A esperança que habita nos cantos do Brasil

    

Doação de alimentos na favela paulistana de Paraisópolis em março de 2021

Ynaê Lopes dos Santos – 30/07/2021 – Foto: Bernado Bizerra /EFE

Doação de alimentos na favela paulistana de Paraisópolis em março. Dentre os 210 milhões de brasileiros, aproximadamente 19 milhões estão passando fome.

Além de um estado de luto constante, a pandemia trouxe fome para milhões de brasileiros. A desigualdade é desoladora, e parece não haver saída. Mas basta olhar para os cantos para ver a possibilidade de outros Brasis.

 

Temos motivos de sobra para estarmos cansados, desgostosos, exaustos e profundamente tristes.

Ainda atravessamos uma pandemia que transformou a vida de todos/as, nos obrigando a enfrentar a morte e o medo dela o dia todo, todos os dias. Num estado de luto constante, mesmo quando não conhecemos nenhum dos mais de mil mortos do dia. E se não bastasse termos que andar de mãos dadas com a morte, para muitos de nós a vida de antes não existe mais. 

  • São as horas em frente às telas, na tentativa de reinventar as conexões.
  • São sorrisos que agora vislumbramos pelo canto ou pelo brilho dos olhos, quando muito.
  • São os abraços engasgados, como nós na garganta, que transformaram os cotovelos em objetos de afeto e afeição.

Entrar num transporte público com inúmeros receios. Perder o emprego, o chão. É olhar para uma aglomeração e achar estranho, saber ser errado, mesmo com tanta saudade. É não saber direito onde estamos, nem para onde iremos. E mesmo assim, continuar caminhando.

É também a volta da fome. Muitos de nós estamos vivendo uma enorme fome de diversão e arte – aspectos que sempre fizeram parte das “coisas boas da vida”.

Mas essa é uma fome que tem CEP certo, e que, infelizmente, não é a pior de todas.

O Brasil vive o agravamento da fome por sobrevivência.

  • Nos últimos dias têm aparecido no noticiário pessoas formando fila para pegar ossos de boi, tendo em vista os preços exorbitantes da carne.
  • O nosso arroz com feijão (combinação que garante a base alimentar de milhões de brasileiros) está tão caro,
  • que agora temos uma versão “mais pobrinha”, composta por fragmentos de arroz e bandinhas de feijão.

Grãos fracionados que, embora liberados para o consumo humano, demonstram bem a situação que estamos vivendo: a falta de inteireza. E também falta leite, pão, dinheiro para o gás de cozinha.

  • Dentre os 210 milhões de brasileiros, aproximadamente 19 milhões estão passando fome.
  • Um dos países que mais produz carne e grãos em todo o mundo permite que quase 10% de sua população esteja faminta.

Uma constatação que, de tão perversa, chega a ser irônica.

De fato, estamos dentro de um quadro desolador, no qual a desigualdade é nosso denominador comum, e nem sei bem o quanto isso nos indigna. Parece não haver saída.

No entanto, a sobrevivência de uma grande parcela da população brasileira

  • é a constatação da perversidade do sistema em que vivemos,
  • mas também a possibilidade de pensarmos a vida e construirmos um mundo a partir de outras possibilidades.

Se olharmos com atenção para os cantos, como bem nos lembra o belo samba de Dona Ivone Lara, teremos uma nova perspectiva.

  • Que não anula a violência que nos cerca,
  • nem a fome que nos assola,
  • mas que nos dá um sopro de esperança,
  • nos lembrando que também somos feitos de (em)canto.

Esta semana começou com o dia 25 de julho, o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

  • O dia de mulheres que, historicamente, estiveram fadadas a sobreviver…
  • Mulheres que só puderam ver a esperança nos cantos, e não no centro de suas vidas.

A escolha por trás da comemoração deste 25 de julho tem uma história toda especial.

A história de Tereza de Benguela,

  • uma mulher escravizada (não sabemos ao certo se nascida no Brasil ou em alguma sociedade africana),
  • que em meados do século 18 se tornou a liderança máxima do Quilombo de Quariterê,
  • no que hoje é o estado do Mato Grosso.

Ao longo de quase 20 anos, a rainha Tereza de Benguela chefiou uma comunidade que se colocava abertamente contrária à sociedade escravista e colonial da época.

O quilombo era formado por homens, mulheres, negros e indígenas

  • que produziam alimentos para subsistência,
  • além de criarem animais de pequeno porte
  • e plantarem algodão.

Em Quariterê não havia escravidão, e ninguém passava fome. E se isso não bastasse, o quilombo era governando por meio de um sistema parlamentar, que reconhecia em Tereza de Benguela a autoridade máxima.

  • O que se viu naquele “canto do Brasil” foi uma outra forma de viver.
  • Sob o comando de uma mulher negra houve esperança,
  • e também outra experiência de vida marcada pela liberdade e pela inteireza.

Foi possível experimentar o que Beatriz Nascimento chamou de paz quilombola.

E mesmo que o fim da rainha de Quariterê tenha sido trágico, sua história é um lembrete de que outros mundos são possíveis. E Tereza de Benguela não foi exceção.

  • Nos cantos do Brasil, temos as histórias de inúmeras mulheres (e de muitos homens)
  • cujo norte não era o medo de se tornarem menos ricos.
  • Histórias de sobrevivência, mas também de reinvenção, de resistência.

Outros Brasis que foram imaginados e sonhados.

Essas outras possibilidades de Brasil atravessaram toda nossa história e chegaram aos dias de hoje.

  • Estão na memória de Marielle Franco,
  • no “Baile de Favela” de Rebeca Andrade (prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020),
  • nas pesquisas científicas de Jaqueline Goes de Jesus,
  • nos bordados de Rosana Paulino,
  • na voz rouca e certeira de Elza Soares,
  • e nas lutas diárias de tantas outras mulheres rememoradas neste 25 de julho.

Ainda há esperança. Que nossos cantos possam inundar o Brasil inteiro.

 

Ynaê Lopes dos Santos

Ynaê Lopes dos Santos

Mestre e Doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017) e Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

1 comment to A esperança que habita nos cantos do Brasil

  • Steffano Silva Nunes

    Muito boa a análise. Precisamos superar essa situação de “falta de inteireza” que o nosso país está submetido.

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