Francisco: “um pecador que procura fazer o bem”

“Nem me passou pela cabeça”

O Papa após a operação: "Nunca passou pela minha cabeça renunciar" - Vatican News
Anselmo Borges – 
   Foto: Vatican News
Foi nestes termos – “Eu sou um pecador que procura fazer o bem”– que o Papa Francisco se definiu numa longa entrevista à rádio Cope, Espanha, a primeira depois da operação que lhe tirou 33 centímetros de intestino.

“Levo uma vida totalmente normal”, “como o que quero”, “continuo vivo”.

 

O diabo anda à solta no Vaticano?

Francisco riu-se e respondeu que ele anda por todo o lado, também no Vaticano, mas tem sobretudo medo dos

“diabos educados”: “tocam à campainha, pedem licença, entram em casa, fazem-se amigos…, tenho pavor aos diabos educados. São os piores, e a gente engana-se muito, muito.”

 

Sobre a corrupção no Vaticano:

“é preciso evitar isso por todos os meios, mas é uma história antiga”.

Quer que a Justiça se torne mais independente, eficaz…

“Este é o caminho, não tenho medo da transparência nem da verdade. Por vezes dói e muito, mas é a verdade que nos torna livres”.

A propósito do julgamento iminente do cardeal Becciu:

“Quero de todo o coração que seja inocente…, mas é a Justiça que vai decidir.”

 

Sobre a pedofilia do clero, evidentemente, “tolerância zero”.

  • Presta homenagem ao Cardeal O´Malley, de Boston, que está na base da Comissão de Defesa de Menores.
  • Desgraçadamente, é um drama na Igreja, mas, infelizmente – veja-se as estatísticas -, não é só na Igreja, é “um problema mundial e grave”.

E fala sobre a pornografia infantil:

“Pergunto-me às vezes como é que certos governos permitem a produção de pornografia infantil. Que não digam que não sabem. Hoje, com os serviços secretos, sabe-se tudo. Para mim, é das coisas mais monstruosas que vi.”

 

Sobre a reforma da Cúria,

  • fala em “ajustes”(por exemplo, junção de Dicastérios (Ministérios), com um leigo ou leiga à frente…),
  • não de revolução.

Está-se a trabalhar na Constituição Apostólica Praedicate Evangelium (Anunciai o Evangelho):

“o último passo é eu lê-la – e tenho de lê-la, pois tenho de assiná-la e tenho de lê-la palavra por palavra -, não vai ter nada de novo em relação ao que se está a ver já.”

 

Sobre as “missas tridentinas” (em latim e de costas para o povo),

  • diz que ele não é de “dar murros na mesa, não consigo, até sou tímido”.
  • Mas impôs limites.

E quer que

“a proclamação da Palavra seja na língua que todos entendam; o contrário é rir-se da Palavra de Deus”.

 

Sobre o “Caminho Sinodal” da Igreja na Alemanha, atendendo aos receios da Cúria, diz que não se colocaria numa atitude “demasiado trágica”.

“Em muitos Bispos com quem falei não há má vontade. É um desejo pastoral, mas há que ter em conta algumas coisas que eu explico numa carta.”

 

Sobre a ecologia, afirma que é “um convertido”, pois durante demasiado tempo não prestou atenção.

Quando se apercebeu, convocou

“um grupo de cientistas que me expuseram os problemas reais, não as hipóteses. Apresentaram-me um belo catálogo e com razões. Passei-o a teólogos que reflectiram sobre isso. E assim se foi preparando a Laudato Sí.”

E estará em Glasgow, que espera “nos meta mais na linha”.

 

A propósito de uma pergunta sobre a eutanásia, pede que nos situemos:

“Estamos a viver uma cultura do descarte. O que não serve deita-se fora. Os velhos são material descartável: incomodam. Os doentes mais terminais, também, os bebés não desejados, também, e são mandados para o remetente antes de nascer.”

Depois, quando se pensa nas periferias, temos “o descarte de povos inteiros. Pense nos rohingyas…”.

 

Quanto aos migrantes:

“A minha resposta seria: quatro atitudes: acolher, proteger, promover, integrar. Vou à última: acolhidos, se não são integrados, são um perigo, porque se sentem estranhos.”

Mas também eles têm de se integrar, digo eu.

 

Sobre a Europa:

“Para mim, a unidade da Europa neste momento é um desafio. Ou a Europa continua a aperfeiçoar e a melhorar na União Europeia ou desintegra-se.”

E que pense no inverno demográfico, com a inversão da pirâmide das idades.

 

Quanto ao Afeganistão:

“É uma situação difícil. Pelo que se vê, não se tiveram em conta – parece, não quero julgar – todas as eventualidades”.

 

Sobre a China:

“O que à China se refere não é fácil, mas estou convencido de que não se deve renunciar ao diálogo. Podem enganar-te no diálogo, podes equivocar-te, tudo isso…, mas é o caminho. O fechamento nunca é caminho.”

O mesmo quanto ao islão…

 

As suas maiores desilusões?

“Tive várias na vida e isso é bom, pois fazem-nos aterrar de emergência. O problema está em levantar-se… Creio que perante uma guerra, uma derrota, um fracasso ou o próprio pecado, o problema é levantar-se e não permanecer caído.”

 

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/francisco-um-pecador-que-procura-fazer-o-bem-14107753.html

 

 

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