O sinal explosivo enviado pelo comandante-geral do Exército às tropas

 

Ao não punir Pazuello, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira abre a porteira para que fardados mergulhem na política e expõe o apego dos militares ao poder.

Esta nota faz parte da nossa newsletter do dia 4 de junho. Leia a edição inteira

Ontem, o comandante-geral do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, arquivou o procedimento administrativo aberto contra Pazuello.

Com isso, abriu as portas para que mais militares da ativa sigam o exemplo do general, num processo que tem tudo para ir além – violentamente além.

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Em uma nota de apenas três frases, o Centro de Comunicação Social do Exército informou que o comandante “analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente” por Pazuello.

A defesa, apresentada no dia 27, é um escárnio: afirma que

  • a manifestação não era um evento político-partidário.
  • Que o país não está em período eleitoral – como se atos políticos estivessem restritos a esse calendário.

E também que Bolsonaro não é filiado a partido político.

Há dias a punição a Pazuello era assunto na mídia.

  • Poderia variar desde uma prisão disciplinar, logo descartada, a uma repreensão por escrito ou a mera advertência verbal, cujo teor poderia nem vir a público.
  • Nem isso Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira topou.
  • O comandante do Exército está apegado ao cargo a esse ponto.

Já há um conjunto de versões tentando aliviar o lado dos fardados. Oficiais procuram repórteres para dizer que,

  • dentro o Alto Comando do Exército, houve quem discordasse de Paulo Sérgio.
  • Que, no generalato, a “maioria” já havia se declarado a favor da punição…

Ao mesmo tempo, tentam vender a versão de que

qualquer decisão geraria problemas e que uma eventual a punição a Pazuello representaria por tabela uma reprimenda ao presidente, por causa da presença de Bolsonaro no mesmo palanque”.

“Tudo balela”, resume a jornalista Malu Gaspar.

“Agora, não vai faltar quem se apresse a enviar à imprensa recados na direção contrária.

  • Vão dizer que Bolsonaro é, em última instância, o comandante máximo das Forças Armadas.
  • Dirão ainda que, se ele decidisse revogar a decisão de Paulo Sérgio, o prejuízo à imagem do Exército seria ainda maior”,

continua, lembrando que o Exército já desafiou a autoridade de outros presidentes quando achou conveniente.

  • “Quando Dilma Rousseff exigiu uma punição para o então general Hamilton Mourão, que em 2015 convocou militares para um ‘despertar patriótico’ e para a mudança do status quo,
  • o comandante, general Villas Boas, negociou uma espécie de punição branca ]
  • e transferiu Mourão de um comando militar para um setor burocrático, sem tropas”.

A palavra que mais se lê no noticiário desde ontem é “pressionado”. Como se Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira tivesse se visto num beco sem saída.

  • É claro que houve pressão, e que ela culminou na nomeação de Eduardo Pazuello para um cargo no Palácio do Planalto na segunda-feira.
  • Mas o episódio, caracterizado pelo historiador Carlos Fico como “uma posição inédita de submissão”,
  • parece provar definitivamente que há um sólido consórcio de interesses unindo o presidente e os militares.

Da mesma forma que Bolsonaro não quer deixar a cadeira em 2022, os fardados não abrem mão dos cargos e vantagens.

  • “Jair Bolsonaro seduziu as Forças Armadas com três moedas: prestígio, poder e dinheiro.
  • Em troca, exigiu uma só: a submissão completa ao seu projeto político.
  • O capitão subiu a rampa com sete ministros militares. O loteamento se espalhou pelos escalões inferiores da máquina pública. Mais de seis mil fardados se penduraram em cargos civis.
  • Quem não ganhou emprego embolsou vantagens no contracheque. Os integrantes das Forças Armadas foram poupados da reforma da Previdência. Além de manter privilégios, arrancaram novos penduricalhos.
  • No mês passado, uma canetada autorizou militares da reserva a furar o teto constitucional. Alguns generais passarão a receber supersalários acima dos R$ 60 mil por mês”,

lista Bernardo Mello Franco.

A corrupção da coisa pública atinge níveis inauditos.

  • Ao mesmo tempo em que o Ministério da Defesa responde ao ministro Luís Roberto Barroso que não tem dinheiro para salvar os Yanomami e Munduruku de violentos ataques de invasores aos seus territórios, a pasta desenha dois programas de pesquisa – Propex-Defesa e Pró-Estratégia – em que o pesquisador militar ligado às Forças Armadas será enviado ao exterior ao custo de US$ 300 mil por ano.

Sabe quanto custa a bolsa oferecida por Capes ou CNPq aos civis? Um décimo disso: US$ 30 mil dólares, mostrou a Piauí.

A distinção entre civis e miliares, contudo, se apaga – quando em benefício dos últimos.

  • Além dos cargos civis que ocupam, e do assalto aos cofres públicos,
  • se depender do comandante do Exército os fardados da ativa poderão participar de manifestações políticas e até subir em palanques.
  • Armados, quem sabe onde vão parar para defender suas preferências e privilégios?

“Pazuello sai incólume 

pergunta Igor Gielow.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, que não devem demorar:

  • há manifestação pelo impeachment de Jair Bolsonaro marcada para o dia 19 de junho,
  • e outras podem acontecer antes, no dia 13 durante a abertura da Copa América.

 

 

 

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