Primeiro Encontro

RELATÓRIO SOBRE O PRIMEIRO ENCONTRO DE PADRES CASADOS
(Realizado em Nova Iguaçu nos dias 28 29 de julho de 1979)

I – Histórico do Encontro

Há dois anos atrás, já houvera uma conversa inicial com Dom Marcelo Carvalheira sobre este assunto.

“Muitos padres se afastaram da Igreja por causa de uma certa visão da Igreja Oficial que os marginaliza. Mas estas pessoas não se afastaram de um compromisso com o povo. O fundamental não é estar dentro da Igreja oficial, mas é viver a escolha sem se preocupar muito com a estrutura. Por outro lado o padre casado ainda pode fazer algo a esta igreja oficial: ele pode colocar a sua luta junto do povo junto desta Igreja oficial. Neste tempo todo casais se dispersaram. Alguns bispos que tentaram superar aquelas leis proibitórias ficaram marginalizados. Através da troca de ideias durante estes dois anos, nasceu este primeiro encontro com o objetivo de:

– Confrontar as experiências;
– Prestar serviços à Igreja do Brasil;
– Ajudar a igreja Oficial a dar uns passos a mais.

PS. Há 4 anos houve uma pesquisa ampla que foi respondida positivamente. Depois a coisa parou, mas não desapareceu. Ficou um tanto nebulosa. Mas, por fim, existe sempre um pequeno grupo que provoca de baixo para cima. Há abertura para o assunto apesar de ter ainda pouca proposta.

II – Roteiro seguido para o Encontro:

Grupo de S. Paulo havia mandado uma sugestão de pauta para o encontro e a mesma foi aceita como roteiro:

1. Colocação de cada um:

– Compromisso com o povo
– Engajamento político

2. Dificuldades

– Com a igreja estrutura
– Em nível profissional

Complementando o roteiro o grupo presente achou bom frisar o seguinte:

– ter como base o compromisso com o povo, o engajamento. Encontrar-se em cima de uma prática. Refletir politicamente a nossa situação, pois senão, a gente se perde.

III – Apresentação do grupo:

1. Francisco e Ana Rosa:

Moram em um bairro da periferia de São Paulo – S. Mateus. Franco exerce a função de padre. Franco e Rosa atuam nos trabalhos socias da comunidade, nas diversas áreas: saúde, loteamentos clandestinos, organizações de favelados, movimento contra a carestia, etc. Não se casaram ainda. Franco faz curso de torneiro mecânico, pretende pois atuar mais diretamente na pastoral operária; Ana Rosa estuda serviço Social.

Aceitação: Não está sendo muito difícil por parte do povo; só houve um susto inicial, mas o povo acha boa sua decisão. Um pequeno grupo, no entanto, tentou dificultar sua saída, mas não teve influência junto do povo. O bispo apoiou teoricamente.

2. Raimundo e Terezinha:

Casados há um ano e meio, moram em S. Paulo, Vila Arapuã, um bairro da periferia. Raimundo participa mais diretamente da pastoral oprerária em São Paulo e Santo André e também da oposiosição metalúrgica em SP.Terezinha participa dos trabalhos da comanidade no campo de loteamentos, esgotos, problemas gerais do bairro.

Aceitação: Sentem uma marginalização por parte da Igreja Estrutura. Concretamente o bispo pediu que Raimundo deixasse a coordenação; Entre os padres da região também não havia grande aceitação e apoio. Também Terezinha foi convidada a deixar a comunidade onde ele vinha e vem participando.

Subsistência: Raimundo está desempregado, atualmente; Terezinha trabalha na Febem. Raimundo pensa mudar de emprego, pois antes era inspetor de segurança e agora está se preparando para ser eletricista.

3. Renê e Lúcia

Moram em Andradina, SP, casados há um ano e meio.Trabalham os dois, integralmente, com as comunidades urbanas e rurais. São remunerados para este trabalho. Antes do casamento dos dois, outros dois padres da cidade já haviam se casado e também continuam o trabalho pastoral.

Renê e Lúcia trabalham atualmernte na pastoral rural, particularmente no conflito de terra da Fazenda Primavera com 300 famílias, tentando a organização de posseiros e a classe de lavradores na região toda. Participam da Comissão de Justiça e Paz

Aceitação: A diocese, no geral, não faz obstáculos, discutiu o problema, assumiu os padres casados. O povo, também. Houve barreiras a partir de outras dioceses, de alguns padres, mas esta barreira é mais pela linha pastoral de cunho libertador assumida por estes padres casados

4. Ricardo e Leonor:

Moram em bairro de periferia de São Paulo. Ricardo deixou de exercer o ministério e está à procura de um trabalho como eletricista. Está encontrando dificuldades pelas greves ocorridas em SP, muito desemprego. Quanto aos trabalhos com o povo, Ricardo atuava em três bairros e agora continua acompanhando as atividades de um dos bairros;

Leonor trabalha fora para subsistência e acompanha os trabalhos em uma comunidade onde mora. Assume trabalhos de reivindicações, denúncias, educação.

Aceitação: O povo está aceitando bem sua saída, acha inclusive, numa das comunidades, que ele deve continuar mesmo na comunidade. Em outra comunidade onde Leonor trabalha, o padre atual não a procura para trabalhos; o bispo da região acha que ele deve sair do bairro. Para os dois, o grande problema é que, na região, as outras paróquias não assumem este ti­po de trabalho mais comprometido com os oprimidos e por isto ficam marginalizados; os padres da região mantiveram-se alheios à saída de Ricardo: nenhum apoio nem diálogo, ao contrário, discutiram sem sua presença. Leonor fez alguns questionamentos para serem debatidos pelo grupo:

– Será que a Igreja não está dando um passo atrás? Como está sendo a luta política da Igreja junto ao povo?

5. Dario e Terezinha

Moram em Goiás, casados há três anos. Trabalham com lavradores, na área de educação, saúde, organização, etc. Dario contou que sua opção foi todo um processo, por etapas; primeiro descobriu que vivemos numa sociedade de classes e que sua opção era pelos oprimidos; sentiu então a necessidade de ir largando a classe mais poderosa e ficar com os oprimidos; depois veio o questionamento quanto à sua fé. Então viu que o casamento para ele daria um maior compromisso político com o povo, casal aproxima mais do povo.

Aceitação: A diocese apoia totalmente os dois, recebem remuneração dela, são empregados de carteira assinada.

6. Adriano:

Mora em Belo Horizonte, trabalha na FIAT como eletricista. Ninguém sabe que ele é padre. Desligou-se das estruturas da igreja porque acha que trabalhar na igreja é trabalhar em cima do povo. A igreja atinge no máximo uns 10%; a igreja de Belo Horizonte é capitalista. Com a igreja se faz pouco caminho na luta de classes. Escolheu trabalhar na FIAT e acha mais viável trabalhar nos sindicatos das multinacionais e não nos sindicatos meramente nacionais. Ele mora em uma favela, tabalha na ACO e vê o celibato como o casamento com uma classe.

7. Lourenço e Vanice:

Moram em Nova Iguaçu. Lourenço trabalha como apontador em construção civil e Vanice trabalha fora também. Lourenço participa da pastoral operária no Rio e de reunióes com operários; Vanice participa de grupo de compras em comum.

Aceitação: Houve problemas com o bispo, teve de sair do Rio. Não acham tão importante trabalhar com a igreja, pois muitas vezes ela atra­palha muito. A dificuldade maior é o encontrar-se isolado no trabalho.

8. Rogério e Valdira:
Moram em Salvador, casados. Ele trabalha como advogado de causas operárias, ela como dentista. Lutam para dinamizar as lideranças operárias em vista de partidos operários.

Aceitação: Na época de sua opção a igreja estrutura não apoiou em nada; atualmente não querem mesmo ligação com a igreja, pois acham-na hipócrita; os colegas de ministério, no geral, acham-nos pouco autênticos. Sentem que a Igreja Hierárquica vê o padre que casa como um traidor.

Rogério vê esperanças neste grupo que está se reunindo, acha que ele deve ser um grupo de oposição, de contestação à hierarquia.

9. Aristóteles e Narina:

Moram em Salvador, casados há 9 anos. Ele trabalha como motorista de táxi, ela como professora; Aristóteles estuda para obter outra uma profissão, pois foram grandes as dificuldades quando deixou o ministério: não conseguia emprego e os padres de sua congregação força­vam-no a sair. Sentem necessidale de trabalhar mais junto com o povo, em Comunidades de Base. Sentem que este grupo pode ajudar muito a não se sentir sozinhos.

10. Marcelo e Sílvia:

Mora em juiz de Fora, casado há bastante tempo, trabalha em firmas de construção civil e dá aulas de literatura francesa. Sílvia cuida dos filhos e o dois trabalham com ACO e RI. Sentem-se isolados no trabalho.

Aceitação: Houve muitas barreiras por parte da Igreja estrutura. Era corrdenador de pastoral, mas com o casamento, foi mandado embora. O bispo criou dificuldades para que Marcelo continuasse nos trabalhos que desenvolvia e, apesar de abaixo-assinado do povo, teve de deixar a comunidade.

Acha também que a marginalização é devida em grande parte ao trabalho em linha mais libertadora. Estão em fase de questionamento em vista de um trabalho mais comprometido com o povo oprimido.

11. Agostinho:

Mora em Nova Iguaçu e exerce o ministério. Tabalha na direção geral da ACO. Foi ele que proporcionou, em grande parte, este Encontro.

IV – Desenvolvimento do Encontro

Através das diversas apresentações, fomos percebendo as preocupações maiores dos participantes. Tentamos assim sintetizar e foram estas as questões que delinearam todo o encontro. Quanto aos nosso objetivos para este encontro:

1. A igreja como está agora, ela é de fato, um instrumento para a luta de classe?
2. O serviço ao povo mais oprimido, ou a opção que estamos fazendo, exige que a gente fique na igreja e a utilize como instrumento, ou saia dela?
3. Como deve e pode ser nosso relacionamento com a igreja estrutura, no nosso sacerdócio, enquanto serviço ao povo mais oprimido?
4. Como conciliar o trabalho profissional e pastoral?
5. Até que ponto a escolha de uma profissão é testemunho de serviço junto do povo?
6. Como, trabalhando em sindicatos, partidos, pode-se pensar em um novo tipo de igreja?
7. Até que ponto o casamento nos leva a um compromisso com a libertação nossa e do povo?

Fazendo uma seleção destas questões, escolhemos a seguinte:

I – Como nós, padres casados, engajados nos movimentos operários urbanos, no meio rural, nos partidos, podemos ser ou estamos sendo provocadores nesta sociedade e nesta igreja? Partir dos depoimentos. Ver o tipo de provocação. Consequências desta opção. Propostas concretas para o grupo.

Ideias levantadas a partir do debate

Uma provocação sempre existe, mas esta provocação é mais decorrência da opção, do compromisso de nosso trabalho junto dos oprimidos, do que do fato de casar se casar:

– Um padre casado provoca as estruturas da igreja, pois ela não quer mudar suas estruturas, principalmente se este padre desenvolve um trabalho mais consequente junto dos oprimidos. Vem em consequência a marginalização e o desprezo.
– A igreja que reage assim é aquela que se coloca do lado do opressor.
– A vida de um padre casado pode provocar uma reação positiva junto do pessoal porque aproxima mais. De um modo geral, o padre casado valoriza mais o trabalho social de promoção junto do povo: a convivência com um padre casado ajuda ainda o povo, acaba aquele tabu.
– Abre-se um campo novo de participação: grupo de casais, etc.

Desta conversa ficaram alguns questionamentos

1. Será que temos mesmos, em nosso trabalhos, uma opção pelos oprimidos?
2. Qual a qualidade dos trabalhou que estamos desenvolvendo?
3. Nosso estilo de vida está mesmo sendo um questionamento?

A partir deste aprofundamento, passamos a concretizar um pouco sobre a continuidade do objetivo e a especificidade destes Encontros.

II – Qual a função deste nosso grupo e nossa função em particular, como padre casado junto do povo e da igreja? Estes Encontros devem continuar? Qual a sua especificidade? A que objetivos eles se propõem?

1. Nosso encontro não deve parar por aqui. Devemos continuar nos encontrando para podermos ser um apoio, uma entre-juda e também uma ajuda para os companheiros que saem;
2. Este grupo tem uma especificidade, que é a de ser padres casados que procuram desenvolver uma ação juntos dos oprimidos.
3. Este encontro deve ser uma força para nós nos aprofundarmos em nossa opção e em nossa ação.
4. Um dos nosso grandes objetivos é continuarmos nos reunindo para procurar definir melhor nossa prática política junto do povo. Sentimos que a igreja, de modo geral, caminha com o povo até certo ponto, depois ela não tem mais proposta. Sentimos a necessidade de mais segurança neste ponto.
5. Sentimos uma marginalização quanto aos padres casados, maior ou menor, dependendo da diocese, temos de conquistar espaço. E somos nós os interessados, isto vai depender de nós. Este espaço, este direito de atuação, só vamos conseguir pelo trabalho junto do povo. Daí a importância de um trabalho sério e coerente.
6. Este grupo pode ser ampliado, com convive a outros padres casados ou não, mas dentro de um trabalho junto do povo; convite a bispos mais compromissados com a luta de libertação; outras pessoas que tenham a mesma preocupação e que aceitem a iniciativa deste grupo.
7. É necessário que este grupo continue com encontros em suas bases, com outros casais e outras pessoas, aprofundando e preparando o encontro geral.
8. A provocação deste grupo não deve ser tanto pelas palavras ou por manifestos, mas sim pelo nosso trabalho, que deve ser sério, coerente e em favor dos oprimidos.

V – Conclusões Gerais do Encontro

– Nuclear elementos com as mesmas preocupações.
– Manter este encontro nacional.
– Cada local aqui representado terá uma pessoa como ligação entre os vários grupos.
– Tirar deste grupo uma comissão encarregada de preparar o próximo encontro nacional.
– O próximo encontro será para rever, analisar nossa atuação e tentar aprofundar um pouco qual a nossa prática política junto do povo.
– O próximo encontro nacional será na Semana Santa de 1980, no Rio

VI – Avaliação

– Foi importante o encontro, pelo ânimo que deu na gente.
– As experiências nos enriqueceram e abriram novas perspectivas.
– O encontro nos fez levantar com nossa prática. Sentimos que estamos construindo.
– Importante os riscos que cada um de nós está fazendo. Inspira a gente pra luta.
– Valeu também como questionamento frente a nosso compromisso diante do Evangelho e do povo.
– Deu-nos segurança.

VII – Tarefas e Responsabilidades

Ficou definido um grupo responsável pela ponte entre os vários grupos. Esta equipe é a seguinte:

– Agostinho, Rio. Valdir, Goiás. Ernesto e Rogério, Bahia. Adriano, Minas Gerais. Raimundo, SP.
– A coordenação do próximo encontro ficou a cargo do mesmo grupo de ponte.
– Ficou como sugestão de nos utilizarmos do Centro Ecumênico de Informação e Documentação, pois eles possuem uma infra-estrutura que poderá ajudar bastante.

Equipe responsável pelo relatório: Leonor e René, de São Paulo