

  • foi divulgada uma impressionante carta aos católicos da Irlanda, em 19 de março de 2010,
  • em que o papa faz um mea culpa pelos graves pecados da igreja.
  • Pela primeira vez, um papa reconhece coletivamente esse pecado no interior da igreja católica.

E todas as vítimas, como em geral ocorre, ficaram submersas num “muro de silêncio” .

Revelações impactantes nesse campo da violência sexual na igreja católica são apresentadas em filmes como

Em nome de Deus (2012), O clube (2015), Spotlight (2016); Graças a Deus (2019), Não conte a ninguém (2019), Exame de consciência (2019), dentre outros.

Notas

1.-  LISPECTORClariceTodos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016, p. 366-377.

2.-  ROSAJoão GuimarãesGrande sertão: veredas. 22ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 15-16.

 

 

 

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