O cisma em câmera lenta da igreja alemã, entre o abuso e o espírito da época

 

 

Marco Grieco – 28 de fevereiro de 2021

Para os bispos alemães o primeiro postulado de Francisco “o todo é superior à parte” é tão válido quanto o segundo “o tempo é superior ao espaço”.

De fato, é em nome dos novos tempos, que a Igreja na Alemanha pede reformas e não parece recuar nem um passo, como aponta o documento do primeiro fórum do caminho sinodal, publicado no passado dia 22 de janeiro.

 

Os trabalhos preparatórios do Sínodo, que causaram preocupação no Vaticano, antecipam a assembleia plenária do próximo outono. No sínodo, a igreja alemã abordará quatro temas:

  • poder e divisão de poderes na igreja,
  • vida do padre hoje,
  • mulheres nos ministérios,
  • amor e sexualidade na vida de um casal.

“O caminho certamente não é uma passeio, mas nem também uma passarela onde o indivíduo mostra sua opinião sem querer mudá-la minimamente”,

assegurou Thomas Sternberg, presidente do comitê central dos católicos alemães.

No entanto, as exortações do Papa que, na Carta ao Povo de Deus na Alemanha, se apoiou no sensus Ecclesiae, foram percebidas como a meio caminho entre um incentivo e um abrandamento:

“Reconhecer os sinais dos tempos […] não é sinónimo de simplesmente adaptar-se ao espírito dos tempos e pronto”,

disse o pontífice.

Já cresceu o número dos críticos, que veem no documento publicado, colocado posteriormente em votação, alguns pontos polêmicos,

  • a partir de uma abordagem metódica que tende a envolver os leigos auf Augenhöhe (em pé de igualdade), pondo-os no mesmo nível,
  • o que não agradou até mesmo a alguns alemães, em primeiro lugar ao cardeal de Colônia, Rainer Woelki.

Uma fratura antiga

O clero alemão já admitiu o distanciamento com Roma,

  • acelerado pelas declarações do Papa Emérito Bento XVI
  • que, em 2019, falou com tons fortes à revista mensal Klerusblatt sobre um “colapso da teologia moral católica” desde os anos 1970.

Ao contrário, segundo os teólogos alemães, a culpa do papa emérito teria sido ver os abusos como consequência direta de uma moralidade enfraquecida pela liberação sexual.

Numa declaração conjunta,

  • teólogos morais alemães definiram a posição de Ratzinger
  • como “estranha ao mundo” e aos estudos das ciências humanas e sociais.

O distanciamento cada vez maior com a Santa Sé, porém, não termina numa troca de ditos mordazes. A Igreja alemã, com dioceses entre as mais ricas da Europa,

  • vê a sua crise com um sentimento de urgência,
  • que pouco combina com a abordagem lenta do Papa Francisco.
  • Isto foi claramente afirmado pelo presidente da Conferência Episcopal Alemã, mons. Georg Bätzing, à revista  Herder Korrespondenz:

«O Papa fala frequentemente deste tema jesuítico do discernimento dos espíritos, do qual se  teria maior necessidade. Mas qual é a instância que decide se este processo está maduro ou não?  Em algum momento é preciso decidir».

Com esta reflexão, os bispos desejam tomar decisões principalmente em nível local, conscientes das barreiras que Roma está erguendo.

  • No ano passado, por exemplo, a Congregação para a Doutrina da Fé manifestou reservas sobre o grupo de trabalho ecumênico criado na Alemanha.
  • Pouco antes, entre os próprios bispos e a Congregação do Vaticano para o Clero, tinham surgido descontentamentos a propósito da instrução às paróquias desejada por Roma:
  • reunida em Wuerburg, a Conferência Episcopal Alemã leu o documento como um fechamento em relação á função dos leigos, que na Alemanha, já é fundamental.

 

O terremoto dos abusos

Sem dúvida, o detonador que impulsionou o sínodo da Igreja alemã é o escândalo dos abusos, que mina a credibilidade da Igreja universal.

  • Causou espanto o caso que eclodiu na diocese de Speyer,
  • onde as freiras de Niederbronn teriam favorecido os abusos de menores pelo clero local a partir dos anos 1970.

Os detalhes revelados pelos atos processuais

  • são tão horríveis que o atual bispo de Speyer, Mons. Karl-Heinz Wiesemann, tirou um tempo para se recuperar:
  • contatado por e-mail, preferiu não responder.
  • “Eu também tenho energias limitadas pelos fardos que tenho de carregar”, disse ele à agência católica Kna.

O último escândalo refere-se ao falecido padre Werenfried van Straaten, criador da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre.

De acordo com o que foi revelado no suplemento Christ und Welt (Cristo e o Mundo) do semanário alemão Die Zeit,

  • a conduta do fundador era bem conhecida no tempo do Papa Bento XVI,
  • que a contrastou em silêncio.

É esta abordagem mafiosa, filha de outra sensibilidade da Igreja, que hoje os católicos alemães estão pedindo que seja mudada.

  • É neste sentido que se deve ler o pedido de renúncia do arcebispo de Colônia, cardeal Rainer Woelki,
  • culpado de não ter informado o Vaticano sobre as acusações de abusos por parte de um sacerdote.

“Deve ficar claro quem é o responsável e por quê […]. Isso é o que devemos esperar de nós mesmos e daqueles que nos precederam no ministério”,

respondeu Mons. Bätzing aos que tacham de intransigência a forma como são tratados os bispos considerados culpados.

O estudo MHG, encomendado pelo episcopado alemão, que revelou e analisou de forma analítica os abusos de ontem, mostra que o número de padres acusados de pedofilia é baixo e não difere muito dos casos que ocorrem fora do recinto eclesial.

No entanto, ele destaca os dois pontos essenciais da questão: imaturidade sexual e abuso de poder.

 

Clericalismo

Sobre o assunto, o empenho dos bispos alemães coincide com o do Papa Francisco.

  • A linha de Bergoglio encontrou gradualmente um reflexo também na semântica dos seus discursos
  • em que a palavra “clericalismo”, associada a abusos, passou a ser sinônimo de ‘mal’, ‘peste’, “perversão da igreja”.

O clero alemão dá um passo mais adiante e intercepta a raiz do clericalismo no passado.

È neste sentido que  deve ser lida a autocrítica iniciada pela Igreja alemã no ano passado por ocasião do 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial:

  • o que revelam as páginas negras do Terceiro Reich
  • senão uma fraqueza estrutural dos bispos da época em opor-se ao nazismo,
  • apesar da condenação do Papa Pio XI na encíclica Mit Brennender Sorge (Com ardente preocupação), de 1937?

A carta do episcopado alemão, publicada em abril passado,

  • condena de forma inequívoca aquela Igreja Católica
  • que “fez parte da sociedade de guerra”.

Além disso, esta reflexão chega no ano da morte de Johan Baptist Metz, o respeitável teólogo alemão que unia a paixão por Deus ao compromisso com a justiça.

Para Metz,

  • Auschwitz era o problema teológico por excelência,
  • porque ali a fé tinha-se separado do abuso de poder.

É esta igreja fraca institucionalmente, tanto ontem como hoje, que o clero alemão rejeita.

No documento do caminho sinodal, a acusação dos bispos é pesada:

  • “Sob uma referência mal entendida ao poder sacralizado,
  • a Igreja jogou aleatoriamente não só com o vínculo entre os inúmeros membros que foram embora,
  • mas também com a justificativa dos seus discursos sobre o sagrado e a salvação”.

 

Abertura a casais LGBT

Com o sínodo,

  • a igreja alemã também quer lançar luz sobre o que define “áreas cinzentas”, como as bênçãos das uniões LGBT,
  • e os bispos alemães levam em conta que isto também poderia significar mudar algumas passagens do catecismo, onde não se condena a pessoa homossexual em si, mas o ato.

O bispo de Aachen, Helmut Dieser, coordenador do fórum sobre parceria e sexualidade, expressou-se nestes termos:

“Devemos pedir ao papa que reconsidere as passagens correspondentes”,

afirmou.

  • Para parte da Igreja alemã, inclusive para os leigos,
  • acolher os LGBT “com respeito, compaixão e delicadeza” já não basta.

Trata-se de uma mudança importante, que recentemente envolveu toda a igreja transalpina.

  • Quando em 2019 o casamento igualitário entrou em vigor na Áustria, por exemplo,
  • o arcebispo de Viena, Chris Schönborn, manifestou o seu apreço.

Palavras de apoio às bênçãos para os casais LGBT também vieram do bispo de Osnabrück, Franz-Josef Bode:

“O silêncio e o tabu não te levam mais longe e fazem-te sentir inseguro”,

disse o prelado alemão, ao apontar a diferença entre as uniões civis e o sacramento do matrimônio.

O cardeal Reinhard Marx também é da mesma opinião, embora no Vaticano as suas posturas tenham levantado mais do que algumas perplexidades.

No entanto, o tema é tão decisivo que não falta quem, como o bispo de Limburg, Georg Bätzing, convide à prudência com medo de um cisma mais ou menos declarado.

 

Sozinhos como sacerdotes

Não foi abordado em detalhes, mas causará discussão, o quarto tema do fórum sinodal centrado na figura do sacerdote.

  • Como em toda a Europa, também a Igreja alemã assiste a um declínio acentuado das vocações
  • e os bispos estão se perguntando se hoje o papel do padre ainda é credível.

Uma radiografia de amplo espectro do fenômeno foi feita em 2019 pelo arcebispo de Milão, Mons. Mario Delpini, sobre o “preconceito

  • de que os católicos não tenham credibilidade,
  • de que tenham interesses que não declaram,
  • de que a proposta de vida da comunidade cristã mortifica o humano, ao invés de exaltá-lo, comprime a liberdade em vez de promovê-la”.

Em novembro de 2020, os bispos franceses apresentaram os resultados de uma pesquisa sobre a saúde psicofísica de mais de 6 mil padres diocesanos:

  • descobriu-se que 54 por cento vivem sozinhos,
  • 20 por cento apresentam sintomas de depressão
  • e em cada dois casos em cinco desenvolvem-se dependências do álcool.

Em geral, impressiona o fato de que 40% dos padres entrevistados se tenham declarado pouco ou nada realizados em sua vida.

Sobre este ponto,

  • os bispos alemães não manifestaram posições particularmente progressistas,
  • mas inseriram a questão em um debate mais amplo, levantando a questão do acesso das mulheres ao ministério
  • para amortecer tanto o excesso de poder quanto a pressão sobre os padres, cada vez mais em risco de síndrome de burn-out [esgotamento]:

«O celibato dos padres também deve estar na ordem do dia. Último, mas não menos importante, são necessários esclarecimentos para abrir o acesso das mulheres ao ministério ordenado na igreja”,

declara-se no documento sinodal.

Bastou apenas um primeiro encontro em Frankfurt

  • para trazer à tona uma diferença de pontos de vista entre a Igreja universal e as particulares:
  • seria útil perguntar-se se a sinodalidade invocada pelo centro não é um verdadeiro limite aos impulsos da periferia.

Isso foi demonstrado pelo desalinhamento entre as expectativas do clero na Amazôna e a posição oficial de Roma.

Neste clima, que exige urgentemente um sínodo da Igreja italiana, ver o que está acontecendo na Alemanha pode ser útil para entender o efeito dominó que pode desencadear nas igrejas de toda a Europa.

 

Un giovane di Pisticci nello staff giornalistico dell' Osservatore Romano - Radio Laser

Marco Grieco 

Fontes:  https://www.editorialedomani.it/fatti/lo-scisma-al-rallentatore-della-chiesa-tedesca-fra-abusi-e-spirito-del-tempo-holohwmr

http://ilsismografo.blogspot.com/2021/02/germania-lo-scisma-al-rallentatore.html

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