A esquerda depois de Jair Bolsonaro

 Qual pode ser o caminho de um novo Lula no Brasil pós-Bolsonaro? Indaga Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da UnB, em artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, 15-08-2021 e reproduzido por A Terra é Redonda, 16-08-2021.

Eis o artigo.

Quando o projeto da derrubada de Dilma Rousseff ganhou as ruas, o Congresso e a mídia, com o governo se mostrando singularmente incapaz de reação, vaticinou-se o fim do momento petista da esquerda brasileira.

  • Um partido nascido no calor das lutas operárias do final dos anos 1970, que crescera na política institucional
  • e conquistara a presidência da República por quatro vezes seguidas,
  • deveria ser capaz de uma reação muito mais vigorosa contra a trama preparada para atingi-lo.

Para quem acompanhou a mobilização em defesa do mandato que a presidente conquistara nas urnas, estava claro que

  • a resistência vinha muito mais de novos coletivos juvenis, feministasnegrosLGBTQI+ e periféricos
  • do que de uma militância petista já envelhecida e acomodada.
  • Muitos defendiam a legalidade sem sequer apoiar o governo, como expressou a maravilhosa faixa vista em algumas manifestações: “Fica, Dilma, mas melhora”.

Lula não saiu incólume.

  • Tinha sido o maior líder popular da história do Brasil, sem dúvida, mas fora colocado na defensiva.
  • A solidariedade ao ex-presidente, contra a perseguição judicial e midiática que sofria, foi expressada por democratas de diferentes matizes,
  • mas havia quase um consenso de que seu tempo estava passando.

Era um nome muito forte para 2018, claro, mas pôde ser eliminado da disputa com facilidade.

  • O ato na frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo rendeu belas fotos, mas a verdade é que a reação à prisão arbitrária de Lula foi fraca.
  • Seja porque o lulismo optou por um caminho desmobilizador, que reduzia a participação política ao voto,
  • seja porque a campanha incessante de desconstrução da imagem do ex-presidente tinha rendido frutos,
  • o fato é que sua liderança parecia esvaziada, impotente.

As eleições de 2016, de 2018 e de 2020 não foram a catástrofe para o PT que alguns afoitos vaticinavam, mas revelaram um partido fragilizado.

  • PSOL, apontado como possível sucessor, cresceu pouco no voto popular, mas atraía lideranças mais jovens e parecia encarnar a promessa de renovação.
  • Guilherme Boulos foi derrotado na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2020, mas chegou ao segundo turno, bem à frente do candidato petista.
  • Muitos não hesitaram em saudá-lo como o futuro da esquerda no Brasil.

O cenário mudou com a libertação e recuperação dos direitos políticos pelo ex-presidente Lula. Ele cresceu politicamente na cadeia, pela dignidade inegável com que enfrentou o cárcere.

  • Mesmo para quem já percebia a inanidade dos processos preparados pela Lava Jato,
  • a exposição das entranhas da operação foi chocante, como comprovação da corrupção profunda de vastos setores do Judiciário e do Ministério Público
  • – o que também favoreceu Lula, alvo principal do que, estava evidente, foi uma verdadeira conspiração contra a democracia brasileira.

Mas o mais importante foi o clima político no momento de sua soltura.

  • O país atravessava o pior pedaço da crise sanitária, econômica e social desencadeada pela pandemia,
  • com o governo Bolsonaro insistindo no negacionismo, indiferente aos custos humanos.

A esperança de que seria possível afastá-lo do cargo já se dissipara,

  • com a abertura do governo ao Centrão,
  • a hesitação da oposição de direita, preocupada em não comprometer a agenda econômica que compartilha com o bolsonarismo,
  • e a reiterada opção preferencial do STF por contemporizar.

Lula surgiu, então, como aquele que era capaz de dar voz à revolta e prometer a retomada de um caminho de sanidade, estabilidade e desenvolvimento para o Brasil.

Falta muito tempo para as eleições do próximo ano, num cenário tumultuado – a começar pelas ameaças de um novo golpe, alardeadas todo dia pelo presidente da República. Mas, no momento, Lula é o franco favorito.

  • O desespero evidente de Bolsonaro é o melhor indício de que ele mesmo avalia que suas chances nas urnas são diminutas.
  • A chamada “terceira via” não parece capaz de se viabilizar e oscila entre insistir em nomes tarimbados que mostram desempenho pífio ou buscar um novato,
  • manobra incerta no momento em que o discurso da antipolítica perde tração.

E Ciro Gomes, mais uma vez candidato de si mesmo, queimado à esquerda desde sua “promenade” (passeio – NdR) parisiense em 2018, tem dificuldade para se credenciar junto à direita, arriscando ficar aquém de seu teto histórico de 12% dos votos.

 

Lula não apenas entra na corrida como favorito. É bem provável que ele surja como candidato único da esquerda (à parte PSTU e talvez PCB, que têm registro eleitoral irrelevante).

  • Atraiu o PSB,
  • mantém a fidelidade do PCdoB
  • e há boa chance de contar com o apoio do PSOL.

A candidatura do deputado Glauber Braga está posta, mas serve sobretudo para alimentar os confrontos internos do partido. Caso seja mesmo lançado candidato, Braga – por mais que conte, na esquerda, com reconhecimento unânime como parlamentar brilhante – está condenado a ser mero figurante na disputa presidencial.

Mas o que Lula vai fazer com tamanho favoritismo? Qual pode ser o caminho de um novo governo de centro-esquerda no Brasil pós-Bolsonaro?

Os desafios são grandes.

  • Desde o golpe de 2016, o país vive um processo acelerado de desconstitucionalização,
  • no qual o pacto que originou a carta de 1988 foi rompido por decisão unilateral das elites.

O que nela está escrito vale ou não vale de acordo com as circunstâncias e com o alvo da decisão. Os poderes vivem numa permanente queda de braço para ver quem manda, já que as regras perderam eficácia.

  • O horizonte normativo a animava a Constituição, de um país menos injusto e menos violento, foi desfigurado,
  • o que se traduziu no encolhimento dos direitos e das políticas sociais – a obra comum dos governos Temer e Bolsonaro.

O outro lado da moeda 

  • é o desmonte do Estado, por uma política seja de privatizações irresponsáveis, seja de deliberado subfinanciamento.
  • Da saúde à ciência, da proteção ambiental à educação e à cultura,
  • não há uma área que não sofra as consequências do assalto às políticas públicas.

Ao mesmo tempo,

  • movidos por demofobia e, ainda mais, pelo apetite pelas benesses do poder,
  • os militares se rendem à tentação de tutelar o governo civil.

Por fim (e sem que a lista seja exaustiva),

  • é preciso lembrar de uma extrema-direita agressiva, que não vai evaporar com a eventual derrota de Bolsonaro
  • e que está sendo adestrada para conflagrar qualquer retomada democrática no Brasil.

Um grupo, convém assinalar, fortemente armado, dada sua penetração entre militares, policiais, milicianos e também entre os “cidadãos de bem”, que aproveitaram as recentes facilidades para a aquisição de pistolas ou fuzis.

 

Lula, como de costume, emite sinais ambíguos sobre o que pretende fazer.

  • Declarações contra as privatizações e em favor do retorno de um Estado capaz de promover bem-estar e induzir desenvolvimento
  • convivem com gestos destinados a acalmar “o mercado”, que é o nome de fantasia que a imprensa dá ao grande capital.

A defesa de medidas democratizantes, que melhorem a qualidade da representação política no Brasil, se combina com acenos para o Centrão e para líderes religiosos negocistas.

 

O caminho da recomposição do arco lulista original, aquele do início do primeiro mandato, garantiria a “governabilidade”, entendida em seus termos mais convencionais:

  • maioria no Congresso,
  • relações amigáveis com o empresariado,
  • relativa trégua com a mídia corporativa.

O problema é que as condições para arrancar as contrapartidas

  • (as políticas sociais compensatórias,
  • a ampliação das oportunidades para os integrantes dos grupos mais vulneráveis,
  • um esboço de projeto nacional de desenvolvimento)

estão muito pioradas,

  • seja pelo recuo dos marcos legais e enfraquecimento do Estado,
  • seja pela presença de uma burguesia que exige uma parcela ainda maior da riqueza
  • e de uma classe média intoxicada pelo medo de ver diminuída a distância que a separa dos mais pobres.

Neste quadro, uma nova presidência de Lula significaria

  • a normalização da ordem que foi instaurada a partir do golpe de 2016,
  • uma normalização mais perfeita do que seria possível sob qualquer político conservador.

Um presidente de esquerda,

  • mas acomodado aos direitos perdidos,
  • à economia desnacionalizada
  • e à Constituição conspurcada.

Na derrota, Bolsonaro estaria prestando um último serviço à destruição da democracia brasileira: o de encarnar o bode na sala. Sua saída de cena geraria um enorme alívio – bodes na sala de fato causam muito transtorno.

Por contraste, ficaria a impressão de que

  • a ordem social e política aviltada pelos retrocessos sofridos a partir de 2016
  • é o avanço possível, a ser comemorado.

É verdade que fica difícil imaginar um cenário diverso, de rápida reversão das derrotas dos últimos anos, dada a fraqueza do campo popular.

Mas convém colocar na equação também o fato de que Lula pode negociar em condição vantajosa.

  • Ele é o favorito, o que basta para atrair a massa de políticos que não suportam a dureza de estar na oposição.
  • Ele é a melhor promessa de pacificação do país,
  • o que interessa a todos que veem no Brasil mais do que um território a ser saqueado.

A direita está cindida e sem um nome viável;

  • a ampla coalizão de forças que se uniu para desferir o golpe de 2016 não opera mais.
  • Portanto, é possível tentar algo mais do que apenas ceder.
  • É possível cobrar compromissos mínimos dos novos aliados – a começar pelo compromisso com a efetiva reconstitucionalização do país.

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O pacto lulista original foi marcado pelo entendimento de que a transformação social no Brasil estava bloqueada e que era preciso agir com enorme tato para não afrontar privilégios e garantir o mais básico – em primeiro lugar, a erradicação da miséria.

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O tato incluía, notadamente, evitar qualquer esforço de mobilização e organização do campo popular.

O resultado, como se viu, foi que,

  • no momento em que a classe dominante decidiu reverter a situação,
  • a capacidade de resistência era diminuta.

A reedição de um acordo nestes termos, que bloqueie de antemão qualquer ação para mudar a correlação de forças, é a garantia de que uma retomada democrática levará, como outras vezes na história do Brasil, a um voo de galinha.

Não é fácil a tarefa de construir a democracia no capitalismo periférico.

Se nos países centrais a erosão das condições que permitiram seu florescimento no século XX já leva a processos de “desdemocratização”,

  • que dirá do Brasil, que tem uma classe dominante alérgica a qualquer forma de justiça social
  • e com tanto medo do povo que prefere, como já observava Florestan Fernandes,
  • se manter como sócia menor do capitalismo internacional
  • a correr o risco de enfrentar por conta própria os destituídos de seu país.

Para uma esquerda que aspira voltar ao poder em condições tão adversas, é hora de usar a imaginação política e buscar soluções novas, não de voltar a trilhar itinerários cujos limites já estão demonstrados pela história recente.

 

Luis Felipe Miguel (@lfelipe_miguel) | Twitter

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