Primeiros Encontros

A IDENTIDADE DO PADRE CASADO CONFORME A PERSPECTIVA DOS QUATRO PRIMEIROS ENCONTROS EM ÂMBITO NACIONAL

“Queria, em primeiro lugar, agradecer o fato de vocês se encontrarem entre si… Vocês que conhecem a Igreja, também sua organização, a partir do seu íntimo, vocês poderiamfazer muito paraque ela continuasse unida ao povo.”
(Cardeal Arns – Relatório do III Encontro – p. 17)

I – INTRODUÇÃO

As pessoas que estiveram presentes nos primeiros momentos da MPC (Movimento dos Padres casados do Brasil) sonhavam com o modelo de Igreja-Povo de Deus … que caminha, que liberta… que tem estruturas ministeriais e que serve na fraternidade.

Os padres casados, engajados nos mvimentos religiosos populares e políticos, são membros da povo vivendo e celebrando a vida: “Não peço que os tires do mundo, mas que os preserves do mal.” (Jo 17,15)

II – HISTÓRICO DA ORIGEM DA ORGANIZAÇÃO NACIONAL DO MPC

A) ANTES DE 1977: GRUPOS LOCAIS E DESARTICULADOS

Relatos verbais nos informaram, nos primeiros encontros, que padres casados se reuniam em pontos diversos do país e com objetivos variados antes de 1977. Os camilianos, em S. Paulo, por exemplo, até cogitaram a criação de uma cooperativa de crédito ou de uma empresa comunitária. Lemos à página 19 da ‘Revista do Congresso Internacional de Padres Católicos Casados’ de 1996 que o “Christiamor” então grupo de Brasilia, já em 1977 se reunia para debater problemas comuns e pessoais. Mas até esta época não se tem documentação de nenhuma ação prática no sentido de estruturar uma organização em âmbito nacional com objetivos claros e precisamente determinados que pudessem identitïcar o movimento de podres casados em todo o o país. Desses grupos, a notícia que ficou é que houve encontros para congraçamento, encontros sociais, culturais e litúrgicos. Caracterizaram-se, portanto, por serem grupos localizados.

B) EM 1977: D. MARCELO CARVALHEIRA

D. Marcelo Carvalheira e alguns padres constataram que muitos haviam se afastado das atividades eclesiais por causa da visão da lgreja Oficial que os margina1izava. Mas mantinham vivos seu compromisso e sua adesão a Jesus Cristo e, em decorrência disto , mudavam seu modus vivendi, ,assumiam a vida do povo e, vivendo com ele, se desvinculavam da estrutura da Igreja Ofïcial e dela se despreocupavam. Esta condição facilita a aproximação com o povo dentro da própria Igreja.

Os participantes deste grupo, entre os quais Ricardo Parisi e sua esposa Leonor, de S. Paulo, iniciaram uma série de contatos pessoais, visando nuclear e reunir padres casados de várias regiões do Brasil, comprometidos com a esperança de uma Igreja que caminha com o povo para a construção de uma sociedade justa, livre, solidária e fraterna.

C) I979: PRIMEIRO ENCONTRO NACIONAL EM NOVA IGUAÇU – 28 e 29/07

Com o apoio do Pe. Agostinho Preto, Coordenador da Ação Católica Operária (ACO), realizou-se o Primeiro Encotro Nacional de Padres Casados do Brasil, que enfatizou o compromisso com o povo e o engajamento político. Analisou as dificuldades encontradas pelos padres casadose frente à estrutura eclesiástica e a vida profissional. Identificou a atuação do padre casado como PROVOCADORA DA SOCIEDADE E DA IGREJA. Esta provocação existe em decorrência:

1 – do compromisso com os oprimidos e da qualidade dos trabalhos desenvolvidos;
2- do desconforto das estruturas eclesiásticas que não querem mobilidade social;
3 – da reação positiva do povo em aprovação ao padre que se junta a ele para um trabalho de evangelização libertadora e de transformação social;
4 – da reação positiva do povo ao descobrir que se desfaz o tabu do distanciamento do padre em re1ação ao cotidiano de sua vida concreta.

O número de participantes deste encontro, foi de oito casais e dois padres da ativa.

Para organizar o encontro de 1980, também em Nova Iguaçu – RJ, foi constituida uma EQUIPE PONTE.

– Pelo Rio deJaneiro, ficou o Pe. Agostinho Preto
– Por Goiás: Valdir
– Pela Bahia: Ernesto e Rogeria.
– Por Minas Gerais: Adriano (padre operário da Fiat)
– Por S. Paulo: Raimundo.

O Relatório ficou sob a responsabilidade de Leonor e de René, de S. Paulo.

D) EM I980: SEGUNDO ENCONTRO EM NOVA IGUAÇU – RJ

Este encontro foi realizado na semana santa de 1980 e dele não temos relatório. Porém estivemos presentes, junto, mais de 25 pessoas de vários estados brasileiros.

Conforme o número um do Boletim do MPC, de novembro de 1981, “foi discutida a problemática da fé e do engajamento cristão do padre casado e de sua esposa; sua marginaIização na Igreja, inc!usive em re1ação a este engajamento; o sentido do sacerdócio hoje, numa Igreja que opta pela libertção do povo oprimido.” Foi definido que o encontro de 1981 se realizaria em S. Paulo, ficando responsáveis pela organização alguns casais participantes. Em S. Paulo, aconteceram várias reuniões preparatórias e a Equipe Responsável pela preparação, coordenação e realização do III Encontro, ficou composta por:

– Ricardo Parisi e Leonor
– Felisbino Chaves e Léia
– Francisco de Assis Resende e Rosa Maria Dôgo de Resende

E) 1981 – III ENCONTRO NACIONAL EM SÃO PAULO

Nos dias 1, 2 e 3 de março de 1981, reuniram-se em S. Paulo, padres casados, suas esposas e filhos, vindos dos seguintes Estados:
Acre, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, S. Paulo, Território do Amapá. O local de reunião foi o Instituto Paulo VI, gentilmente cedido pelo Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, Arcebispo deS, Paulo, que também se fez presente.

Participaram 65 pessoas e refletimos sobre a situação do padre casado e da sua família, dentro da Sociedade e dentro de Igreja, seu compromisso com o povo e seu engajamento no trabalho de conscientização e libertação como exigência da fé.

Traçamos alguns parâmetros para a organização do movimento. Este encontro teve o mérito de definir o TRÍPLICE OBJETIVO DO MPC:

1. Acolhimento e mútuo apoio entre os Padres casado;
2. Diálogo com a hierarquia e pressão a favor de uma Igreja mais aberta;
3. Atuação nas comunidades cristãs e engajamento nas lutas do povo por justiça, liberdade e construção de uma sociedade mais humana” (cf. Boletim do MPC, n° 1).

Foi enfatizada a preocupação em se ter uma uma organização, sem cair na institucionalização exagerada. Ao contrário, ressaltou-se a prioridade que deve ser dada ao engajamento nas atividades junto ao povo que sofre.

O MPC não se deve preocupar com a aprovação ou reprovação da hierarquia. Por outro lado, deve procurar viver em paz com o clero da ativa. Deve procurar ser uma força positiva na caminhada do povo, incentivando-o a encontrar seu lugar na Igreja, no exercício dos ministérios e na organização de comunidades.

O MPC admite um pluralismo de opções de engajamento dentro da Igreja, sendo esta uma força viva para reunir o povo, uma retaguarda na luta pela libertação e uma instituição milenar comprometida com a solidariedade humana.

O Terceiro Encontro propôs uma organização do MPC com uma comissão coordenadora nacional e comissões regionais. Confirmou na coordenação nacional a comissão anterior, delegando ao grupo de S. Paulo a possibilidade de escolher mais dois casais. Para completar a comissão foi escolhido o casal Abel Abate e Neide. O próximo Encontro, foi marcado para o carnaval de 1982, em S. Paulo, sob a coordenação de:

– Ricardo Parisi e Leonor
– Felisbino Chaves e Leia
– Francisco de Assis Resende e Rosa Maria Dôgo de Resende
– Abel Abate e Neide Fátima Martins Abate

Foi atribuida à Comissão de Coordenação a escolha do tema, com a assessoria das Comissões Regionais. Em termos de caracterização dos componentes do grupo, constata-se uma pluralidade de opções pessoais em relação à Igreja, ao mundo e à vida familiar e profissional. Em comum existe o compromisso com a construção de um modelo de Igreja-Povo de Deus, que se coloca a serviço de uma sociedade solidária, justa e livre.

O MPC, organizado e atuando nacional e internacionalmente, é a demonstração da necessidade de reestruturação da Igreja oficial: queremos uma Igreja ministeriall, servidora do povo, que se contrapõe a uma Igreja em que o povoestá a serviço do clero.

F) 1982 – QUARTO ENCONTRO EM SÃO PAULO

Este Encontro contou com representantes de sete Estados brasileiros e treze cidades. Entre as personalidades presentes destacamos Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de SP, o historiador Riolando Azzi. Este discorreu sobre os modelos da Igreja e e teologias que vigoram no Brasil. As teologias se elaboram conforme os modelos. Elas apresentam a explicitação da consciência histórica da Igreja. Além da teologia foram abordados aspectos do direito canônico e dos vários ministérios nos diversos modelos históricos da Igreja:

a) no modelo de Igreja-Cristandade (1500-1759);
b) no modelo da Igreja Nacional (1759-1840);
c) no modelo da Reforma Católica (1840-1920);
d) no modelo da Restauração Católica (1920-1962).

Em relação aos ministérios, Riolando partiu da época da cristandade com os tipos de ministérios que incluiam, por exemplo, a pregação para converter os infiéis, o ministério dos soldados, que ajudavam nesta conversão, o ministério dos membros da Inquisição e do Santo Ofício. Passou depois pela Igreja do poder espiritual, com a eliminação dos ministérios dos leigos e a ampliação do ministério hierárquico; finalmente, na Igreja atual, a inclusão dos ministérios que estão sendo criados. Ministério, pois, é todo o serviço na Igreja e também os serviços em entidades do tipo Comissão dos Direitos Humanos, Pastoral da Terra e outros (relatório do IV Encontro, pag. 6-7).

Qual o nosso lugar nos novos ministérios? Nas reflexões grupais aparece ora conceito de ministério que pode muito bem identificar o padre casado: “Ministério é abrir caminho para os leigos trabalharem na igreja, daí uma razão para o MPC” (p.7, Relatório do IV Encontro Nacional). Ministério é assumir nossa condição de esperança e de sinal profético, não tanto para os leigos (que muitos já estão além disso), mas para grande parte dos membros da hierarquia eclesiástica (idem, p. 8).

Outro ponto importante no IV Encontro, foi a apresentação de profundas reflexões sobre o papel da mulher como esposa, como mãe e como sujeito no campo social. Foi feito um histórico detalhado da figura feminina na Bíblia, sobre o maniqueísmo e suas consequências em relação à mulher. Houve relatos de experiências de mulheres engajadas em diversos movimentos sociais, evidenciando as formas de conciliação desse perfil de vida com os deveres de esposas e mães.
Quanto às propostas para MPC, manteve-se os três objetivos. Ressaltamos a caraterística pluralista dos engajamentos nos movimentos sociais e nas comunidades cristãs.

Quanto à organização, recomendou-se a constituição de pequenas equipes locais, regionais e nacional. Propôs-se que o tema do V Encontro atinja mais a realidade, por exemplo: o questionamento sobre o celibato, a reintegração no ministério hierárquico.

Propôs-se também ampliar o Movimento, realizando outros Encontros Regionais preparatórios para o nacional.

Recomendou-se a tiragem de um Boletim nacional informativo do MPC.
Caracterizou-se o grupo como Movimento e não como Associação.

Manteve-se a antiga Coordenação nacional:

Felisbino Chaves e Leia
Francisco de Assis Resende e Rosa Maria Dôgo de Resende
Abel Abate e Neide Fatima Martis Abate
Ricardo Parisi e Leonor

G) CONCLUSÃO: IDENTIDADE DO PADRE CASADO

Depois de muitos anos de profundas reflexões e, sobretudo, de ações concretas, podemos afirmar que continuam válidos os três objetivos definidos no III ENCONTRO NACIONAL, no Instituto Palo VI, em S. Paulo, em 1981 e várias vezes reiterados em Encontros Nacionais subsequentes:

1) Apoio mútuo e acolhimento entre os padres casados e suas famílias;
2) Diálogo com a hierarquia com vistas à construção de urna igreja mais aberta;
3) Atuação nas comunidades cristãs e engajamento nas lutas do povo por justiça e liberdade e pela construção de uma sociedade mais humana.

Estes objetivos, quando postos em prática, dão à vida dos padres casados e de suas famílias forma e movimento em direção ao “Vede como eles se amam”. Unidos e atuando no MPC, os padres casados são um sinal profético para a Igreja oficial. Inseridos nos movimentos populares e nas pastorais da Igreja, os membros do MPC sinalizam para urna Igreja Serva do Povo. Mantêm o compromisso com Cristo, sem estarem vinculados à estrutura da Igreia Oficial. Eles podem ajudá-la a dar passos na sua aproximação como povo. O MPC admite um pluralismo de opções de engajamento de seus membros dentro da Igreja, dos movimentos religiosos, sociais políticos e culturais, porém sempre mantendo a fidelidade a Jesus presente nos excluídos. Não deseja um retorno saudosista à situação anterior, mas procura ser uma força a serviço do povo, caminhando com ele.

O MPC pode se identificar com a “Voz que clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor… produzi, pois, frutos,dignos de arrependimento e não comeceis a dizer a vós mesmos: temos Abraão por Pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3,4 e 8).

FONTES:

1) Relatórios do Primeiro, Terceiro e Quarto Encontros Nacionais
2) Primeiro Boletim do MPC
3) Revista de Congresso Internacional de Padres Católicos Casados, Brasília, 1996
4) Manifesto Pelos Objetivos Originais do MPC – São Paulo, Belo Horizonte e Juiz de Fora, 1988

Assinam:

– Francisco Resende e Rosa Maria Dôgo de Resende
– Felisbino e Leia Chaves
– Abel e Neide Fátima Martins Abate
– Mauro e Regina Queiroz

S. Paulo, Janeiro de 1998.

* Documento digitalizado por João Tavares (São Luís – Maranhão)