“É hora de redistribuir a riqueza”. Entrevista com Thomas Piketty

Francisco Manacord – 07 Junho 2021 – Dinheiro na mão de poucos /  Foto: DAQUI
 Aviso antes de ler: se lhe desagradou a proposta de Enrico Letta de tributar os grandes patrimônios para oferecer um dote de 10 mil euros a todos os jovens italianos, pule esta entrevista. Thomas Piketty, economista francês de renome internacional autor de alguns livros densos – o último, Capital e ideologia, publicado pela Intrínseca – tanto celebrados quanto contestados, conhece a recente proposta do secretário do Partido Democrata e certamente não discorda, mas a considera “demasiado prudente”.

Em Trento para o Festival de EconomiaPiketty intitulou sua conferência “Socialismo participativo contra Socialismo de Estado“. Ele faz questão de esclarecer que além da palavra com o S que tanto medo causa nos Estados Unidos, sua proposta olha mais para as sábias social-democracias de molde europeu, a Suécia na frente, com um poderoso Estado de bem-estartributação das rendas fortemente progressiva, participação de trabalhadores na gestão de empresas como no modelo alemão.
Dito isto, suas propostas são decididamente radicais, com um imposto sobre a renda que – teoriza – deveria chegar a 90% para quem tem uma renda superior a 10.000 vezes a renda média (na Itália significaria quem declara mais de 200 milhões) e um patrimonial permanente de igual dimensão cuja função deveria ser a de tornar “temporária” a propriedade, distribuindo através do sistema fiscal uma “herança para todos” de 120 mil euros para cada cidadão.

A entrevista é de Francisco Manacorda, publicada por la Repubblica, 05-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Você publicou “Capital e ideologia” em 2019. O que mudou com a pandemia?

pandemia, para além dos seus terríveis efeitos em todo o mundo, mostrou a fragilidade do nosso modelo econômico e social. Todos compreenderam que

  • precisamos de serviços públicos, como os serviços de saúde, fortes
  • e que existem problemas mais importantes do que respeitar a relação dívida/PIB e as regras orçamentais.

crise de 2008, e agora esta,

  • marcam a saída de uma certa forma de hipercapitalismo e neoliberalismo
  • extremamente otimista sobre a capacidade dos mercados de regular todos os problemas.

 

As desigualdades econômicas são o foco de seus estudos. Já temos as provas de seu aumento por conta da pandemia ou é muito cedo para percebê-lo?

É um pouco cedo, mas já constatamos que

  • as rendas mais baixas e as situações mais precárias no mercado do trabalho
  • perderam mais do que as pessoas que tinha situações mais estáveis, empregos que lhes permitiam trabalhar de casa,
  • enquanto ao nível dos patrimônios foi fácil perceber que os bilionários do planeta, em setores como o de alta tecnologia, são ainda mais ricos.

Isso tudo leva a um debate que está evoluindo rapidamente sobre como distribuir essa riqueza.

 

Um debate provocado pela crise Covid?

Não, acelerado pelo Covid. Mas o debate estava ganhando impulso antes mesmo da pandemia.

Em particular, fiquei impressionado com a campanha para as eleições presidenciais dos EUA de 2020 em comparação com a de 2016.

Quando falei com a senadora democrata Elizabeth Warren no primeiro turno sobre a necessidade de introduzir um imposto anual de 5 a 10% sobre a riqueza de bilionários ela era muito cética.

  • Quatro anos depois, Warren e Bernie Sanders estavam competindo para saber quem proporia o imposto sobre a riqueza mais alto.
  • O mesmo aconteceu na Alemanha com a SPD, onde em 2014-2015  Sigmar Gabriel não quis reintroduzir um imposto sobre a riqueza enquanto agora Olaf Scholz e os Verdes alemães estão pensando nisso.
  • E também Enrico Letta fez recentemente uma proposta para aumentar o imposto sobre a herança e dar um capital inicial a todos os jovens.

Uma proposta que você obviamente aprova …

Eu faria mais:

  • o imposto sucessório deve ser aumentado, mas um imposto anual sobre grandes fortunas também é necessário.
  • Se realmente queremos redistribuir, antes de criar ‘a herança para todos’, que eu defendo,
  • é preciso um sistema de garantias como o salário mínimo para os trabalhadores ou a renda básica.

E devemos ter cuidado para que

  • essa ‘herança para todos’ não seja uma forma de abolir outras formas de estado de bem-estar, da saúde pública à educação estatal.
  • Sempre existe o risco de que algum liberal veja uma oportunidade para gerar dinheiro: ‘Pegue seus dez mil euros e pare de nos incomodar’.

 

Mas a proposta de Letta não foi bem recebida na Itália. Até o primeiro-ministro Mario Draghi disse que não é hora de falar sobre novos impostos.

Eu realmente aprecio Draghi,

  • mas não acho que ele pensa que pode financiar tudo por meio das dívidas.
  • Depende de qual horizonte é dado.
  • Se ele pensa que ficará lá por mais um ano, sua resposta é compreensível.

Mas o que interessa a mim é o horizonte de cinco ou dez anos em que esses problemas surgirão inevitavelmente.

 

Hoje, porém, a Europa parece capaz de sair da crise.

Acredita-se que se possa sair da crise somente através do Banco Central europeu que empresta dinheiro para estados com juros zero. Mas esta situação, que à primeira vista parece funcionar, é na realidade muito frágil.

 

Por que é que as taxas vão necessariamente subir diante de um reinício da economia?

Não só isso.

Mesmo enquanto as taxas permanecem em zero,

  • elas resolvem um problema de dívida pública,
  • mas criam um problema de desigualdade dos patrimônios.

Para os pequenos poupadores,

  • as taxas zero não são necessariamente uma coisa boa,
  • enquanto para aqueles que têm patrimônios muito maiores e podem investir em mercados financeiros ou imobiliário,
  • as taxas zero podem ser um ótimo negócio.

Acho que seria necessária uma nova forma de política monetária em que o dinheiro seja dado diretamente às pessoas normais e não aos bancos e àqueles que podem tomar empréstimos.

E, depois, um dia certamente será necessário ter a contribuição dos mais ricos.

O imposto, temido por muitos, que na Itália se chama patrimonial …

Veja bem, todas as grandes crises de dívida pública também se resolveram assim. Por exemplo,

  • na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, em 1952, foi instituída uma taxa excepcional sobre os patrimônios privados mais altos que podia chegar a 50%
  • e isso permitiu reduzir a dívida pública alemã de forma acelerada e financiar a reconstrução do pós-guerra.

 

francesco manacorda (@FraManacorda) | Twitter

.

 

Francisco Manacorda

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/609913-e-hora-de-redistribuir-a-riqueza-entrevista-com-thomas-piketty

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>