Alemanha pode estar diante de uma guinada à esquerda

Olaf Scholz, candidato social-democrata a chanceler federal, está na frente nas pesquisas de opinião

 

Olaf Scholz, candidato social-democrata a chanceler federal

Astrid Prange – 31.08.2021 – Foto: Axel Schmidt/AP/picture alliance

Surpreendentemente à frente nas pesquisas, social-democratas poderão colocar fim aos 16 anos da liderança conservadora da CDU de Merkel – com um governo mais focado na agenda social e no combate às mudanças climáticas.

 

Finalmente! O tédio da campanha eleitoral alemã acabou.

Os social-democratas (SPD, da sigla em alemão) e seu candidato a chanceler federal, Olaf Scholz, mal podem acreditar em sua sorte.

  • O atual ministro das Finanças do gabinete de Angela Merkel superou pela primeira vez nas pesquisas
  • seu rival conservador Armin Laschet, candidato da União Democrata Cristã (CDU),
  • antes considerado um sucessor em potencial de Angela Merkel.

De acordo com a última pesquisa de opinião realizada pelo instituto INSA em 30 de agosto, com

  • 25%, o social-democrata Olaf Scholz está 5 pontos percentuais à frente do democrata-cristão Armin Laschet.

Em meados de julho, ainda era bem diferente:

  • Laschet tinha 27%,
  • enquanto Scholz, considerado pouco carismático, seco e desajeitado, estava com 16%.

O milagre social-democrata significa a iminência de uma verdadeira reviravolta política na Alemanha − para a esquerda.

Porque se o SPD obtiver o maior número de votos nas eleições de 26 de setembro, ele está disposto a negociar a formação de um governo com todos os partidos no Bundestag, menos com a conservadora CDU e a populista de direita AfD.

A cooperação com a AfD não é possível por razões de conteúdo e ideologia. Nem com a CDU, devido a questões programáticas e estratégicas.

Nos 16 anos do governo de Merkel,

  • os social-democratas governaram ao lado dos democrata-cristãos durante 12 anos.
  • A renovação proclamada pelo SPD não pode, portanto, ocorrer com mais uma coalizão entre CDU e social-democratas.

 

Scholz, Baerbock, Laschet: os três candidatos a chanceler da Alemanha

Deutsche Welle, 31.08.2021 – Foto: DAQUI

Na foto: Schol, Baerbock, Laschet: os três candidatos a chanceler da Alemanha

CDU na oposição?

Assim chegariam ao fim

  • não só os 16 anos da era Merkel,
  • mas também a era da liderança conservadora da CDU
  • e a cooperação política entre CDU e SPD em nível governamental.

Quão de esquerda o novo governo em Berlim será depende das negociações com os potenciais parceiros de coalizão após as eleições. Mas já está claro que o futuro gabinete governamental incluirá não apenas social-democratas, mas também verdes.

  • E como uma coalizão entre social-democratas e verdes provavelmente não será suficiente para uma maioria no Parlamento, o SPD precisará muito provavelmente de um terceiro parceiro de coalizão.
  • Se se aliar ao Partido Liberal Democrático (FDP), próximo do empresariado, haverá um governo de centro.
  • E se for formada uma coalizão com o socialista A Esquerda, a balança penderá mais para a esquerda.

Mesmo que a busca por um potencial terceiro parceiro de coalizão à primeira vista pareça um detalhe político, ela pode ser decisiva para o rumo político da Alemanha nos próximos quatro anos.

Pois

  • o aumento do salário mínimo,
  • uma maior tributação do patrimônio,
  • o fim de voos domésticos na Alemanha
  • e se as usinas a carvão serão desativadas no curto prazo,

tudo isso não depende apenas do SPD e dos verdes.

 

Maior liberdade de mercado ou mais regras?

Enquanto os liberal-democratas, por exemplo, priorizam o mercado e as inovações técnicas na política climática, A Esquerda tem um curso bem oposto.

De acordo com seu programa partidário, ela quer

  • “quebrar o poder dos bancos e dos mercados financeiros”,
  • “socializar as grandes empresas de energia”
  • e proibir empresas de energia “com sede na Alemanha de construir novas usinas de carvão e linhito no país e no exterior”.

Independentemente de quem seria o terceiro parceiro da coalizão, já está claro que a política energética e climática será uma marca do futuro governo.

  • Pois já na primeira coalizão vermelho-verde (entre SPD e Partido Verde), sob o chanceler federal Gerhard Schröder (1998-2005), fez-se história:
  • em 14 de junho de 2000, Berlim acordou com as empresas de energia o fim gradual da produção de energia nuclear.

Foi também o então chanceler federal Schröder que cortou maciçamente os gastos sociais, diante do aumento do desemprego e da dívida pública.

A reforma dos benefícios de desemprego introduzida durante seu governo, chamada Hartz IV,

  • levou a perdas para o SPD nas eleições de 2005.
  • Schröder renunciou, mas seu partido permaneceu no poder mesmo assim, como parceiro júnior da CDU sob a chanceler federal Angela Merkel.

Desta vez, também parece que o SPD pode continuar no governo. Um renascimento social-democrata que ninguém esperava, muito menos a CDU, que estava certa de seu retorno à Chancelaria Federal, graças ao bônus Merkel.

Cinco dos oito chefes de governo desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949, foram democrata-cristãos.

Os social-democratas poderiam agora fornecer o quarto chanceler federal para a Alemanha.

Quatro semanas antes das eleições, as coisas estão começando a ficar emocionantes! Finalmente!

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Astrid Prange de Oliveira trabalhou como correspondente no Brasil e na América Latina por oito anos. Para a DW Brasil, ela escreveu a coluna Caros Brasileiros durante três anos. Agora, com a coluna Alemanha vota ela retorna como observadora da campanha eleitoral alemã. Siga a jornalista no Twitter: @aposylt

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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