O Brasil diante da banalidade do mal

por 16/07/2021 – Imagem: Rubem Grilo, gravurista brasileiro

O mal supremo não é diabólico, mas comezinho e pedestre. Aparado pelas elites, ele arrasta milhões a poço sem fim. “Perdoai as nossas ofensas”, reza o presidente. Mas há contas por acertar; esquecer não é opção. É hora de refazimento e reparação

 

Pai de nós todos omnipresente, reconhecida seja nossa origem e destino comuns. Abertos estejamos aos sinais de que tanto o céu pode resplandecer na terra como pode desabar sobre ela/ Que o sentido último das coisas seja garantir vida plena para todos/ Saciada a fome de pão e mantida insaciável a fome de justiça/ Perdoar e ser perdoados para juntar, reunir, recompor o que foi segregado, devastado e vilipendiado/ Sem mais ganância e soberba, livre dos males da negação dos elos que nos são inerentes.

Esta seria uma releitura possível da Oração sintetizadora do cristianismo nestes tempos catastróficos, na perspectiva dos povos.

  • Na direção contrária, invocada como um código premeditado, torna-se um temerário salvo-conduto, um subterfúgio. Cobertura conveniente para práticas inomináveis.
  • Que conste que em um dos países mais violentos, intolerantes e desiguais do mundo, somos cristãos, ok?

Depois da tragédia nacional programada e consumada, oração sob ordem. Das mãos em arminha às mãos juntas. Comecem a rezar!

  • Silenciem as perguntas, as cobranças, os inquéritos, as investigações.
  • Sob a chantagem de voltar à carga, o criminoso genocida absolve a si mesmo.

O velho método da anistia como esquecimento compulsório.

  • Nós que esqueçamos os extermínios e as pilhagens calculadas.
  • Em troca do apagamento dos efeitos das guerras sujas, e das negociatas nelas embutidas,
  • retirou-se momentaneamente o status de terrorismo ou de banditismo endereçado aos movimentos de resistência popular e democrática.

Foi essa a Anistia possível em 1979? E qual anistia propõem agora Bolsonaro e as frações capitalistas que lhe dão suporte direto ou tácito?

O que pedem que esqueçamos?

  • As centenas de milhares de mortos e sequelados 
  •  seja por improvidência governamental,
  • seja por proposição deliberada de turbinar o capitalismo pandêmico
  • com máxima extração de commodities, arrasando territórios, biomas e povos originários.
  • Os massacres generalizados e os assassinatos seletivos perpetrados por forças policiais-milicianas mercenárias
  • a mando de máfias territorializadas no campo e nas periferias das cidades.

Esqueçam os “excessos”, dizem, e aí então voltaremos à velocidade “normal” da máquina de espoliação necroliberal.

  • A implosão e o desmanche dos instrumentos de regulação dos mercados.
  • A desmoralização e sucateamento dos serviços públicos e perseguição dos servidores públicos que não estejam a serviço de máfias privatistas,
  • livre atuação de quadrilhas parlamentares especializadas na intermediação entre orçamentos públicos e empresas corruptoras.
  • As privatizações como um botim entre amigos do rentismo,
  • leilões ininterruptos de novas oferendas para megafusões do capitalismo global que apequenam e rebaixam a nação.

Esqueçam tudo isso, reiteram, esqueçam o que podia ter sido, esqueçam o futuro.

Perdão, na meta-análise de Hannah Arendt, pressupõe recomposição da frágil e complexa teia social.

Isso quer dizer:

  • refazimento e reparação, ponto a ponto,
  • nenhum tipo de esquecimento.

Por isso

  • imprescritíveis são os crimes de Mariana, Brumadinho, Hydro, Belo Monte, Santo Antônio e Jirau e tantos outros.
  • Não se esquecerá jamais Manaus e demais cidades, deixadas à míngua na pandemia.

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Sem provisão de insumos básicos para a saúde da população, sem testes, sem leitos, sem oxigênio, sem vacinas, o país conseguiu a “proeza” de abarrotar o mundo de outros “insumos básicos” (grãos, carne e ferro) em função do metabolismo do capital. Os novos bilionários brasileiros, alçados na pandemia, mostram que não há paradoxo nisso.

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Não há perdão sem reversão das trajetórias que nos trouxeram até o fim deste poço sem fundo.

  • Não é questão de gosto por vingança ou por alguma crença no punitivismo.
  • Uma dívida histórica, social, ecológica e sanitária – contabilizada na contramão da dívida propriamente dita –  será cobrada devidamente
  • para que não se perca o horizonte do reaprendizado social necessário
  • e da centralidade da agenda da desconcentração e partilha do poder econômico e político.

O novo normal do bolsonarismo sem Bolsonaro, propalado pela direita empresarial, que tenta se apresentar como centro político, implica em um regime de normalização e consolidação do conjunto das barbáries cometidas nos últimos anos.

  • Normalidade futura oferecida pelos mercados
  • para manter e expandir seus ganhos vinculados a novas precarizações, privatizações e espoliações físicas e simbólicas.

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  • O capitalismo pandêmico exponenciado no Brasil não foi uma fatalidade, foi e é uma estratégia, o que não depende necessariamente de uma enteléquia premeditada dos capitais.

  • Trataram de potencializar efeitos socialmente devastadores com focos determinados.

  • Assim, após cada crise “terminal” do capitalismo, tem-se um adicional de calamidade seletiva sobre classes, etnias, territórios e espaços anteriormente segregados.

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A banalidade do mal, é preciso que se compreenda, é o mal maior. É quando psicopatia, racismo, sexismo, todas formas de crueldade e ostentação se enraízam em práticas, dispositivos, instituições, mercados e imaginários.

  • O mal extremo não tem profundidade nem dimensão diabólica, vinculada a um único ente irradiador,
  • mas a leviandade de um fungo que se espalha horizontalmente, pedestre e comezinho.

O genocídio reinventado no Brasil

  • não se limita à perseguição e extermínio de minorias,
  • mas compreende descartes planejados e justificados por uma lógica intrínseca.

Genocídio multidimensional cometido não apenas por tiranos infames, mas por camadas de mandatários da isenção, da mediocridade e do comportamento automatizado pelos mercados.

 

Perdoai nossas ofensas? Vai passar?

  • Depois de uma sucessão de pilhas de corpos, de amontoados de destroços, não dá para passar por cima disso.
  • Não dá para simplesmente esperar que haja renda, emprego, territórios e instituições nem mesmo nas já precárias condições anteriores.

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A ofensiva já estava arquitetada quando chegou a covid-19. O fascismo de mercado adotou de pronto a pandemia como um fluidificador geral das relações sociais e econômicas para dar vazão à “seleção natural” ou à espontaneidade das relações de força. Sem mais distinções entre o “de fato” e o “de jure”. Não bastará remover o facínora de plantão.

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  • Depois de colocar a sociedade sob risco e sob ataque deliberado, antes e durante a pandemia;
  • depois de abrir a porteira para as quadrilhas pilharem o setor público, o SUS, o meio ambiente e os territórios;
  • agora posa de vítima perseguida.

Falsa polêmica do voto impresso como cortina de fumaça, falsa promessa de desativar o modo-golpe de sua gestão, com o beneplácito made in Fux (they trust).

  • Em operação “Facada Continuada”, espetacularizam sintomas que advém da trégua escatológica na forma de um quase-martírio,
  • devidamente amparado pelo médico pessoal e sua clínica atestando o mal de origem: a facada como mito de origem.

O uso sórdido da teoria conspiratória do “longo braço armado da esquerda” apenas torna mais crível a hipótese do auto-atentado perpetrado por um infiltrado que depois alega insanidade mental.

Vai passar, o que?

Na canção de Chico Buarque, “Vai passar” tem conotação ativa, no sentido de atravessar, de desfilar, sentido imerso naquela multidão solar que veio às ruas em 1984, de onde brotou a canção.

O movimento das Diretas Já era o campo representacional do que podia significar o fim da ditadura empresarial-militar de 1964.

  • A loucura necessária frente ao desarrazoado poder;
  • o sanatório geral, a ruptura estrutural contra todas as desigualdades;
  • o “samba popular” passando e triunfando na avenida.

Mas o problema é que passou raspando, ou passou longe, a tal da “redemocratização” e não vai mais passar, pelo menos não do mesmo jeito.

O que e como vai passar, nesse momento, vai depender da nossa capacidade de transitar pela linha do tempo, de compartilhar práticas, propósitos e sentimentos.

 

 

Brumadinho: um crime que dói profundamente – Jubileu Sul

FONTE:  https://outraspalavras.net/crise-brasileira/o-brasil-diante-da-banalidade-domal/

 

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