O espírito de Jesus de Nazaré (2.2)

… Continuação

Aventuras na História · Os anos perdidos de Jesus Cristo, que não são mencionados no evangelho

Eduardo Hoornaert , 17/01/2021 – Foto: Daqui

‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’.

O primeiro milagre praticado por Jesus, no segundo capítulo do Evangelho de Marcos, que mencionei acima, já vai impregnado de uma inconfundível alegria: o Reino de Deus é uma alegria perpétua, uma cura contínua, uma festa de cada momento. Jesus irradia uma contagiosa alegria.

 

Ele mesmo não interpreta seus numerosos gestos de cura e ajuda como o povo os entende. O que, para o povo, é ‘milagre’, expressão de algum poder mágico, para Jesus é sinal claro da irrupção do Reino de Deus na terra. Daí sua alegria.

Como sabe que o povo costuma interpretar mal suas curas, ele declara, em Lc 7, 23: feliz quem me compreende. 

‘Feliz quem compreende que aqui se trata da irrupção do Reino de Deus na terra, que se manifesta nos seguintes sinais:

  • Os cegos recobrem a visão
  • Os coxos andam
  • Os leprosos são purificados
  • Os surdos ouvem
  • Os mortos ressuscitam
  • Os pobres recebem a Alegre Notícia (o evangelho) (Lc 7, 22).

Uma verdade escondida a sábios e entendidos.

Obrigado, Pai, Senhor do céu e da terra. Tu escondes essas coisas para sábios e entendidos, só as desvelas a crianças (Lc 10, 21).

Nos primeiros 24 versículos do capítulo 10 do Evangelho de Lucas se conta que Jesus

  • manda 72 discípulos, de dois em dois, para aldeias da Galileia,
  • a fim de socorrer as pessoas, cuidar dos doentes e submeter os demônios.
  • Quando esses discípulos voltam entusiasmados da missão, dizendo que

mesmo os demônios se submetem a nós, Jesus exulta: Eu vi o Adversário cair do céu que nem um relâmpago (vv.17-21). Marcos relata o episódio com outras palavras:

 e expulsavam muitos demônios, e curavam muitos doentes, ungindo-os com óleo (Mc 6, 13).

Jesus investe muita energia na formação de seus apóstolos. Para ele, são os doze patriarcas de um novo Israel para ficarem perto dele, serem enviados em seu nome e ter autoridade para expulsar os demônios.

‘Eu preparo para vocês um Reino como meu Pai preparou um para mim: vocês comerão e beberão na minha mesa no meu Reino, ficarão no trono e reinarão sobre as doze tribos de Israel’ (Mc 3, 14-15).  

Ao mesmo tempo, Jesus manifesta inquietação e impaciência. Ele constata que sua Alegre Mensagem, seu Evangelho, não passa com facilidade ao pessoal das sinagogas. 

Numa sucessão de seis metáforas, o Evangelho de Lucas, 12, 49-59 descreve essa inquietação: o fogo ainda não pegou, o novo batismo ainda não aconteceu, a desunião no seio da família ainda não se instalou.

  • Eu vim derramar fogo sobre a terra e gostaria tanto que pegasse logo.
  • Tenho de ser batizado num (novo) batismo e me atormento, pois não vejo a hora disso acontecer.
  • Vocês pensam que vim trazer a paz sobre a terra? Nada disso. Eu trago a desunião.
  • Doravante, se cinco pessoas moram numa casa, elas estarão divididas, três contra duas ou duas contra três.
  • Pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra.

Jesus gostaria que essas ‘desarrumações’ aconteçam logo, desde agora (v. 52).

E reclama:

‘os camponeses sabem que as nuvens no Oeste anunciam chuva e o vento do Sul anuncia calor, mas vocês não sabem interpretar os sinais do tempo’. 

Vocês já tiveram oportunidade para perceber a que eu vim, mas não usam a cabeça (v. 57). Vocês não se decidem, não descobrem o que é certo, não pensam pela própria cabeça (em grego ‘krinein’).

Jesus constata, com tristeza, que

  • os fiéis das sinagogas se comportam como aqueles dois homens que vão ao juiz resolver uma questão de dívida (vv. 58 e 59),
  • em vez de resolver a questão entre si,
  • em vez de tomar a iniciativa e pensar pela própria cabeça.

Toda a narrativa de Lucas está impregnada da ânsia de Jesus em difundir, o mais rápido possível, o Reino de Deus na terra.

Vim para isso, e queria tanto ver que ele se espalhe (Lc 12, 49).

Para ele, os 72 discípulos que andam pelas aldeias são apenas as primícias de gerações a derramar fogo sobre a terra (Lc 12, 49).

Embora o texto de Marcos seja predominantemente ‘milagreiro’ e represente o entendimento de muita gente que comenta ações praticadas por Jesus, ele deixa transparecer que Jesus se incomoda com a empolgação que está causando.

  • A partir do capítulo 8, o evangelista apresenta um Jesus que parece querer fugir das multidões em seu entorno, mas não o consegue.
  • Atravessa o Lago de Genesaré, vai para longe da Galileia, para lugares desconhecidos como Gerasa (Mc 5, 1) e Dalmanuta (8, 10), mesmo para a longínqua Cesareia de Filipe (8, 27).
  • Sem muito sucesso: mesmo do outro lado do lago de Genesaré, em Betsaida, ou no território de Tiro, o pessoal o reconhece e persegue (Mc 7, 24).
  • Seus próprios apóstolos lhe dedicam uma devoção extremada.

Pedro lhe diz: Tu és o Ungido (Mc 8, 29), não quer ouvir falar de sofrimento a seu respeito.

Jesus retruca impetuosamente:

Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens (Mc 8, 33).

Há de se reconhecer que, para os apóstolos, andar com Jesus não é coisa fácil.

Eles lidam com uma pessoa inquieta, que não vê a hora chegar para que apareçam pessoas capazes de entender a novidade que ele vem trazer.

Uma pessoa que repete sempre:

  • é tempo de agir, de tomar iniciativas,
  • não de seguir cegamente o líder:
  • ‘eu não sou um oráculo, minhas palavras não são decisivas, não obrigo ninguém a me seguir. O que quero é que se bote fogo nesse mundo, que se mergulhe esse mundo num batismo para valer, que se discutem em família minhas propostas’.

Jesus, decididamente, não quer seguidores. Ele quer apóstolos, pessoas que assumam responsabilidades. Mas suas propostas não são fáceis.

 

&&&&

‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

Realmente, as propostas de Jesus não são fáceis. Isso fica claro num episódio contado por três evangelistas (Mc 2, 13-17, Lc 5, 27-32 e Mt 9, 9-13), o que, por sinal, demonstra a importância que a tradição lhe atribuiu. Em minha opinião, trata-se de um dos episódios da vida de Jesus mais difíceis a serem compreendidos.

Cito aqui a versão de Marcos:

 ‘De novo, ele (Jesus) saiu pela beira-mar. As multidões vinham a ele e ele lhes ensinava. No caminho, ele viu Levi, filho de Alfeu, sentado no entreposto fiscal, onde ele coletava impostos, e lhe disse: ‘siga-me’. Levi se levantou e o seguiu. Ele estava em casa, alongado para a refeição. Ele tinha consigo e com seus discípulos coletores de impostos e gente banida da sociedade, que eram muitos a segui-lo.

Os letrados do partido dos fariseus, vendo isso, resmungavam com seus discípulos:

  • ‘o quê? Ele come com a ralé, com coletores de impostos?
  • Jesus ouviu a conversa, e lhes disse: ‘não são os sadios que necessitam de médicos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas reprovados’ (Mc 2, 13-17)

Mateus diz o mesmo em outras palavras:

agora, tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos. Não vim chamar gente em regra, mas marginalizados (Mt 9, 13).

‘Tentem compreender’.

  • Será que Jesus compactua com pessoas que vivem explorando o povo camponês, que exercem trabalhos de moral duvidosa?
  • Por que não chama fariseus, letrados, sacerdotes, gente honrada, respeitada pelos bem-pensantes,
  • mas prefere pescadores, camponeses e coletores de impostos?

Não é fácil. Há de se abrir o leque.

– Em primeiro lugar, há de se observar que os termos gregos ‘dikaios’ (gente de bem, gente ‘em regra’, justo) e ‘hamartôlos’ (gente do mal, gente não ‘em regra’) de Mateus 9, 13 são traduções de terminologias aramaicas.

Mateus escreve para judeus, com sua mentalidade peculiar.

  • Gente ‘em regra’ contra gente ‘não em regra’,
  • ‘justo’ contra ‘descumpridor da Lei’. 

A tradução do segundo termo por ‘pecador’ não é muito feliz, pois pode conduzir a uma compreensão errada do texto.

Como compreender?

  • Nos tempos de Jesus, a venerável Lei (em hebraico: Torá) de Moisés se encontra numa situação de deplorável deturpação.
  • Virou um código de 613 preceitos formais, que funcionam como instrumentos repressores nas mãos dos 18 mil sacerdotes
  • que percorrem as aldeias da Palestina para apoiar uma política de cobrança de impostos em cima do povo camponês, ao repetir – por exemplo – que as pessoas que não pagam impostos são ‘ pecadores’ e ‘fora da lei’. Uma verdadeira extorsão.
  • Eles insistem em dizer que ‘ninguém é justo’ (leia: seguidor da Lei) se não pagar três impostos: o do Rei Herodes Antipas, do Templo e daquele que é ocasionalmente cobrado pela guarnição romana sediada em Jerusalém.

Para Jesus, a Torá está agonizando. Não está morta, mas profundamente corrompida por ingerências políticas. Jesus, no fundo, respeita a Lei, ou seja, a Lei de Moisés. Jesus pensa que a Lei ainda pode ser salva.

Como? Pela desobediência.

  • É preciso infringir as leis, não para destruí-las, mas para torná-las inoperantes enquanto não sejam reformuladas.
  • Uma postura de desobediência civil, que vai lhe custar a morte.
  • Contudo, a desobediência, que Jesus prega, não é destrutiva, mas pedagógica.

A Lei, colocada em quarentena, tem condições de se livrar dos preceitos corruptos e recuperar sua autoridade primordial, a ideia original de Moisés.

É dentro desse enquadramento que precisa ler as frases

“não vim chamar gente ‘em regra’, mas marginalizados, não vim chamar justos, mas reprovados.

 Como sabe que essa sua postura é de difícil compreensão por parte de seus ouvintes, ele adverte:

Tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos (Mt 9, 13).

– Uma segunda observação:

  • a postura de Jesus diante dos rejeitados pela Lei tem a ver com fatos ocorridos em sua vida.
  • Desde criança, a exemplo dos pais, ele ‘sobe a Jerusalém’ a cada ano. Percorre a pé os aproximadamente 120 km. que separam a Galileia da Cidade Santa dos judeus, para participar da festa de Páscoa.
  • Sempre com grande expectativa no coração: Vocês se aproximam do monte de Sião, da cidade de Deus vivo, de Jerusalém celeste, miríades de anjos em festa (Hb 12, 22).

No monte Sião está o Templo de Deus, brilha a Luz das nações, está a Casa de Ihwh (Sl 23, 6):

  • Eu quero morar na casa de Ihwh / todos os dias de minha vida
  • Contemplar a beleza de Ihwh / Descobrir sua morada (Sl 29, 4).

Mas, com o correr dos anos, Jesus vai entendendo melhor o que acontece no Templo e isso lhe traz uma grande desilusão:

  • o Templo está sendo profanado por aqueles que deveriam guardar a mensagem de Deus Pai.
  • Não corresponde às expectativas do peregrino Jesus. Certo momento, ele grita:

a casa de meu Pai é uma casa de oração e vocês fazem dela um covil de ladrões (Jo 2, 17).

Chocado e decepcionado, Jesus percebe que

  • o Templo marginaliza os chamados ‘fora da regra’, ‘fora da lei’, ‘desobedientes’, ‘ralé’, ‘gentinha’,
  • que na realidade formam a imensa maioria do povo, representam os 94 % analfabetas da população da Palestina.

Jesus volta sua atenção para as pessoas que encontra na beira do caminho dos peregrinos a Jerusalém. Vendedores, pedintes, sempre prontos a executar algum serviço em troca de dinheiro.

  • Ele formula um novo programa: felizes os pobres, deles é o Reino de Deus. 
  • Irrompe uma nova imagem de Deus.

Aparece um Deus que

  • não gosta de ritos e regulamentos,
  • não quer ser adorado de joelhos (um rito da corte persa),
  • se aborrece com o cheiro de carne assada em sacrifícios sagrados, com a fumaça dos turíbulos e as vestimentas pomposas dos sacerdotes,
  • enfim, sente aversão por palavras e gestos rituais.

Como Jesus recomeça em novas bases, ele compreende agora que a chegada do Reino depende da disposição em começar de novo.

O caso paradigmático é o de Levi.

Lembro que ele é um funcionário do rei Herodes Antipas, que mandou instalar um posto de peagem na estrada que dá acesso a Cafarnaum. Por que ele atende tão prontamente ao apelo de Jesus (Mt 9, 9)?

  • Não penso que seja só um impulso do momento nem uma reação espontânea causada pelo fascínio da figura de Jesus,
  • mas de algo que estava se gestando no subconsciente do funcionário desde bastante tempo:
  • vale a pena gastar meu tempo e minhas energias para exercer um ofício que no fundo carece de base moral?

Levi bem sabe que esses impostos são na realidade extorsões.

Não é melhor mudar de rumo e andar com esse rabi, que demonstra um espírito tão decidido e destemido a favor do povo?

Levi transforma-se de cobrador de impostos em apóstolo. Sua alegria está registrada nos três textos que aqui comento.

Lucas escreve: Levi deu em sua casa um grande festim em honra de Jesus (Lc 5, 29).

Para Marcos, esse ‘festim’ teria acontecido na casa de Jesus (Mc 2, 15) enquanto Mateus fala simplesmente que a festa teria acontecido ‘numa casa ‘ (Mt 9, 10).

O caso de Levi (que a lista dos apóstolos menciona invariavelmente sob o nome Mateus) constitui um exemplo de como se processa a chegada do Reino de Deus na concretude de vidas humanas.

  • Trata-se realmente de uma irrupção, uma chamada, uma conversão (em grego: metanoia).
  • Deixar para trás eventuais falhas cometidas. Recomeçar, manter uma alegria permanente, uma esperança a todo custo: as coisas vão melhorar.
  • Colocar-se ao lado de pobres e pequenos (Mt 20, 25-27),
  • não fazer diferença entre circuncisos e pagãos (Rm 10, 12), cultos e bárbaros (Col 1, 3, 11), cidadãos e imigrantes (1Cor 12, 13), homens e mulheres (Gl 3, 28).
  • Curvar-se diante do fraco, dar a mão para que esse se levante, ser ‘bom samaritano’.

Eis a chegada do Reino de Deus, a compreensão do espírito de Jesus de Nazaré.

 

 

Livro de Eduardo Hoornaert revisita as origens da história de Jesus Cristo – Boletim Unicap

Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, há mais de 50 anos no Brasil, professor, historiador, com mais de 20 livros publicados. Dedica-se nestes últimos anos, à pesquisa sobre os Inícios do Cristianismo e sobre o Movimento de Jesus. Mora em Salvador, Bahia.

Fonte:   http://eduardohoornaert.blogspot.com/2021/01/o-espirito-de-jesus-de-nazare-02.html

 

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