Liberdade e dignidade humana

LIBERDADE E DIGNIDADE - 4S Media Solutions

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos, o Homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos, tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros.

Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até pode escolher não escolher, mas também esta é uma escolha, com todas as consequências.

  1. A diferença entre o Homem e os outros animais não é meramente de grau, quantitativa. Ela é a qualitativa, essencial.

A razão dessa diferença está fundamentalmente no facto de o Homem não se encontrar na simples continuidade da vida no sentido biológico.

Como escreveu o filósofo Max Scheler,

  • o Homem é “o asceta da vida”,
  • pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos.

Por exemplo, ao contrário dos animais,

  • o ser humano, mesmo com fome, perante um petisco, é capaz de renunciar,
  • por razões de ascese, de generosidade para com um necessitado
  • ou pura e simplesmente para provar a si mesmo que é senhor de si e das suas acções.

Precisamente nesta sua capacidade vê o célebre biólogo Francisco J. Ayala

“a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente específica dela.”

Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar, optar, o Homem é um animal livre e moral.

Os outros animais também comunicam, mas o Homem tem linguagem duplamente articulada. Aristóteles viu bem, ao definir o Homem como animal que tem logos (razão e linguagem), e, assim, como “animal político”.

  •  “Só o Homem, entre os animais, possui fala. A voz é uma indicação da dor e do prazer: por isso, têm-na também os outros animais.
  • Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto.

E isto é o próprio dos humanos frente aos outros animais:

  • possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações.
  • A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a pólis”, o Homem é “animal político”.

Quando lemos os clássicos como Aristóteles é que nos apercebemos

  • como a política anda tão longe desta apreciação do bem e do mal, do justo e do injusto, do conveniente e do inconveniente,
  • de tal modo é presa da fama ridícula, de interesses egoístas, do poder pelo poder, do dinheiro tantas vezes à custa da corrupção…

 

2.  Mas seremos realmente livres?

  • Se sempre se colocou esta pergunta, hoje, concretamente, quando as descobertas da genética e das neurociências
  • mostram uma conexão entre os genes, o cérebro e os comportamentos, há a tentação da dúvida.

Não estaremos, afinal, totalmente submetidos aos mecanismos da natureza e da sociedade?

É, no entanto, claro que

sem liberdade não há dignidade. De facto, ser ser humano e ser livre identificam-se.

Também para o cristianismo há um vínculo indissolúvel entre o Homem e a liberdade:

  • como escreveu São Paulo, onde está a liberdade aí está o Espírito de Cristo
  • e onde está o Espírito de Cristo aí está a liberdade.

A liberdade mostra-se numa experiência transcendental: por paradoxal que pareça, não seria sequer possível discutir a questão da liberdade, se tudo estivesse sujeito ao determinismo.

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A pessoa livre é aquela que faz a experiência de ser dona de si mesma e das suas acções segundo o dever-ser. Somos dados a nós mesmos e, assim, senhores de nós e do que fazemos. A dignidade funda-se nesta autoposse: só porque me possuo a mim mesmo é que me posso dar a alguém, entregar-me a uma causa.

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  • Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos,
  • o Homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos, tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros.

Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até pode escolher não escolher, mas também esta é uma escolha, com todas as consequências.

O Homem

  • é capaz de erguer-se a si mesmo acima do simplesmente agradável ou útil, do que dá prazer, e colocar-se no lugar do outro.
  • É capaz de transcender os interesses particulares da natureza
  • e enquanto ser racional dá a si mesmo a lei moral universal que é a lei da liberdade.

O filósofo I. Kant formulou-a nestes termos:

“Age segundo uma lei que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei universal de acção”,

e:

“Trata a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de todos os outros sempre como fim nunca como simples meio,”

Note-se que este “simples meio” é importante, pois também nos tratamos como meios, na medida em que nos servimos dos serviços de alguém e até lhe pagamos por isso; por exemplo,

  • vamos ao restaurante e pagamos a quem nos serve, mas aquela pessoa continua pessoa, não redutível a empregado no restaurante;
  • por isso, é fim e não simples meio, tem dignidade:
  • as coisas têm um preço, a pessoa não é simples meio, é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.

Sem capacidade moral e liberdade – a liberdade é a condição de possibilidade da moralidade e, consequentemente, da responsabilidade: cada um responde por si, pelos seus actos e pelo que faz de si.

O que é que andamos a fazer no mundo?

Resposta:

  • fazendo o que fazemos, andamos a fazer-nos a nós próprios
  • e, no fim, o resultado será uma obra de arte ou uma vergonha -,

Sem capacidade moral e liberdade 

  • o Homem não seria digno de louvor nem estaria sujeito à censura, ao prémio ou ao castigo,
  • e não haveria distinção entre o bem e o mal moral.

Como escreveu o filósofo Luc Ferry, que já foi ministro da Educação em França,

  • “um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a uma “etologia”,
  • sem nunca falar de moral a não ser como ilusão mais ou menos necessária, fazendo parte do real, mas enganadora.”

Embora sempre condicionado, só porque não é completamente subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano

“pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)”.

 

Anselmo Borges

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: DN -Lisboa

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