Documento enviado pelos padres casados do Ceará ao João Paulo II, por ocasião de sua presença em Fortaleza, em 1980, durante o X Congresso Eucarístico Nacional, que tinha como tema “os migrantes”.
O MPC do Ceará nasceu na redação deste documento. Após a sua confecção padres casados de Fortaleza passaram a se reunir mensalmente. Da expressão “a nossa situação constitui um sinal profético dentro da Igreja”, surgiu o nome do boletim “SINAL”.
AO PAPA JOÃO PAULO II
1. Quem somos
… E Abraão emigrou. Deixou a sua terra em nome do seu Deus. Na outra terra onde irá habitar, na nova situação em que desenvolverá uma vida diferente, ele cultivará a presença do mesmo Deus que o inspirou, acompanhou e com ele ficou. Surgirá um novo homem, mas este novo homem será o mesmo Abraão. Com os dois, Deus permanecerá.
Também nós, padres casados, migramos. Deixamos uma terra e o fizemos em nome do nosso Deus. Na outra terra onde vimos habitar, na nova situação em que agora desenvolvemos outra vida, cultivamos a presença do mesmo Deus, na convicção de que Ele nos inspira, nos acompanha e continua conosco. Somos outros e, no entanto, como Abraão, continuamos os mesmos. Nos dois estados, padres celibatários ontem, padres casados hoje, Deus permanece.
É precisamente esta diferença e esta permanência, o outro e o mesmo, tão bem integradas em Abraão, que sentimos conciliarem-se em nós. Há oposição, mas não há incoerência. As contradições se entrelaçam e se estabelecem numa síntese superior, assumidas e superadas.
Escolhemos caminhos diferentes. Exercemos as mais variadas profissões. Muita coisa porém nos aproxima: uma mesma formação nos tornou solidários na maneira de enfrentar os problemas; a ordenação sacerdotal criou em nós laços indestrutíveis; a idêntica posição que tomamos diante do sacramento do Matrimônio criou solidariedade entre nós, na luta da vida cotidiana.
Formamos, dentro da Igreja, um grupo não mais clerical e também não unicamente leigo. Isto nos dá uma nova visão de Igreja. Nossa formação teológica é idêntica à dos padres celibatários. Possuímos a mesma vivência e experiência pastoral. Participamos na reflexão e ação de novas formas de viver a fé em comunidades paroquiais e em comunidades de base.
A essa riqueza acumulada, acrescentamos, agora, novos valores, oriundos de nossa nova vocação. A experiência concreta da vida matrimonial e a diversidade de cargos em vários setores da sociedade nos dão conhecimentos vivenciados e nova compreensão dos problemas do Povo de Deus, abrindo novos caminhos para uma maior penetração do fermento cristão.
2. Nossa colaboração
Considerando tudo isso, resolvemos fazer ouvir a nossa voz neste X Congresso Eucarístico Nacional, em nossa querida cidade de Fortaleza, na convicção profunda e franca de que a nossa situação constitui um sinal profético dentro da Igreja.
Como tantos outros, também ouvimos as perguntas do Congresso: “para onde vais?”, “como vais?”, “com quem vais?”. Fomos receptivos e vimos dar a nossa resposta.
Vamos livremente atendendo a antigos acenos feitos por nossos bispos reunidos em Medellín, quando exortaram aos padres casados que “dêem testemunho do Reino para o qual foram consagrados” (Medellín, II, 30). Os mesmos bispos, recentemente expressaram o desejo de que possamos “colaborar no serviço da Igreja” Puebla, 710), repetindo os Padres Sinodais que apelaram “aos que nos deixaram, ordenados para o Reino de Deus, a continuarem no trabalho apostólico”. (Sacerdócio Ministerial, II, 4, 1971).
Quando decidimos migrar, não foi por cansaço ou desprezo. Foi para sermos fiéis à voz de Deus que nos chamou a uma nova missão. Nós somos Abraão. Fomos interpelados, pusemo-nos a caminho e, agora, respondemos: “Estamos indo para onde o Senhor nos mandou”!
Num espírito filial de escuta e ajuda, assim como fomos interpelados, também perguntamos: “Para onde vais, Pedro?”
Em suas viagens de apóstolo incansável, O Santo Padre entusiasticamente desperta em muitos a fé , anima multidões com a palavra do Evangelho. Mas, encerradas as visitas, muitos cristãos ficam amargurados, pois não foram ouvidos no que lhe é mais íntimo e divino: a consciência.
Homens e mulheres, da Europa, da América, da África e agora do Brasil, consagrados ou não, casados ou não, querem dedicar-se à Igreja com o amor autêntico de João e o fervor apostólico de Paulo, mas os pastores julgam não necessitar de seu serviço. E isso quando grande parte do rebanho vagueia pelo deserto, sem pastor…
Homens e mulheres, entusiasmados pela mensagem do Evangelho, procuram novos caminhos para exprimir a milenar fé no Senhor, e são bloqueados por censuras, sem que muitas vezes sejam respeitados os proclamados direitos fundamentais da pessoa humana.
Homens e mulheres, desejando viver plenamente esta mesma fé e confiança no Senhor, são abandonados numa escura noite, porque a hierarquia lhes fecha a porta, não lhes reconhecendo o direito de procurar soluções adequadas para dificuldades de nossa época.
No mesmo espírito filial, mas convencidos do valor do serviço que prestamos ousamos levar nossa sugestão: que Paulo faça como João, ouvindo, no peito dos irmãos, aos quais serve, o coração que procura, interroga e suplica!
O mundo já não se contenta com soluções sumariamente impostas em nome da “Lei de Deus”, quando esta lei não se manifesta claramente na história.
Que sejam ouvidos os anseios dos colegiados episcopais, dos presbitérios, dos conselhos pastorais, que mais proféticos seriam se seus membros pudessem viver e falar sem medo e sem máscara. Quem tem a coragem de abrir seu coração e falar abertamente o que pensa? As portas para uma autêntica e madura discussão frequentemente são fechadas com argumentos autoritários e, lamentavelmente, muitas vezes com condenações. Cria-se, destarte, uma situação de conflito em muitas pessoas: agem de uma maneira e pensam de outra, ou, então, arriscam-se a agir como pensam, mesmo sabendo que não têm respaldo de seus superiores, embora o tenham do Povo de Deus.
E a Igreja se desacredita, pois quando se extingue o eco dos “hosana” e dos “viva” das multidões famintas, estas se voltam para o dia-a-dia onde continuam a encontrar a injustiça em seu próprio povo e em sua própria igreja.
Nesta igreja, migrantes, todos nós caminhamos na mesma fé, rumo à mesma Pátria!
Padres casados de Fortaleza, 1980.

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