As estranhas derrotas de uma potência

por  16/07/2021 – Imagem: Reuters

Após 240 mil mortos, EUA retiram-se do Afeganistão humilhados e sem glória. Mais um de seus fracassos militares pós-1945. Mas seguirão agressivos e desafiadores, pois esta é a lógica do sistema interestatal eurocêntrico criado no século XVII

O poder político é fluxo, mais do que estoque.
Para existir precisa ser exercido; precisa se reproduzir
e ser acumulado permanentemente.
E o ato de conquista é a força originária
que instaura e acumula poder.

  J.L.Fiori, O poder global e a nova geopolítica das nações

Na madrugada do dia 2 de julho de 2021, as tropas norte-americanas se retiraram de forma sorrateira de sua base militar de Bragam, a última e mais importante base dos EUA no Afeganistão, depois de uma guerra que durou exatamente 20 anos e acabou de forma absolutamente desastrosa.

  • No conflito morreram 240 mil afegãos e cerca de 2.500 militares americanos;
  • os americanos ganharam muitas batalhas, mas finalmente perderam a guerra,
  • e seu exército deixa para trás um país destruído e dividido, às portas de uma nova e violenta guerra civil entre as forças do Talibã e do atual governo afegão.
  • Neste momento, as forças talibãs vêm avançando por todos os lados e a perspectiva é que assumam o governo central do país muito mais cedo que tarde.

_____________________________

Ainda mais surpreendente ou chocante é acompanhar as conversações de paz entre os dois lados do atual conflito afegão, que negociam as possibilidades de um pacto de convivência em Teerã, sob o patrocínio do governo iraniano arqui-inimigo dos EUA.

_____________________________

  • Ao mesmo tempo, os países-membros da Organização para Cooperação de Shangai, sob a liderança da China e da Rússia,
  • também se mobilizam para encontrar uma fórmula que pacifique o país,
  • e sobretudo impeça que o fundamentalismo talibã se expanda além das fronteiras do Afeganistão ameaçando seus vizinhos, incluindo a própria China.

Ou seja, depois dos atentados de 11 de setembro e de 20 anos de guerra, os EUA conseguiram promover uma cambalhota entregando o Afeganistão de volta aos seus principais inimigos militares desde o primeiro minuto dos bombardeios americanos no território afegão, então controlado pelas forças talibãs.

  • O surpreendente em tudo isso, entretanto, é que não se trata de uma situação excepcional, ou de uma derrota imprevista.
  • Pelo contrário, esta parece ter sido a regra nas guerras americanas depois da Segunda Guerra Mundial.

 

♣ Os EUA lideraram as forças da ONU ♣na Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e depois de três anos de avanços e recuos foram obrigados a assinar uma trégua que já dura 67 anos, com as tropas do Exército Popular da Coreia e com os representantes do Exército de Voluntários do Povo Chinês, em 27 de agosto de 1953.

♣ Depois, os norte-americanos foram derrotados na Guerra do Vietnã, de onde tiveram que se retirar de forma quase tão ou mais vergonhosa do que agora no Afeganistão, culminando com a famosa cena da evacuação da embaixada americana em Saigon e a retirada apressada, por helicópteros, do pessoal civil e militar que ainda estava na capital sul-vietnamita, às vésperas de sua ocupação pelas tropas comandadas pelo general Van Tien Dung, do Vietnã do Norte, no dia 30 de abril de 1975.

♣  Algum tempo depois dessa humilhação histórica, os EUA lideraram uma nova coalizão das Nações Unidas e venceram a Guerra do Golfo de 1991, mas após matar cerca de 150 mil iraquianos, desistiram de tomar Bagdá e depor e substituir o presidente Saddam Hussein.

Este havia sido protegido e aliado militar dos americanos durante a guerra Irã-Iraque, na década de 80, e depois foi transformado no seu grande inimigo nas duas guerras dos EUA contra o Iraque.

♣ Da mesma forma, em 2003, as tropas americanas, apoiadas por soldados ingleses, voltaram a derrotar os iraquianos e desta vez mataram seu presidente, mas em seguida “perderam o fio da meada” e acabaram entregando o Iraque aos seus principais inimigos, os xiitas iranianos.

♣ Depois disto, os americanos se envolveram na guerra civil da Líbia, ajudaram a matar seu presidente e antigo aliado, Muammar al-Gaddafi, e acabaram abandonando o país à sua própria sorte, destruído e dividido em estado de guerra civil crônica até hoje.

♣ E algo análogo teria ocorrido na Síria, se não tivesse havido a intervenção militar russa – que sustentou o presidente Bashar al-Assad, deu uma contribuição decisiva para derrotar as tropas do chamado Estado Islâmico, e agora vem liderando o esforço de juntar os pedaços de um país inteiramente destruído, dividido e na mais absoluta miséria.

♣ E tudo indica que o mesmo voltará a acontecer em alguns meses mais, depois dos Estados Unidos retirarem seu apoio militar à intervenção da Arábia Saudita no Iêmen.

♣ Deve-se agregar a esse quadro de derrotas e fracassos sucessivos da diplomacia e das tropas norte-americanas, o distanciamento de seus antigos aliados, Paquistão e Turquia, cada vez mais próximos da zona de influência russa e chinesa.

Uma perda de influência que se reflete na ausência americana das negociações que estão em pleno curso em vários pontos do Oriente Médio e da Ásia Central visando pacificar o “Grande Médio Oriente”, inventado pelo governo Bush e destruído pelas sucessivas administrações democratas e republicanas destes últimos 30 anos.

Pode-se lembrar aqui, como um verdadeiro ponto de inflexão nesta história,

  • a irrelevância dos EUA no conflito recente entre o Azerbaijão e a Armênia, em torno ao território disputado de Nagorno-Karabakh,
  • e sua completa irrelevância nas negociações da trégua que foi lograda com a mediação e tutela da Rússia e da Turquia.

No entanto,

  • realmente difícil de entender e explicar é como os EUA atravessaram todas essas derrotas ou fracassos no logro de seus objetivos imediatos, sem perder seu poder global.
  • Mais do que isso, como conseguiram aumentar seu poder a cada nova derrota?

Uma pergunta muito importante para entender o passado do sistema mundial em que vivemos, mas muito mais importante ainda para pensar sobre o seu futuro.

Mas, ao mesmo tempo,

  • uma pergunta que não tem uma resposta imediata e conjuntural, e só pode encontrar ou explicação recorrendo-se à história de longo prazo do sistema de Estados nacionais que nasceu na Europa entre os séculos XVII e XVIII,
  • e que depois se universalizou nos séculos XIX e XX, através da expansão e das conquistas das grandes potências coloniais europeias.

Durante toda a história deste sistema de Estados nacionais, houve sempre Estados ganhadores e Estados perdedores, e o sistema como um todo foi sempre competitivo, bélico e expansivo.

  • E todos os seus “membros” foram obrigados a competir e fazer guerra para sobreviver nesta verdadeira corrida pelo poder e pela conquista de uma riqueza maior do que a de seus competidores,
  • até porque a acumulação da riqueza se transformou num peça fundamental da luta pelo poder.

Como disse uma vez o grande historiador e psicanalista alemão Norbert Elias,

  • a regra básica do sistema de Estados nacionais inventado pelos europeus é: “quem não sobe, cai”
  • –uma regra válida mesmo para as grandes potências que já se encontram na frente desta corrida sem fim.

Ou seja, mesmo as chamadas “grandes potências” desse sistema

  • estão obrigadas a se expandir permanentemente, aumentando seu poder e sua riqueza,
  • para seguir ocupando as posições que já ocupam e necessitam preservar através de suas novas conquistas e guerras
  • que apontam na direção da criação de um império universal que conseguisse monopolizar o poder dentro do sistema internacional.

Só que esse “império universal” é uma impossibilidade lógica dentro do próprio sistema,

  • porque se ele se realizasse, o sistema se desintegraria ou entraria em estado de entropia, por causa do desaparecimento da própria competição,
  • que é de onde vem a energia que move todo o sistema que funciona em conjunto como se fosse uma verdadeira máquina de criação de mais poder e de mais riqueza.

Por isso mesmo, a preparação para a guerra e as próprias guerras não impedem a convivência, a complementaridade e até alianças e fusões entre os Estados envolvidos nos conflitos.

  • Às vezes predomina o conflito, às vezes a complementaridade, mas é esta “dialética” que permite a existência de períodos mais ou menos prolongados de paz dentro do sistema mundial,
  • sem que se interrompam a concorrência e o conflito latente entre seus Estados mais poderosos.
  • A própria “potência líder” ou “hegemônica” precisa seguir expandindo seu poder de forma contínua,
  • para manter sua posição relativa, como já dissemos, mas também para manter vivo o seu poder.

O poder dentro deste sistema é fluxo, é conquista, e ele só existe enquanto é exercido, não importa se afinal os vencedores conseguem impor ou não os objetivos imediatos em cada uma de suas guerras.

Por mais absurdo que possa parecer, nesse sistema

  • é mais importante que seus Estados líderes façam guerras sucessivas e demonstrem seu poder militar,
  • do que consigam realizar os seus objetivos que são declarados e utilizados para justificar seu exercício sem fim de novas guerras.

O passado confirma que a potência líder do sistema, fosse ela a Inglaterra, nos séculos XVIII e XIX, ou os EUA, no século XX,

  • foram os Estados que fizeram mais guerras durante toda a história do sistema interestatal que foi inventado pelos europeus,
  • e o número destes conflitos iniciados por estas duas potências líderes aumentou com o tempo em vez de diminuir
  • na medida em que foi aumentando o poder destas duas grandes duas potências anglo-saxônicas que lideraram o sistema internacional nos últimos 300 anos.

____________________________________

É por isto mesmo, aliás, que as grandes potências acabam por ser também as principais “desestabilizadoras” da ordem mundial, sendo que a sua “potência hegemônica é invariavelmente quem destrói com mais frequência as regras e instituições que ela mesma construiu e tutelou num momento anterior da história.

____________________________________

Exemplo disso

  • é quando, em 1973, os EUA se desfizeram do “padrão monetário dólar-ouro” que eles próprios haviam criado em Bretton Woods em 1944.
  • E agora mais recentemente, quando o governo de Donald Trump passou a atacar e destruir todas as regras e instituições criadas e tuteladas pelos EUA
  • desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em particular após o fim da Guerra Fria.

Por fim, resumindo e voltando à discussão sobre as sucessivas derrotas americanas no período em que os Estados Unidos estiveram no epicentro do sistema mundial e do seu movimento permanente de expansão:

  • do nosso ponto de vista, o sistema mundial é um “universo em expansão”, onde todos os Estados que lutam pelo “poder global” – em particular, a potência líder ou hegemônica –
  • estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra.

_____________________________

Por essa razão, crises, guerras e derrotas não são, necessariamente, o anúncio do “fim” ou do “colapso” da potência derrotada. Pelo contrário, podem ser uma parte essencial e necessária da acumulação de seu poder e riqueza, e anúncio de novas iniciativas, guerras e conquistas. O que passou já ficou para trás, como se fosse uma perda de estoque que não altera necessariamente o fluxo do seu poder dirigido para frente e para novas competições e conquistas.

_____________________________

  • E é isto exatamente que está acontecendo, agora, do nosso ponto de vista,
  • quando os Estados Unidos estão realinhando suas forças, suas velhas alianças, e preparando todos os seus estados vassalos,
  • para a disputa de poder e riqueza que já em curso dentro do novo eixo asiático do sistema mundial.

E, em particular, para enfrentar o seu novo grande desafio e motor do seu próprio poder: a China. E deste ponto de vista, aliás, a própria retirada americana do Oriente Médio e da Ásia Central pode ser vista como parte desta nova disputa, e como uma forma de fragilizar seu novo adversário, desencadeando uma explosão fundamentalista e um grande guerra religiosa e civil no território que os Estados Unidos estão abandonando, situado exatamente na retaguarda continental da China.

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>