«Qual é o rosto de Deus?», entrevista com o teólogo José Ignacio González Faus

 

O método de Deus

Entrevistou Aníbal Pastor N., em Religión Digital. Tradução: Cepat – Imagem: Reprodução

Deus quer que não existam pobres, isto é uma grande verdade. Isso significa que amanhã não haverá pobres? Isso depende de nós. Deus fará isso através de nós. Ganhamos consciência, ganhamos algumas coisas, evidentemente, uma parte da igreja aparece como muito próxima dos pobres. 

E não só no plano da caridade, no plano do cuidado, mas também no plano da mudança de estruturas

 

 

A eminente dignidade dos pobres na Igreja". Entrevista especial com José Ignacio González Faus - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Teólogo José Ignacio González Faus – Foto: DAQUI

AN – O tema do rosto de Deus é um eixo central no seu pensamento. O magistério da Igreja – Puebla, Aparecida, Assembleia Eclesial – falou dos rostos sofredores de Cristo, novos rostos gerados pela pandemia e o capitalismo…


Faus –  Em primeiro lugar, Deus não tem rosto.
Sim, tenho um livro que se chama El rostro humano de Dios (O rosto humano de Deus). Na segunda ou terceira edição, acrescentei um epílogo que se intitulava O Deus sem rosto.

Se você tem a primeira edição e a terceira, aí está esta diferença. Porque digo isso? Porque se você notar, a bíblia fala de Deus, sobretudo das atitudes de Deus para com os outros. Isso é o fundamental. A atitude pode ser chamada rosto de Deus, mas, acima de tudo, é como Deus se comporta comigo.

As experiências religiosas nos falam de Deus, no meu modo de ver, em três ou quatro grandes mudanças.

  • No oriente, é sobretudo o Deus dentro de mim, o que dizem os hindus, meu eu o Deus, que depois é ponderado,
  • mas isso, com os cristãos, poderíamos dizer que é o Espírito de Deus em mim. O mais fundo em mim, o mais profundo de mim, é o Espírito Santo.
  • Em tudo o que foi o continente Ameríndio, Deus esteve muito presente como o Deus da natureza.

Para mim, cabem os textos dos céus proclamam a glória de Deus, etc.

  • E no que foi o ocidente cristão, esteve muito presente como o Deus da história.
  • E o Deus da história é, no Antigo Testamento, o Deus Criador e Libertador.
  • E no Novo Testamento, o Deus Amor.

Tudo isso são atitudes de Deus para connosco. E isso é o que devemos saber buscar. E quero acrescentar que essas três dimensões que defini como uma espécie de mapa, necessitam-se.

Porque, note,

* um Deus no mais profundo de mim é uma grande verdade,

  • mas se esqueço a história, ocorre o que está acontecendo na Índia,
  • com os cristãos sendo perseguidos por ajudar os párias.

* Um Deus na natureza é uma grande verdade,

  • tanto que para o problema ecológico muito teria que ser recuperado daqui,
  • mas se fico só com o Deus da natureza, não existe progresso e posso acabar como nesse mundo do altiplano boliviano, aos 4000 metros de altura,
  • onde parece que a natureza foi mais forte do que o ser humano e aí não houve progresso.

E se o Deus da História dispensa o da natureza, comete todo o pecado ecológico em que caímos.

E se dispensa o do Oriente, então, a história se torna um projeto meu.

São três coisas que precisam ser unidas.

 

AN -Mas qual é o rosto? Como eu o vejo? Como eu o percebo?

Faus –Vamos colocar nele mais adjetivos do que qualificativos.

  • Um rosto amoroso, um rosto libertador e um rosto criador, no sentido de que faz você acreditar que Deus não cria fabricando, como nós.
  • Na Bíblia, gosto muito quando se fala da criação, isso é notado por todos os exegetas.
  • A Bíblia tem a intuição de reservar para Deus um verbo, que traduzimos por criar, que só é utilizado para a ação de Deus.

Porquê?

  • Porque nós, homens, fazemos fabricando com um material prévio, pois eu farei com uma estátua de Michelangelo ou com uma música de não sei quem.
  • Mas Deus faz fazendo com que as coisas sejam feitas.
  • O que dá lugar a uma grande autonomia deste mundo, que também é uma coisa que vamos aprendendo com a história.

E é aí que

  • superamos o Antigo Testamento e todas essas religiosidades
  • que acreditam que o que aconteceu comigo foi enviado por Deus.
  • Por favor, não. O que aconteceu comigo veio da trama das coisas históricas.

Deus permite, na medida em que não intervém fazendo um milagrezinho, porque, caso contrário, estaria fazendo milagrezinhos a cada cinco minutos, mas Deus faz fazendo com que as coisas sejam feitas.

Além disso, o Deus Libertador é fundamental.

Na mensagem que devemos receber do Antigo Testamento, e dos evangelhos, a libertação se mantém,

  • mas é uma libertação a partir do amor, como Jesus, que, por misericórdia, transgredia o sábado e curava.
  • E por misericórdia ou por igualdade não lavava as mãos, etc.

 

AN – Como podemos discernir hoje, nas nossas realidades, que Deus ‘faz fazendo com que as coisas sejam feitas’?

Faus: Com a oração. E uma oração que recomendo muito é:

“Espírito Santo, venha a mim, de mil maneiras. Enche-me de Ti e esvazia-me de mim. Que eu conheça esta situação com o Espírito dentro de mim”.

E então, uma vez que eu tento estar em comunhão com o Espírito, meu pedido é: “ensina-me o que tenho de fazer”. Que eu saiba qual é a vontade de Deus.
Depois, “dá-me força para agir assim”, porque certamente na hora da verdade, recuarei, falharei.

“E além de me dar força, faça com que eu aja com desejo”,

  • porque assim não serei um reprimido e um violento,
  • mas, ao fazer isso com gosto, não invejarei os outros, nem me tornarei um fariseu,
  • como aconteceu com os fariseus que cumpriam tudo, mas por obrigação e acabaram se sentindo superiores.

Esse é um pequeno detalhe sobre a oração, que vai nessa direção,

  • pois acredito que o grande esquecimento da igreja ocidental, e a causa de muitas falhas dela,
  • é justamente o esquecimento do Espírito Santo.

 

AN – Deus quer uma Igreja de médicos

Faus – Deus quer que não existam pobres, isto é uma grande verdade. Isso significa que amanhã não haverá pobres? Isso depende de nós. Deus fará isso através de nós.

  • Ganhamos consciência, ganhamos algumas coisas, evidentemente, uma parte da igreja aparece como muito próxima dos pobres.
  • E não só no plano da caridade, no plano do cuidado, mas também no plano da mudança de estruturas.

Havia lá um teólogo protestante, suíço, que eu cito algumas vezes, que disse:

‘o cristianismo tem uma grande caridade, mas sempre foi a caridade da enfermeira, agora nos puxa pela caridade do médico’.

A enfermeira é muito necessária, cuida e traz alívio, e eu que estive hospitalizado sei muito bem, mas o médico elimina a doença.

E é isso o que a Igreja recuperou com grandes resistências.

 

Aníbal Pastor N.

Fonte: https://www.religiondigital.org/mundo/Gonzalez-Faus-entrevista-mujer-concilio-vaticano-teologia-liberacion-jesuitas-papa_0_2360463941.html#

 

 

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