A santidade profanada dos militares

Por décadas, Forças Armadas nutriram aura quase religiosa sobre si mesmas. Foi esta intocabilidade que estimulou, sob o esgoto do bolsonarismo, muitos militares a se corromperem. Insistência em protegê-los pode comprometer toda a instituição.

 

Desde a última ditadura, a representação política viveu intimidada pelos militares.

  • Em 1979, acatou uma anistia que preservou praticantes do terrorismo de Estado que atentaram contra a humanidade.
  • Na Constituinte de 1988, através do Artigo 142, reconheceu os superpoderes das corporações armadas.
  • O Ministério da Defesa, organismo essencialmente político, foi entregue ao desígnio do militar.
  • Os negócios da Defesa foram simploriamente assimilados como assuntos militares.
  • Com uma tuitada um general condicionou as últimas eleições presidenciais.
  • Com o país em profunda crise multidimensional, a representação política admitiu que Bolsonaro concedesse privilégios a perder de vista à “família militar”.

Não será baixando a cabeça diante das fileiras que os brasileiros preservaremos a democracia. Agiu bem o senador que preside a CPI ao dizer que não seria intimidado por generais. Militares se envolveram em falcatruas e devem responder por isso. Outra opção seria encerrar os trabalhos da CPI e deixar o morticínio correr frouxo.

Hoje à noite eu ministrarei uma aula cujo primeiro tópico é a religiosidade dos guerreiros.

  • Homens que se preparam para abater semelhantes, mesmo que movidos por pura cobiça, cobrem-se de razões sagradas.
  • Suas credibilidades derivam de imagens construídas.

Guerreiros precisam mostrar-se alheios aos interesses pequenos. O sentido de honra cultivado nas fileiras é estreitamente relacionado às causas elevadas que juram defender.

O guerreiro ideal é incorruptível, como Platão teorizou há mais de dois mil anos. A cristandade recheou sua hagiografia de figuras militares. São Sebastião, São Jorge, São Longuinho, Santa Joana D’Arc, São Luís… Guerreiros vivem passando a ideia de que prezam o interesse coletivo ao custo da própria vida. Demandam a divindade como parceira.

Perdendo a sacralidade, o guerreiro se esfarela.

Os comandantes brasileiros sabem disso

  • e se empenharam em destacar a diferença entre o político paisano, corrupto por índole,
  • e o militar ilibado, íntegro por formação.

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Fileiras se legitimam como defensoras da pátria sacrossanta. Assim ensinam as escolas castrenses. Fora dos quartéis, a extraordinária lenda segundo a qual na ditadura não havia corrupção foi religiosamente disseminada. O povo sempre foi propenso a acreditar no extraordinário.

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Eis que a imagem de alto padrão moral das instituições armadas brasileiras entra em chamas a partir dos trabalhos da CPI. Podia ser diferente?

  • As corporações não passariam ilesas integrando o governo Bolsonaro.
  • Os militares sempre souberam da folha-corrida do Presidente.

Se os parlamentares baixarem a cabeça, cairemos numa sinuca de bico. Aliás, os senadores fizeram de tudo para poupar os militares, adiando o que estava escrito. Demoram para colher o depoimento dos oficiais e entoaram loas às corporações.

De tão protegidos, ousaram cada vez mais.

  • O Presidente do Superior Tribunal Militar julgou-se autorizado a delimitar o espaço da oposição e não perdeu a oportunidade.
  • Disse que a esquerda estava esticando demasiado a corda. Não foi admoestado.
  • Previsível, pois, que os homens de muitas estrelas continuassem o jogo das “aproximações sucessivas”, assinando uma nota contra o presidente da CPI.

A preservação da democracia passa pela contenção de tais manifestações. O senador Omar agiu de forma ponderada. Condenou a “banda podre”, não o conjunto das corporações.

Como negar o fato de militares estarem envolvidos no escândalo de corrupção mais repugnante da história brasileira?

A santidade castrense está em chamas. Sem uma postura firme da consciência democrática, as labaredas podem tomar conta do país.

O militar surtou!

 

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