Cooperação de Xangai, elefante na sala do Ocidente

OUTRASPALAVRAS – GEOPOLÍTICA & GUERRA

 

por  07/10/2021- Ilustração: Ellie Foreman-Peck

Organização política que engloba 70% da Eurásia e 30% do PIB mundial completa 20 anos, e mídia comercial fecha os olhos. EUA, que enfileira desastres geopolíticos, parece cada vez mais assustado com um mundo escapa ao seu controle

Recentemente, em junho, o vigésimo aniversário da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) não ganhou maior destaque nas principais páginas do noticiário político ocidental.

A mídia brasileira, aliás, tem sistematicamente ignorado o assunto.

O histórico e relevância desta organização

  • é igualmente negligenciado nas principais publicações do campo das Relações Internacionais
  • e demais áreas de Humanidades vinculadas ao estudo da política internacional no Ocidente.

É evidente que a visibilidade está aquém de sua centralidade no jogo político global, afinal trata-se de um bloco que conta com quatro potências nucleares, sendo duas destas membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

A OCX1 é uma entidade intergovernamental permanente, cuja criação foi anunciada em 15 de Junho de 2001.

  • Sua motivação inicial estava estritamente relacionada com o necessário tratamento político multilateral das questões securitárias da região,
  • tendo como mote o combate aos “três males” (separatismo, terrorismo e fundamentalismo).

Já seu processo decisório, é governado por consenso, estruturado por dois órgãos permanentes:

  • o Secretariado em Pequim
  • e a Estrutura Regional Antiterrorista em Tashkent (no Uzbequistão – NdR).

Além disso, o Conselho de Chefes de Estado e o Conselho de Chefes de Governo da SCO (HGC) se reúnem uma vez por ano para discutir a estratégia de cooperação multilateral da organização e suas áreas prioritárias de atuação.

A OCX,

  • herdeira do antigo grupo dos Cinco de Xangai criado em 1996, hoje é composta por nove membros
  • (China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, desde 2001; Índia e Paquistão a partir de 2017; e o Irã, a partir de 2021).

Além disso,

  • conta com três observadores (Afeganistão, Bielorrússia e Mongólia)
  • e nove parceiros de diálogo (Azerbaijão, Armênia, Camboja, Nepal, Turquia, Sri Lanka, Arábia Saudita, Egito e Qatar).

Tamanho o peso político, econômico e demográfico do bloco, seus países-membros respondem por mais de 70% do território eurasiático, quase metade da população mundial e mais de 30% do PIB mundial.

O mais recente encontro, a 21ª Reunião do Conselho de Chefes de Estado da OCX, ocorrida em setembro de 2021, também foi ignorada pelos noticiários da grande mídia ocidental.

Entretanto,

  • a cúpula foi de grande importância para os imbricados rumos da geopolítica global, marcando o ingresso do Irã como membro-permanente da organização, após constar como membro-observador do organismo desde 2005, e candidato ao ingresso desde 2008.
  • Tal evento trata-se, portanto, de um considerável aprofundamento da aproximação do país persa para com as dinâmicas eurasiáticas lideradas pelo eixo sino-russo.

O fato é que

  • quanto mais os EUA e seus aliados aprofundaram, nos últimos anos, o cerco geopolítico e geoeconômico ao Irã,
  • maior foi o crescimento da sua corrente de comércio e de investimentos da China2.

A conclusão do acordo bilateral, firmado em 2021, prevê um investimento chinês em território iraniano da ordem de 400 bilhões de dólares, distribuídos ao longo de 25 anos3.

  • Assim, além de contribuir com a segurança energética chinesa,
  • o Irã também se soma aos projetos de espraiamento da Iniciativa do Cinturão e Rota, a Nova Rota da Seda chinesa.

 

A questão central desta cúpula, contudo, voltou-se para a retirada precipitada das tropas dos EUA e da OTAN do Afeganistão, e seus respectivos desdobramentos securitários para a região.

Os países da OCX se manifestaram no sentido de buscar a construção de consensos e reunir esforços para empurrar a situação afegã em direção à estabilização do cenário regional.

O representante chinês, Wang Yi, afirmou que

“como iniciadores da questão afegã, os EUA não podem simplesmente ir embora, criar mais problemas para o governo afegão e despejar o ‘fardo’ nos países da região”4.

Dessa forma, o Afeganistão sob o governo Talibã se torna uma prova de fogo para as movimentações políticas da OCX.

  • O país está envolvido com a organização desde 2005, quando se estabeleceu o grupo de contato OCX-Afeganistão, suspenso em 2009;
  • em 2012 se tornou membro-observador;
  • e em 2015 assinou um protocolo com a Estrutura Regional Antiterrorista e se candidatou ao ingresso como membro pleno do grupo.

Os membros da organização enfatizaram a necessidade de o território afegão deixar de abrigar qualquer força insurgente ligada ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo, com especial alusão

  • ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental,
  • ao Tehreek-e-Taliban Pakistan,
  • ao Estado Islâmico
  • e às demais organizações afiliadas da Al Qaeda.

A China, em especial, tem profundas preocupações com a desestabilização regional e seus impactos sobre Xinjiang. (Região autônoma no noroeste da China – NdR)

Para tanto, destacou a importância de

  • trabalhar em conjunto para impulsionar o processo de reconciliação nacional,
  • contribuindo para tornar o Afeganistão um país desenvolvido, independente e estável,
  • respeitando os assuntos políticos internos dos demais países da região.

Parece evidente que embargos econômicos e intervenções militares, as tradicionais estratégias estadunidenses para lidar com os Estados “párias”, não têm resolvido situações políticas e sociais complexas tais como a do Afeganistão.

A solução chinesa, por sua vez,

  • passa por engajar Cabul,
  • forçando a moderação do novo governo em troca de reconhecimento político e cooperação econômica e institucional.

Nesse sentido, cabe destacar que

  • o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP)5 é um dos mais avançados da Nova Rota da Seda chinesa,
  • e pode facilmente ter seus efeitos ampliados para a órbita do país vizinho,
  • principalmente tendo em vista que o solo afegão é rico em terras raras, com depósitos de minerais e metais estratégicos avaliados em mais de US$ 1 trilhão6, dentre os quais o lítio.

É nesse contexto que Pequim anunciou recentemente uma ajuda de US$ 31 milhões para alimentos e vacinas para o novo governo afegão enfrentar a crise humanitária7.

  • Considerando que mais de 60% do comércio afegão já se dá com os países-membros da OCX,
  • o custo para Cabul confrontar os objetivos estratégicos do arranjo regional tende a ser, portanto, demasiadamente elevado.

Paralelamente à retirada do Afeganistão,

  • os EUA têm buscado fortalecer a relevância do bloco QUAD, também conhecido como o Diálogo Securitário Quadrilateral,
  • bloco formado por Austrália, Índia, Japão e os próprios EUA,
  • que rivaliza com os intentos chineses de protagonizar os arranjos políticos multilaterais orientais.

Todavia, tal estratégia de Washington parece insuficiente para confrontar

  • a robusta dinâmica de cooperação política, integração de infraestrutura e desenvolvimento econômico regional liderada por Pequim,
  • tais como a OCX, a Nova Rota da Seda e a Parceria Regional Abrangente (RCEP), entre outras.

Resumidamente,

  • os recentes acontecimentos no Afeganistão e nos rumos dos arranjos políticos multilaterais em questão
  • sinalizam o impulsionamento dos efeitos gravitacionais geoeconômicos e geopolíticos da China na região.

Assim,

  • indicam mais um largo passo para a consolidação de um novo sistema sinocêntrico
  • e reafirmação da Nova Rota da Seda como o epicentro das movimentações em prol de um projeto chinês de globalização,
  • alternativo ao da ordem neoliberal regida pela unipolaridade estadunidense.

E

  • na medida em que a China amplia sua posição central nas redes comerciais e de investimento na grande região asiática e no mundo,
  • mais onerosa se torna a tarefa de Washington para sustentar seus aliados e preservar sua projeção
  • não apenas na Eurásia, mas também no conjunto do sistema internacional.

Resta, pois, saber o quão errática e disfuncional será o comportamento de um hegemon (EUA) assustado com desafios e mudanças que lhe escapam o controle.


1 Ver site oficial da organização: http://eng.sectsco.org/about_sco/

2 Ver artigo que publicamos sob o título de “O cerco multidimensional à Teerã e a aproximação Sino-Iraniana”

3 Ver reportagem no The New York Times: https://www.nytimes.com/2021/03/27/world/middleeast/china-iran-deal.html

4 Ver comunicado oficial intitulado “Organização de Cooperação de Xangai realiza reunião de chanceleres sobre questões afegãs”: https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/zxxx_662805/t1892261.shtml

5 Ver capítulo detalhes em PAUTASSO, D. A Nova Rota da Seda e o Corredor Econômico China-Paquistão. In: Tiejun Gu (Org.). Opiniões de Acadêmicos Brasileiros sobre a China. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2019, p. 231-258.

6 Ver reportagem da Al Jazeera: https://www.aljazeera.com/news/2021/8/24/as-us-exits-afghanistan-china-eyes-1-trillion-in-minerals

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Tiago Pautasso – Doutor e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, Juruá, 2011.

 

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