Francisco e o pós-pandemia. 2

Papa Francisco e papa emérito Bento XVI recebem vacina contra covid-19 | Exame

Anselmo Borges, 3 março 20221 – Foto: Daqui

Continuo com o discurso de Francisco ao Corpo Diplomático, com perspectivas para o mundo pós-pandemia, a partir das crises causadas ou postas a nu pela pandemia.

 

2 . 3. Crise migratória.

A crise provocará um aumento dramático de migrantes e refugiados.

Desde a Segunda Guerra Mundial que o mundo não tinha ainda assistido a

“um aumento tão dramático do número de refugiados. Por isso, torna-se cada vez mais urgente “erradicar as causas que obrigam a emigrar”,

  • como também se exige um esforço comum para apoiar os países de primeiro acolhimento,
  • que se encarregam da obrigação moral de salvar vidas humanas.

Neste contexto, Francisco espera com interesse

  • “a negociação do Novo Pacto da União Europeia sobre a migração e o asilo”,
  • observando que “políticas e mecanismos concretos não funcionarão sem o apoio da vontade política necessária e do compromisso de todas as partes,
  • incluindo a sociedade civil e os próprios migrantes.”

 

2 . 4. Crise política.

Para Francisco, todos estes temas críticos

“põem em relevo uma crise muito mais profunda, que de algum modo está na raiz das outras e cujo dramatismo veio à luz precisamente com a pandemia.”

É a crise política,

  • que desde há uns tempos mina de modo violento muitas sociedades
  • e “cujos efeitos devastadores emergiram durante a pandemia”.

Aumentam os conflitos políticos e a dificuldade, se não a incapacidade, para

“encontrar soluções comuns e partilhadas para os problemas que afligem o nosso planeta”.

Manter viva a democracia é, portanto, um gigantesco desafio neste momento histórico.

“A democracia baseia-se

  • no respeito recíproco, em que todos possam contribuir para o bem da sociedade,
  • e em considerar que opiniões diferentes não só não ameaçam o poder e a segurança dos Estados,
  • como, pelo contrário, num confronto honesto, se enriquecem mutuamente e permitem encontrar soluções mais adeqaudas para os problemas que é preciso enfrentar.”

Infelizmente,

“a crise da política e dos valores democráticos afecta também a nível internacional, com repercussões em todo o sistema multilateral.”

É o momento de levar adiante reformas, para que as organizações internacionais recuperem a sua vocação essencial de servir a família humana, preservar a vida de todas as pessoas e a paz.

“Todo o corpo vivo precisa de reformar-se continuamente e, nesta perspectiva, estão também as reformas que implicam a Santa Sé e a Cúria Romana.”

Constata: “Há demasiadas armas no mundo”.

Por isso, é necessário intensificar o esforço no âmbito do desarmamento, contra a proliferação do armamento nuclear, que deve estender-se às armas químicas e às armas convencionais.  Um equilíbrio baseado no medo  apenas tende a minar a confiança entre os povos. Confessa: “Não posso esquecer outra grave praga do nosso tempo: o terrorismo”, com tantas vítimas entre pessoas inocentes e indefesas.

 

2 . 5. Crise das relações humanas.

Esta é talvez a mais grave:

  • “a crise das relações humanas, expressão de uma crise antropológica geral, que diz respeito à própria concepção da pessoa humana e à sua dignidade transcendente.”

Longos períodos de confinamento também permitiram mais tempo passado em família e redescobrir “as relações mais queridas”.

Não há dúvida de que

“o casamento e a família constituem um dos bens mais preciosos da Humanidade” e “o berço de toda a sociedade civil”.

Perante a dimensão mundial dos problemas, a família cumpre as novas incumbências que sobre ela recaem,

“em primeiro lugar oferecendo aos filhos um modelo de vida fundado sobre os valores da verdade, liberdade, justiça e amor”.

Também é um facto que

  • nem todos puderam viver com serenidade na própria casa
  • e muitas vezes as situações degeneraram em violência doméstica
  • e “sabemos que lamentavelmente são as mulheres que, amiúde com os seus filhos, pagam o preço mais alto”.

Aliás, a pandemia aprofunda as desigualdades sociais e as mulheres são as mais atingidas.

 

2 . 6. Catástrofe educativa.

A pandemia obrigou a longos meses de isolamento, e é preciso pensar nos estudantes que não puderam frequentar presencialmente a escola ou a universidade.

Até certo ponto

  • colmatou-se a situação através de plataformas educativas informatizadas,
  • mas isso contribuiu também para o aprofundamento das  desigualdades — não se pode esquecer que a escola é factor decisivo a favor da igualdade —,
  • e o aumento “da dependência das crianças e adolescentes da internet e das formas de comunicação virtual em geral, tornando-os ainda mais vulneráveis e sobre-expostos às actividades cibercriminais.”

2 . 7. A dimensão religiosa.

As exigências para conter a difusão da pandemia acabaram por limitar também várias liberdades fundamentais, incluída a liberdade de religião.

Ora, não podemos

  • “passar por alto que a dimensão religiosa constitui um aspecto fundamental da personalidade humana e da sociedade;
  • mesmo quando se está a procurar proteger vidas humanas da difusão do vírus,
  • a dimensão espiritual e moral da pessoa não se pode considerar como secundária relativamente à saúde física.”

Por outro lado,

  • “a liberdade de culto não constitui um corolário da liberdade de reunião, pois deriva essencialmente do direito à liberdade religiosa, que é o primeiro e fundamental direito humano.
  • Por isso, é necessário que seja respeitada, protegida e defendida pelas autoridades civis, como a saúde e a integridade física.
  • Aliás, um bom cuidado do corpo nunca pode prescindir do cuidado do espírito.”

Páscoa Feliz!

 

 

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/francisco-e-o-pos-pandemia-2-13528805.html

 

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