Alimentar o mundo com direitos humanos. A comida como “um agente transformador da mudança”

Alimentando o mundo com direitos humanos

Carlo Petrini – 30/07/2021 – Foto: DAQUI

A transformação de todo o sistema alimentar é uma exigência inadiável. Esta é a premissa com a qual decorreu em Roma (de 26 a 28 de julho de 2021), a pré-cúpula da ONU sobre sistemas alimentares

escreve Carlo Petrini, fundador do Slow Food, ativista, gastrónomo e sociólogo, – em La Stampa. – Tradução: Luisa Rabolinini, Unisinos

 

Uma mudança que exige reflexões profundas e mudanças adequadas para enfrentar os desafios que temos pela frente.

Desafios relativos

  • ao sistema ambiental,
  • à vida das nossas comunidades
  • e à salvaguarda dos ecossistemas, que atualmente se encontram gravemente comprometidos.

Deste ponto de vista, os sistemas alimentares desempenham, sem dúvida, um papel decisivo. Aproveitar uma cúpula internacional para tratar dessas questões é, sem dúvida, um sinal forte e virtuoso.

 Amina Mohammed, vice-chefe da ONU, fala na Pré-Cúpula da Conferência da ONU sobre Sistemas Alimentares -/ UN Photo/Giulio Napolitano

Ecos da Pré-Cúpula

Na Pré-Cúpula da Conferência de Sistemas Alimentares da ONU, a vice-secretária-geral Amina Mohammed disse aos participantes que

“a comida é, simplesmente, um agente transformador da mudança”.

Ela discursava no evento que juntou líderes e ministros de vários países sob o tema

“Transformando Sistemas Alimentares para Alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Enfrentando o Desafio”.

Amina Mohammed pediu que

  • os alimentos sejam vistos não como simples bens básicos,
  • com sua própria cadeia de valor e característicos,
  • mas também como se conectam às pessoas e podem melhorar a saúde e regenerar o planeta.

 

Gostaria de me deter em três aspetos que, a meu ver, não podem mais ser adiados e que precisam encontrar espaço na agenda da cúpula.

* O primeiro

  • é a exigência de sair dos imperativos que nos impõe uma economia, a meu ver, profundamente prejudicial à qualidade do meio ambiente e das relações sociais.
  • Uma economia baseada na hegemonia do crescimento, do lucro e do capital financeiro.
  • Afirmar que o interesse público deve existir como ponto de referência e, com ele, a prioridade dos bens comuns e bens relacionais, é uma condição preliminar para enfrentar esses desafios.

Não podemos vencê-los se não houver uma mudança radical nos paradigmas econômicos e financeiros que contribuíram para criar a dramática situação atual em que nos encontramos.

 

*  O segundo ponto

  • é a reafirmação não apenas em princípio, mas em substância, da centralidade dos titulares dos direitos humanos.
  • No setor alimentar ainda existem formas graves de exploração, inclusive comparáveis à escravatura, que não podem ser toleradas no século XXI.
  • Uma centralidade que se torna fundamental para poder dar início a qualquer discussão, a ponto de ter que ser subscrita por todos como um compromisso decisivo para a transformação de todo o sistema.

* Nesse contexto, os titulares de direitos são, sem dúvida, as mulheres:

  • a igualdade de género deve ser afirmada de forma decisiva
  • pelo próprio papel que historicamente as mulheres tiveram e têm
  • na produção de alimentos e na garantia da segurança alimentar e da soberania dos povos.

Esses elementos devem ser colocados no topo da agenda da mudança, porque na ausência deles desaparece a possibilidade de uma verdadeira transformação.

 

Esse grande desafio só pode ser superado deixando espaços de autonomia governamental a nível local.

Porque é precisamente nas realidades de proximidade que se joga a capacidade

  • de incidir sobre a mudança,
  • de reforçar os laços que todos devemos estabelecer com as organizações de base,
  • as realidades do voluntariado e as pessoas que dedicam a sua vida à promoção de um sistema alimentar em harmonia com a natureza.

No nível local, as políticas podem tornar-se uma realidade.

  • Isso não significa não ter uma visão global e não se sentir parte de um projeto geral,
  • mas o projeto geral só pode ir em frente alicerçado por milhões de pessoas que realizam nos territórios onde vivem esta transição ambiciosa e útil.

 

Por todas estas razões,

  • eu me coloco ao lado das mais de 300 organizações da sociedade civil de todo o mundo
  • que nestes dias, juntamente com o início da pré-cúpula sobre os sistemas alimentares em Roma,
  • realizaram com coragem e grande espírito de solidariedade um evento paralelo ao oficial.

Um evento que não exclui o diálogo, pelo contrário, o leva avante e o abre a todos.

  • Para ser eficaz, de fato, o diálogo deve ser inclusivo
  • e não dirigido aos habituais privilegiados de um sistema económico e financeiro
  • responsável pela atual catástrofe em que nos encontramos a viver.
3 bilhões no mundo não consegue comprar alimentos saudáveis
 3 bilhões no mundo não consegue comprar alimentos saudáveis – FAO/ C. Marinheiro 

 

O diálogo e a partilha são elementos que podem consubstanciar a transformação do sistema alimentar de que necessitamos.

E acrescento,

  • que permitem alcançar os objetivos que todos devemos perseguir,
  • não só pela salubridade do nosso sistema ambiental,
  • mas também pela justiça social e pela convivência entre os povos.

Só assim criaremos um sistema que garanta a soberania alimentar e coloque um fim ao problema da desnutrição em todas as formas; especialmente naquelas mais desumanas daqueles que ainda hoje morrem de fome.

Slow Food on Twitter: "Petrini Launches Appeal For Town In Italy Affected by Earthquake #unfuturoperamatrice https://t.co/XPGvd02vhQ… "

.

 

Carlo Petrini, 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/611495-alimentar-o-mundo-com-direitos-humanos-artigo-de-carlo-petrini

 

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