Depois do card. Robert Sarah. Implementar – não impedir – a participação ativa. Artigo de Andrea Grillo

Andrea Grillo – 22 Fevereiro 2021- Foto: Daqui
 “A esperança é que, para orientar um processo tão delicado de recepção da reforma litúrgica, seja posta em prática a melhor competência litúrgica possível, sem pensar que o bom senso de um homem institucional ou a sabedoria de um homem espiritual sejam suficiente para coordenar tal trabalho: as lógicas da liturgia não se deixam compreender apenas por sua forma externa ou por seu conteúdo de verdade. Portanto, uma competência específica, técnica, textual e ritual é inevitável”, escreve Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, em artigo publicado por Come Se Non, 21-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, isso parece “totalmente razoável, de uma vez por todas, seria uma maneira significativamente nova de honrar o Concílio Vaticano II e sua recepção esclarecida”.

 

Eis o artigo.

 

Na estrutura da Cúria Romana, a função da Congregação para o Culto Divino e a disciplina dos sacramentos assumiu, desde 1988, a figura de competência que encontramos na Constituição Apostólica Pastor Bonus (62-66). São muito importantes os três pontos que qualificam a atividade do Gabinete, conforme expresso no n. 64. Vamos acompanhá-los na íntegra:

Art. 64

§ 1. A Congregação promove com meios eficazes e adequados a ação pastoral litúrgica, de modo particular naquilo que se refere à celebração da Eucaristia; assiste os Bispos diocesanos, para que os fiéis participem cada vez mais ativamente na sagrada liturgia.

§ 2. Provê à compilação ou correção dos textos litúrgicos; revê e aprova os calendários particulares e os Próprios das Missas e dos Ofícios das Igrejas particulares, bem como dos Institutos que usufruem desse direito.

§ 3. Revê as traduções dos livros litúrgicos e as suas adaptações, preparadas legitimamente pelas Conferências Episcopais.

 

Como é evidente, a norma não deixa muitas dúvidas: a função central da Congregação consiste em coordenar, em nível central, o processo de realização da Reforma Litúrgica. Isso ocorre em três níveis:

  • no plano da “ação pastoral litúrgica”, claramente orientada para uma maior “participação ativa”;
  • no plano da redação de textos litúrgicos e calendários;
  • no plano das traduções e adaptações realizadas pelas Conferências Episcopais.

São precisamente estes três objetivos que têm determinado, nas últimas décadas, crescentes tensões entre a tarefa institucional e o seu desenvolvimento concreto.

Não apenas no caso do último Prefeito que renunciou, mas em uma longa série de antecessores,

  • a evidência das três tarefas que consideramos apareceu sob uma luz muito tênue,
  • quase superada por “deveres alternativos”, se não mesmo contraditórios.

Como não pensar que,

  • a partir do mesmo ano em que nasceu essa estrutura constitucional,
  • surgia, paralelamente, uma “competência alternativa” sobre a liturgia, por parte da Comissão “Ecclesia Dei”, sobre o uso do rito romano anterior,
  • que teria crescido enormemente a partir de 2007, até sua extinção em 2019,
  • mas com a transferência das competências para a CDF (Congregação para a Doutrina da Fé – NdR), que se vê exercendo uma tarefa que por si só seria e competência da CCD?

Cardeal Robert Sarah, demissionário da Congregação para o Culto Divino e a disciplina dos sacramentos – Foto: Reprodução 

Não é difícil notar, no entanto, como em cada um dos três pontos-chave da competência tem havido, com os últimos prefeitos, uma transformação progressiva de competência:

a) A participação ativa dos fiéis

  •  foi cada vez mais colocada em segundo plano,
  • enquanto se levantava a grave suspeita de que a “assembleia ou comunidade celebrante” fosse uma expressão de um perigoso “abuso”.
  • E que renunciar a seu uso fosse uma boa maneira de evitar os abusos.

b) A compilação e correção de textos litúrgicos e calendários

  • interpretou o papel do Gabinete mais como a de “preservação do museu”
  • do que como a de “cultivar um jardim”.

c) No que diz respeito à tradução,

  • foi necessário esperar até 2017 – com o motu proprio Magnum Principium – para redescobrir o sentido originário
  • tanto do valor insuperável das “línguas faladas” como da função das Conferências Episcopais.
  • E a longa sombra da Liturgiam autenticam ainda nos faz sentir o peso de uma leitura “latina” da tradição, que olha com desconfiança para as línguas faladas.

Sair deste triplo impasse, que ameaça as três tarefas fundamentais da Congregação, será a tarefa que o próximo Prefeito deverá assumir e coordenar.

Sem esquecer que as congregações não são gabinetes monocráticos, mas colegiados. Os Prefeitos são apenas aqueles que presidem aos trabalhos de um Gabinete articulado. A esperança é que,

  • para orientar um processo tão delicado de recepção da reforma litúrgica,
  • seja posta em prática a melhor competência litúrgica possível,
  • sem pensar que o bom senso de um homem institucional ou a sabedoria de um homem espiritual sejam suficiente para coordenar tal trabalho:

as lógicas da liturgia não se deixam compreender apenas por sua forma externa ou por seu conteúdo de verdade. Portanto, uma competência específica, técnica, textual e ritual é inevitável.

Por isso, parece verdadeiramente incompreensível que

  • para cuidar de tal trabalho fosse designado alguém que não conhece em detalhes a sua delicada articulação,
  • como infelizmente tem sido normal nas últimas décadas.

Embora tenha sido normal que

  • um especialista em dogmática fosse designado para liderar a Congregação para a Doutrina da Fé,
  • um especialista em diplomacia para liderar a Secretaria de Estado,
  • ou um especialista em direito para lidar com o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos,

também deveria tornar-se normal que

  • quem conhece “de dentro” a forma ritual da vida de fé
  • seja chamado a liderar a Congregação para o Culto Divino.

Essa decisão que parece totalmente razoável, de uma vez por todas, seria uma maneira significativamente nova de honrar o Concílio Vaticano II e sua recepção esclarecida.

 

grillo

Andrea Grillo : casado e pai de dois filhos, é professor de Teologia Sacramental e Filosofia da Religião no Pontifício Ateneo de Santo Anselmo (Roma) e de Liturgia na Abadia de Santa Justina (Pádua). É autor de vários livros na área da sacramentologia.

Fontes:  http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/606932-depois-do-card-robert-sarah-implementar-nao-impedir-a-participacao-ativa-artigo-de-andrea-grillo

https://www.cittadellaeditrice.com/munera/dopo-il-card-robert-sarah-per-attuare-non-per-ostacolare-la-partecipazione-attiva/

 

grillo

Andrea Grillo (Savona 1961) Insegna dal 1994 Teologia dei sacramenti e Filosofia della Religione a Roma, presso il Pontificio Ateneo S. Anselmo e Liturgia a Padova, presso l’Abbazia di Santa Giustina. È padre di Margherita e di Giovanni Battista.
È autore del blog Come se non.
Contatti: mail.

Dopo il card. Robert Sarah. Per attuare – non per ostacolare – la partecipazione attiva

Nella struttura della Curia Romana, la funzione della Congregazione per il Culto Divino e la disciplina dei sacramenti ha assunto, dal 1988, la figura di competenza che troviamo nella Costituzione Apostolica Pastor Bonus (62-66). Molto importanti sono i tre punti che qualificano la attività dell’Ufficio, così come espressi dal n. 64. Leggiamoli integralmente:

Articolo 64

§ 1. La Congregazione promuove con mezzi efficaci e adeguati l’azione pastorale liturgica, in particolar modo in ciò che attiene alla celebrazione dell’Eucaristia; assiste i Vescovi diocesani, perché i fedeli partecipino sempre più attivamente alla sacra liturgia.

§ 2. Provvede alla compilazione o alla correzione dei testi liturgici; rivede ed approva i calendari particolari ed i propri delle Messe e degli Uffici delle Chiese particolari, nonché, quelli degli istituti che godono di tale diritto.

§ 3. Rivede la traduzioni dei libri liturgici ed i loro adattamenti, preparati legittimamente dalle conferenze episcopali.

Come è evidente, il dettato normativo non lascia molti dubbi: la funzione centrale della Congregazione consiste nel coordinare, a livello centrale, il cammino di attuazione della Riforma Liturgica. Questo avviene a tre livelli: sul piano della “azione pastorale liturgica”, orientata chiaramente ad una maggiore “partecipazione attiva”; sul piano della stesura dei testi liturgici e dei calendari; sul piano della traduzione e dell’adattamento operati dalle Conferenze Episcopali.

Sono proprio questi tre obiettivi ad aver determinato, negli ultimi decenni, crescenti tensioni tra il compito istituzionale e il suo concreto svolgimento. Non solo nel caso dell’ultimo Prefetto che ha rassegnato le dimissioni, ma in una lunga teoria di predecessori, la evidenza dei tre compiti che abbiamo considerato è apparsa in una luce troppo debole, quasi sopraffatta da “doveri alternativi”, se non contraddittori addirittura. Come non pensare che, a partire dallo stesso anno in cui nasceva questo assetto costituzionale, sorgeva, parallelamente, una “competenza alternativa” sulla liturgia, da parte della Commissione “Ecclesia Dei”, sull’uso del rito romano precedente, che sarebbe enormemente cresciuta a partire dal 2007, fino ad estinguersi nel 2019, ma con il passaggio delle competenze alla CDF, che si trova ad esercitare un compito che di per sé sarebbe di competenza della CCD?

Non è difficile notare, comunque, come su ognuno dei tre punti-chiave della competenza, si è assistito, con gli ultimi Prefetti, ad una progressiva trasformazione della competenza:

a) La partecipazione attiva dei fedeli è stata spostata sempre più sullo sfondo, mentre si è sollevato il grave sospetto che la “assemblea o comunità celebrante” fosse espressione di un pericoloso “abuso”. E che la rinuncia all’uso fosse un bel modo di evitare gli abusi.

b) La compilazione e correzione dei testi liturgici e dei calendari ha interpretato il ruolo dell’Ufficio più come quella di “conservazione del museo” piuttosto che come quella della “coltivazione di un giardino”.

c) Sulla traduzione si è dovuto attendere il 2017 – col motu proprio Magnum Principium – per ritrovare il senso originario sia del valore insuperabile delle “lingue parlate”, sia della funzione delle Conferenze Episcopali. E la ombra lunga di Liturgiam authenticam fa ancora sentire il peso di una lettura “latina” della tradizione, che guarda con sospetto alle lingue parlate.

Uscire da questa triplice impasse, che minaccia i tre compiti fondamentali della Congregazione, sarà il compito che il prossimo Prefetto dovrà assumere e coordinare. Non senza dimenticare che le congregazioni non sono uffici monocratici, ma collegiali. I Prefetti non sono altro che coloro che presiedono al lavoro di un Ufficio articolato. La speranza è che, per guidare un processo tanto delicato di recezione della riforma liturgica, sia messa in campo la migliore competenza liturgica possibile, senza pensare che per coordinare un tale lavoro sia sufficiente il buon senso di un uomo istituzionale o la sapienza di un uomo spirituale: le logiche della liturgia non si lasciano comprendere solo per la loro forma esteriore o per il loro contenuto di verità. Perciò una competenza specifica, tecnica, testuale e rituale risulta inaggirabile. Per questo motivo apparirebbe davvero incomprensibile che a custodire un tale lavoro fosse designato chi non ne conosce nel dettaglio la delicata articolazione, come purtroppo è stato normale negli ultimi decenni. Mentre è stato normale che un esperto in dogmatica fosse designato a guidare la Congregazione per la Dottrina della Fede, un esperto in diplomazia guidasse la Segreteria di Stato, o che un esperto in diritto si occupasse del Pontificio Consiglio per i Testi Legislativi,  dovrebbe diventare altrettanto normale che a guidare la Congregazione per il Culto Divino fosse chiamato chi conosce “da dentro” la forma rituale della vita di fede. Anche questa non irragionevole decisione, una buona volta, sarebbe un modo significativamente nuovo di onorare il Concilio Vaticano II e la sua illuminata recezione.

 

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