Um mundo de contradições

contradição | Covil do Raposa

Anselmo Borges, 09.10.2021 – Imagem: DAQUI

O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.

 

 

Juntamente com Espinosa, terá sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: “O que é racional é real e o que é real é racional”, escreveu.

Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo não pode desenrolar-se a partir do logos puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer.

Bloch, como também Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um filósofo que sublinhou do modo mais intenso que,

  • na sua ultimidade, a realidade não é racional,
  • pois há uma força que tem o predomínio sobre os planos e juízos da razão: a vontade.

Aí está um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explicação dos fenómenos humanos, a nível individual e social, temos sempre a sensação de que há uma falha no encadeamento das razões.

É que no ser humano há

  • o lógico e a pulsão,
  • o cálculo e a emoção,
  • a razão e o impulso.

O próprio cérebro, que forma certamente um todo holístico, tem três níveis.

Paul MacLean fala dos três cérebros integrados num, mas também em conflito:

  • o paleocéfalo, reptiliano;
  • o mesocéfalo, o cérebro da afectividade;
  • o córtex com o neocórtex em conexão com as capacidades lógicas.

A luz racional é afinal apenas uma ponta num imenso oceano inconsciente, impulsivo e também tenebroso.

Por isso,

  • não só não conseguimos uma harmonia permanente
  • como é necessário estar de sobreaviso contra a ameaça de descalabros e catástrofes mortais.
  • A nível individual, familiar, colectivo…

Também não se pode esquecer que a política, local, nacional, regional, internacional, é conduzida por seres humanos que vivem estas tensões…

Por outro lado, porque o ser humano não é redutível à lógica computacional, é capaz

  • de criações artísticas divinas,
  • do amor gratuito,
  • do luxo generoso,
  • da música

– a música, “arte “pura” por excelência”, “a mais “mística”, a mais “espiritual” das artes é talvez simplesmente a mais corporal”, como escreveu Pierre Bourdieu, e que não é preciso compreender para se ficar emocionado e extasiado.

 

O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.

Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.

A título de exemplo, algumas tensões e conflitos na nossa sociedade.

Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige

  • enorme preparação científica e técnica,
  • educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente,

mas que, por outro,

  • está impregnada de consumismo,
  • propaga o hedonismo,
  • valoriza em extremo o prazer.

Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto,

  • num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol,
  • programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.

A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas, agora, somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social.

Por outro lado,

  • teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que pode trazer benefícios sem conta;
  • ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente surgirão.

Pergunta-se: que política tem sido feita a favor da família?

  • A medicina, felizmente, foi prolongando a esperança de vida das pessoas.
  • Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria?
  • Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia, matar.

Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força, mas ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito.

  • Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: o desespero do trânsito nas cidades.
  • Nunca houve tantos meios de comunicação, e tanta solidão!; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação?

Aí está mais de meio mundo a “dedar” e onde está o espírito crítico?

Reclama-se os direitos individuais,

  • mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público,
  • quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança,
  • rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é só o da televisão, mas o de Orwell.

Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida,

  • aparentemente devíamos nadar em tempo livre;
  • de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.

O conflito maior é o dos pobres, milhares de milhões.

Quando nos países ricos

  • se come de mais e se sofre de obesidade
  • e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços,
  • sabe-se que há hoje no mundo mais de 800 milhões de pessoas com fome.

Depois, é a guerra, guerras espalhadas por todo o mundo.

Há três impulsos fundamentais com os quais é preciso aprender a viver, como disse Kant: o prazer, o ter e o poder.

Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornarmo-nos escravos do prazer, do ter e do poder, esquecendo-nos do ser e de ser. Aí estão os Pandora Papers, etc.

 

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Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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