O relatório da Igreja na França: 13 abusos contra menores por dia durante 70 anos

 “Je n’ai rien qu’aujourd’hui”,  (Eu só tenho hoje – NdR) costumava repetir a santa francesa Teresa de Lisieux, e hoje a igreja francesa só tem o presente para acertar as contas com o seu passado e futuro após a publicação do relatório Sauvé: 2.500 páginas elaboradas em dois anos e meio, que relatam preto no branco o dramático balanço da Igreja francesa dos anos 1950 até os dias de hoje.
Treze abusos por dia durante 70 anos.

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 06-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Hoje, a esperança anunciada pelo Evangelho rompe-se com as palavras desalentadas da Irmã Veronique Margron, presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França:

“Como superar tudo isso? Não sei”.

Uma geração inteira de bispos sai irremediavelmente afetada por sua própria negligente responsabilidade.

Fala com exclusividade sobre o tema Astrid Kaptijn da Ciase, a Comissão de Abusos independente formada por 22 membros entre teólogos, magistrados e psiquiatras – nem todos crentes -, que redigiu o relatório:

“O número de agressores corresponde mais ou menos ao que já sabemos pelas Comissões de outros países. O que chama a atenção, porém, é o número de vítimas incrivelmente alto”, admite.

Poucos dias atrás, Monsenhor Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal francesa, usou palavras duras:

“A extensão do fenômeno é maior do que poderíamos temer”. Palavras que se transformam em pedregulhos na boca das vítimas: “Precisam pagar por todos esses crimes”,

frisou na segunda-feira François Deveaux, cofundador da associação La Parole Libérée, uma das primeiras vítimas ouvidas.

392 vítimas por mês durante 70 anos

 

File:Jean-Marc Sauvé - 2016.jpg - Wikimedia Commons

Jean-Marc Sauvé / Wikimedia Commons

Jean-Marc Sauvé, ex-membro do Conselho de Estado e presidente da Ciase, definiu os números do relatório como “extraordinários”.

Os menores abusados por pessoas consagradas em setenta anos variam de 216 mil a 330 mil:

“Números que de forma alguma podem ficar sem consequências e exigem medidas muito fortes”,

acrescentou Sauvé,

  • que ressaltou como os ambientes eclesiásticos têm registado uma prevalência de violências sexuais maiores do que outros ambientes de socialização,
  • como as escolas e as colônias de férias.

80% das vítimas são garotos com idades entre 10 e 13 anos.

Para a Ciase, a alta incidência de vítimas do sexo masculino em comparação com as do sexo feminino,

  • em parte pode ser explicada pelo chamado “efeito oportunidade” em ambientes predatórios como oratórios e sacristias,
  • por outro lado não explicaria totalmente essa peculiaridade,
  • e a Igreja Católica deveria enfrentar o tema.

Entre os termos que apareceram durante a coletiva de imprensa da última segunda-feira

  • está o de “agressão sexual”:
  • em setenta anos, o número de agressores na igreja oscila entre 2.900 e 3.200 pedófilos
  • de um total de 115.000 clérigos e religiosos no país.

Mas as palavras de Sauvé são também um ato de acusação às instituições eclesiásticas:

  • “A Igreja não soube ver, não soube escutar”,declarou, apontando para a
  • “extrema confusão do direito canônico sobre as responsabilidades do bispo”,
  • dividido entre a aplicação das penas, promoção da justiça e gestão dos recursos humanos na diocese.

Em um exame do direito canônico, a Ciase observa também a ausência da vítima de abuso dentro dos procedimentos do direito canônico.

responsabilidade da Igreja justapõe-se, assim, à dívida que “contraiu para com as vítimas”.

Por isso, a Comissão convida e evita considerar os ressarcimentos como dons da Igreja:

“É um ato devido”, portanto não pode ser fixo.

Isolados como em Chernobyl

Astrid Kaptijn - Commission indépendante sur les abus sexuels dans l'EgliseAstrid Kaptijn – Foto: CIASE

“O que chama a atenção é a relação entre o número de agressores e o de vítimas, porque são realmente muitas para cada agressor”,

enfatiza Astrid Kaptijn.

Além do escândalo,

  • no relatório são marcantes os testemunhos, os rostos imersos no silêncio de famílias que anularam a si mesmas diante do papel social dos sacerdotes.
  • Muitas vítimas decidiram falar depois de cinquenta anos de silêncio:

“Eu gostaria de me cercar de uma estrutura de contenção como Chernobyl, trancar aí uma parte inteira da minha história como para me libertar e ficar sem respirar”,

revela uma vítima, hoje diretor aposentado.

Página após página, no relatório, ganha cada vez mais corpo a dimensão transversal do mal, que penetra nos recessos da psique, por vezes sem ter um nome:

  • “Não é preciso ficar deprimidos. Diante de algo tão grande a ser revelado, larga-se tudo como se afasta uma pedrinha, admite outra vítima.
  • As centenas de audições coletadas em dois anos também contam a história de um passado  difícil.”

Uma vítima, Martin, admite:

“Há uma idade em que podemos voltar a essas questões sem causar danos, porque o dano já foi feito. Não piora mais, muito pelo contrário”,

explica com uma lucidez toldada de culpa,

  • o verdadeiro triste fio vermelho que liga todas as vítimas,
  • cujos silêncios foram costurados com grande habilidade
  • por personalidades que tinham um domínio sobre as suas consciências de menores no limiar da puberdade,
  • monstros muitas vezes acolhidos em casa ou nas escolas.

Há falsas promessas de amor declaradas diante dos tabernáculos, negações que ecoam uma confiança traída:

“No abuso existe essa mistura com o lado religioso, com a parte mais profunda de um ser humano, e acho isso abjeto”,

confessa uma mulher, abusada pelo sacerdote de sua paróquia quando ainda era menor e nada sabia sobre sexualidade.

 

Padres cada vez mais sozinhos

 

A imagem dos clérigos e religiosos franceses sai irremediavelmente comprometida:

  • “Há muito para mudar e melhorar. Quando se trata de estruturas em nível episcopal ou diocesano, cabe aos bispos franceses, assim como a formação dos seminaristas, que poderia ser melhorada.
  • Uma mudança de mentalidade seria sair do clericalismo: isso é possível também na França, mas certamente requer mais tempo, porque se trata de um processo lento”,

explica Astrid Kaptijn.

Hoje, o estado de saúde da igreja francesa não é bom.

De acordo com um levantamento realizado no ano passado pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal francesa,

  • de um terço dos padres que dela participaram,
  • a metade declarou que vive sozinha
  • e 40% se percebem como não realizados.

A situação de mal-estar mesmo nos presbíteros mais jovens

  • traduz-se em sintomas depressivos, mencionados por 20 por cento dos padres que vivem sozinhos,
  • muitas vezes expressos no consumo abusivo de álcool (dois em cada cinco) ou em desordens alimentares (seis em cada dez).

As duas iniciativas da Conferência Episcopal francesa – o levantamento e a comissão sobre os abusos – refletem o desejo de combater os males crônicos da instituição.

Apesar do caminho difícil a que os abusos levaram a igreja francesa, Astrid Kaptijn continua otimista:

  • “Certamente há algumas coisas que são muito difíceis de ouvir e aceitar, mas estou convencida de que este pode ser um momento decisivo para a Igreja.
  • É um momento crítico e delicado, mas ao mesmo tempo uma oportunidade.

E tenho a certeza de que a Igreja dispõe de fontes e recursos para melhorar a situação: é uma questão de vontade”.

 

Ponto de viragem

Photos de Guillaume Cuchet - Babelio.com

Guillaume Cuchet / Babelio

Guillaume Cuchet, professor de história contemporânea na Universidade de Paris-Est Créteil e autor do recente livro “O catolicismo ainda tem futuro na França?“, estudou profundamente o colapso da religião na França a partir de meados da década de 1960, e hoje traça uma tendência:

“O lugar do catolicismo na sociedade francesa diminuiu significativamente: em 1965, 25 por cento dos adultos frequentavam a missa aos domingos, hoje menos de 2 por cento”,

explica ao Domani.

Para o editorialista do Le Figaro, trata-se

“de uma tendência comum aos países da Europa ocidental. De um modo geral, pode-se admitir que países como França e Bélgica sejam mais secularizados do que Itália ou Portugal.

Naturalmente, a atual crise dos abusos sexuais na igreja complica ainda mais a situação”,

acrescenta. Para uma das vítimas que quis se manter anônima, dois anos atrás começou o” momento de demolição” de toda a igreja católica.

Astrid Kaptijn sondou o seu e outros sofrimentos, reconhecendo a dimensão em todas as histórias misturadas de confiança traída e silêncio cúmplice:

“Nestes dois anos descobri que todas as vítimas têm uma grande dignidade. Em cada história havia algo que me impressionou ou me desafiou: a duração do abuso, a natureza sistêmica, o funcionamento da memória e sua confiabilidade, o medo de se tornar por sua vez agressores. Hoje o medo tem um peso evidente. Cabe à igreja ouvir essa cruz que ela mesmo fabricou.”

 

Marco Grieco (@marcogrie) | Twitter

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Marco Grieco

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/613524-o-relatorio-da-igreja-na-franca-13-abusos-contra-menores-por-dia-durante-70-anos

https://www.editorialedomani.it/fatti/chiesa-abusi-minori-francia-rapporto-sauv%C3%A8-violenze-70-anni-tpxowoz6

 

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