Sozinha diante do perigo

Uma mulher Subsecretária do Secretariado do  Sínodo dos Bispos? É muita coragem de Francisco…

 

Sola ante el peligro

Jesus Martinez Gordo – 19 de fevereiro de 2021. Imagem: IBARROLA / Daqui

Refiro-me à “solidão” de Nathalie Becquart. Esta freira xaveriana, de nacionalidade francesa, foi nomeada pelo Papa Francisco subsecretária para o secretariado do Sínodo dos Bispos, a realizar-se em outubro de 2022, sendo a única mulher com direito a falar e a votar, pela primeira vez, numa assembleia integrada exclusivamente por homens.

 


sr Nathalie Becquart | Canadian Religious Conference Ir. Nathalie Becquart – Foto: 
DAQUI

 E refiro-me ao “perigo” que corre de se tornar, embora contra sua vontade, na “nomeação estrela” que pode ser usada para despistar sobre o que está em jogo.

Se isso acontecer, acho que não faria nenhum bem a ela nem ao Sínodo, pois aumentaria o número daqueles que não atentam para fato de que

  • o que vai ser debatido é, se posso usar a expressão, uma das “batatas mais quentes” que a Igreja Católica tem desde há séculos:
  • como se livrar do modelo absolutista de exercer a autoridade em nome da “verdade” ou da “unidade”, administradas apenas por homens. 

Hoje, ao contrário de outros tempos mais autoritários, e não tão remotos, podem ser distinguidas duas linhas de superação: a promovida por Francisco e a liderada pelos bispos alemães.

Para o Papa Bergoglio, todos os batizados devem caminhar juntos;

  • mas não, como é costume, até antes da sua chegada à cátedra de Pedro, ao toque de corneta da autoridade eclesial,
  • mas sim depois de ter escutado o que pensam os mais de 1.300 milhões de católicos sobre o assunto de que se trate.

Esta estruturação do que é chamado “sinodalidade” ou “caminhar juntos” explica

  • por que Francisco tenta “rotinizar”, antes de cada Assembleia dos bispos, as consultas oportunas
  • e porque insiste em que os prelados devem ser porta-vozes, também, das opiniões recolhidas.

A verdade é que, quando algumas igrejas locais atuaram de maneira realmente sinodal, se assistiu a um magistério eclesial questionador e, até mesmo, mobilizador e transformador.

Lembro-me dos processos implementados pelos bispos americanos

  • sobre a corrida armamentista nuclear (1983);
  •  sobre as desigualdades econômicas (1986)
  • ou a promoção das mulheres na Igreja, incluindo o seu acesso ao sacerdócio;
  • uma questão que, após sete anos de debate e quatro redações – neste caso, controlada pela Santa Sé – acabou fracassando:
  • a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos votou contra o texto apresentado, por entender que ele havia sido sequestrado intelectualmente pelo Vaticano (1992).

Ou os diversos encontros dos bispos latino-americanos em

  • Medellín (1968),
  • Puebla (1979),
  • São Domingos (1992)
  • e Aparecida (2007)

com a entrada em cena e o fortalecimento da teologia da libertação, um dos frutos da identificação de Jesus com os pobres, a assinatura pendente do Vaticano II.

Sínodo de 2018 – Foto:  Reprodução

   

 Acontece que, neste modelo,

  • o Papa junto com os bispos –  quase todos nomeados a dedo – são os que têm a última palavra.
  • Aos batizados, consultados num primeiro momento, mas ausentes na votação,
  • só resta “receber” e aplicar o que foi aprovado pelos prelados e confirmado pelo sucessor de Pedro.
  • E, se não concordarem, esquecê-lo.

É o que se chama “a recepção”,

  • uma espécie de prova dos nove a que fica submetida qualquer decisão da Igreja
  • e que explica a existência de uma enorme quantidade de ensinamentos do magistério que, apesar de muitos e denodados esforços, dormem “o sono dos justos”.
  •  Aí está, a título de exemplo, entre outros, a Encíclica “Humanae vitae” de Paulo VI (1968).

      Os bispos alemães, muito críticos desta forma de compreender e exercer autoridade, estão procedendo segundo o que chamam de “um caminho sinodal”:

  • aberto à participação dos leigos, tanto no diagnóstico da situação como nas votações,
  • de caráter co-decisivo e em que não há temas tabu, sejam de ordem estrutural ou magisterial.

      Por coerência com isso, estão sendo apresentadas as propostas que se julgam pertinentes nos quatro Fóruns de discussão que foram colocados em funcionamento:

  • o poder na Igreja;
  •  a existência sacerdotal; 
  • a mulher nos serviços e tarefas eclesiais;
  •  viver o amor na sexualidade e no casal.

      Essas contribuições, após discussão e aprovação no Fórum correspondente, serão novamente debatidas e votadas na Assembleia Sinodal (230 delegados, incluindo 69 membros da Conferência Episcopal).

      Até o momento, uma das quatro comissões já formulou algumas propostas referentes

  • à seleção dos bispos e dos sacerdotes;
  • à necessidade de superar o modelo absolutista da autoridade;
  • à possibilidade de anular decisões tomadas pelos bispos ou pelos sacerdotes;
  • à defesa da pluralidade na teologia
  • e à emissão de um parecer fundamentado que,
  • dirigido a toda a Igreja universal e à Santa Sé, permita abrir o sacerdócio às mulheres.

      Como se pode ver, é uma forma de proceder que pouco ou nada tem a ver com o que se vem promovendo e defendendo com unhas e dentes, aqui, entre nós, desde há vinte e cinco anos:

  • mais urgido por “administrar” do que “pastorear”. 
  • E que tem a ver, sim e muito, com o que ensaiado na época imediatamente após a conclusão do Vaticano II.

      Suponho que esta concepção e exercício da sinodalidade serão debatidos no Sínodo dos Bispos em 2022.

      Gostaria que os bispos alemães

  • não estivessem “sozinhos diante do perigo” de uma direita que,
  • cada dia mais nervosa e feroz, vai olhar para o outro lado – embora a contragosto – quando se falar da nomeação de Nathalie Becquart,
  • mas o que não o vão fazer quando se tratar desta segunda maneira de compreender e praticar a sinodalidade.

Suspeito que a dita direita eclesial possa contar com o apoio de boa parte do chamado “centro católico” que, nesta matéria, não é tão “centrado” como poderia parecer… E, se não, no mesmo tempo.      

Creio que esta é a questão fundamental, sem que isso nos impeça de reconhecer

  • a “solidão” institucional de Nathalie Becquart
  • ou a presença “paliativa” de outras mulheres que não passarão de auditoras ou, no melhor dos casos, consultoras de alguns bispos que,
  • além de serem homens, detêm toda a autoridade eclesial em nome da “verdade” e da “unidade”.

E que continuarão a mantê-la com exclusividade após este Sínodo, embora pagando, a cada dia, um preço excessivamente alto; pelo menos de credibilidade.

 

 

Jesus Martinez Gordo

https://www.diariovasco.com/opinion/sola-ante-peligro-20210220001557-ntvo.html

1 comment to Sozinha diante do perigo

  • Herminia Braulio

    Não a vejo tão sozinha. Francisco acaba de chamar outra mulher, uma freira brasileira, para integrar outro órgão cuja presença é “massacradamente” masculina. Me parece que secretaria é uma atividade de caráter profundamente feminino. Se os livros Tombo tivessem sido escritos por mulheres seriam ricos em detalhes e referências, não só quanto a conquistas paroquiais como também quanto a forma como que foram obtidas. Alguém discorda das diferenças entre o olhar feminino? Incluir uma mulher em órgãos deliberativos, por mais que elas sejam apenas secretárias úteis ao registro dos acontecimentos é sempre arriscado. Afinal, os filhos, meninos ou meninas ainda são formados pelo vigilante olhar materno.

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