O espírito de Jesus de Nazaré (2.1)

Conheça os personagens de 'Jesus', que estreia nesta terça-feira na Record TV | ND

Eduardo Hoornaert – JAN , 16, 2021 – Foto: DAQUI

Seria ilusão, de nossa parte, pressupor que captemos com facilidade o espírito de Jesus de Nazaré. Nossas ideias e imagens a seu respeito são marcadas por uma osmose cultural criada ao longo de muitos séculos, na qual todos e todas ficamos envolvidos/as, queiramos ou não.

 

A dificuldade de se captar o espírito de Jesus vem dos inícios.

Já em diversos textos do Novo Testamento

  • se sente como uma saudade ‘levítica’ toma conta das nucleações cristãs,
  • o desejo de se voltar aos sacrifícios, ao templo, ao altar, ao sacerdócio.

Que se retire de Jesus

  • o pó da estrada, a mesa dos publicanos, a aldeia dos samaritanos, os sítios da Galileia, o perfume das mulheres, o convívio com pescadores, cobradores de alfândega e impostos, o cheiro dos albergues, a poeira das praças públicas.
  • Que se lhe vista a capa da decência sacerdotal, que se lhe ponha nas mãos o gesto suave e na boca a fala mansa dos religiosos.

Mesmo os evangelistas, que escrevem entre os anos 70 e 100, nem sempre captam a novidade de Jesus com a devida clareza.

  • Marcos, dos anos 70, cria a imagem impactante de Jesus milagreiro a animar e encorajar seus ouvintes (muitos deles imigrantes judeus em Roma);
  • para Mateus, que escreve nos anos 80, Jesus é o prometido Rei de Israel, o herdeiro do trono de Davi, o Emanuel de Isaías, o ponto culminante da antiga Lei de Israel,
  • enquanto Lucas, provavelmente na mesma década, elabora um texto muito bem escrito, em que Jesus aparece como uma pessoa de rara sensibilidade social, principalmente em relação a mulheres e pobres, mas não deixa de ceder a um imaginário popular que vai crescendo, principalmente na descrição do seu nascimento e de sua infância.
  • João, o último evangelista, que escreve por volta do ano 100, se monstra um artista consumado, ao ponto de nos fazer crer que suas cenas correspondem invariavelmente a episódios reais.

Há de se ler os Evangelhos, como, aliás, todos os textos que nos vêm de tão longe, com critério, pois são inevitavelmente marcados por tempo e espaço, cultura e limitações ideológicas. Os diversos retratos de Jesus que emergem dos Evangelhos nem sempre correspondem fielmente ao que efetivamente aconteceu na vida de Jesus nem à mensagem que ele quis transmitir.

É possível chegar ao que ‘efetivamente aconteceu’ com Jesus?

Eis uma questão que ocupa teólogos e historiadores desde alguns séculos (como comprovam as pesquisas sobre ‘Jesus histórico’), mas quer me parecer que

  • Moingt envereda por outras trilhas.
  • Se entendo bem o que ele escreve, o jesuíta francês parte do pressuposto que

os Evangelhos nos permitem enxergar algo mais importante que os dados da vida de Jesus historicamente verificáveis.

  • Eles nos permitem ter uma noção da ideia que Jesus mesmo se fazia de sua vida pública,
  • eles revelam sua ‘autoconsciência’, sua interpretação do que estava acontecendo consigo e em seu redor,
  • enfim, o espírito que o animava.

Isso é importante, pois nos dá a oportunidade de construir uma imagem de Jesus que escape às contingências de uma historia passageira e abra horizontes universais, além dos tempos, além dos espaços. Embora encontremos um Jesus mergulhado numa cultura peculiar, com modos peculiares de falar e agir,

  • podemos neles descobrir algo absoluto, algo que não passa,
  • algo que ultrapassa a fragilidade e incompletude do acontecer histórico,
  • algo que vale para todos os tempos e todos os lugares.

Eis o que significa a expressão ‘ espírito de Jesus’.

Resolvi então reunir alguns textos evangélicos que me parecem expressar esse espírito de Jesus de Nazaré, o que ele pensava de si mesmo. Neste texto provisório, reúno esses textos em torno de cinco itens.

Sei que há como apresentar de modo diferente, mas – afinal – o presente texto nada mais pretende ser que um convite no sentido de se concentrar nas ideias que o próprio Jesus se fazia de si mesmo e de sua ação.

Imagino Jesus falando quatro frases: 

  • ‘ Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’; 
  • ‘Combato demônios e trago anjos do céu’; 
  • ‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’; 
  • ‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

 

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1. ‘Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’.

‘O Reino de Deus, desde toda a eternidade estabelecido no céu, desce à terra. Eu recebi de Deus a missão de anunciar essa chegada e isso me causa uma intensa alegria’. Desde jovem, Jesus escuta na sinagoga o seguinte salmo:

Deus,

  • Dê ao rei seus julgamentos e sua justiça ao filho do rei.
  • Ele julga seu povo com justiça
  • As vítimas com julgamento.
  • As montanhas trazem a paz ao povo
  • E as colinas a justiça.
  • Ele esmaga quem oprime.
  • Eles tremerão de você
  • De geração em geração.
  • Como sol e lua.
  • Ele desce como a chuva sobre a relva
  • Como todas essas gotas que irrigam a terra.
  • O justo floresce durante seus dias
  • Paz total,
  • Até o fim das luas…
  • Todos os reis se inclinam diante dele,
  • Todos os povos se lhe sujeitam.
  • Sim, ele liberta o pobre que chama.
  • O mais humilde,
  • Aquele que não tem ninguém.
  • Ele protege a vítima e o pobre
  • Ele salva o ser dos pobres,
  • Ele resgata o ser deles da violência e da opressão (Salmo 72, 1-7 e 11-14).

 

Eis o Reino de Deus, pensa Jesus. E ele resolve difundir esse Reino em sua terra natal. Para tal, acumula energias suficientes de se pôr a caminho e andar incansavelmente pelas aldeias da Galileia. A expressão ‘Reino de Deus’ (ou ‘Reino dos Céus’) vem

  • 53 vezes em Mateus,
  • 19 vezes em Marcos,
  • 45 vezes em Lucas
  • e 5 vezes em João.

Ela expressa o espírito que move Jesus.

As narrativas evangélicas mostram que essa autoconsciência de Jesus não cai do céu, mas tem a ver com o que ele vem percebendo ao longo de sua experiência com João Batista. Lemos no versículo 14 do primeiro capítulo do Evangelho de Marcos que

Jesus, depois que João (Batista) foi preso, voltou à Galileia proclamar o Alegre Anúncio de Deus.

  • Por que ele não ficou batizando na região do Jordão, no Sul do país, mesmo sem o Mestre Batista? Teria sido lógico.
  • Por que ele abandona os trabalhos de penitência?

Só pode ter uma resposta:

  • na opinião de Jesus, seu Mestre Batista não entende o que seja o Reino de Deus.
  • Jesus não briga com João (pois ulteriormente lamentará sua morte), mas interrompe os trabalhos no Jordão e volta à terra natal.
  • Significativamente, ele não volta a Nazaré, sua aldeia natal, mas se estabelece em Cafarnaum, uma cidade pesqueira de intenso trânsito comercial, onde se fala até grego na comercialização de pescado.

A intenção é clara: Jesus pretende alcançar o ‘mundo grande’, aonde a novidade que ele vem trazer terá eventualmente melhor recepção que no interior da Galileia, onde impera o tradicionalismo.

Jesus se apresenta como um rabi. Marcos escreve:

Jesus ensinava nas sinagogas (em plural), e era honrado por todos (Mc 1, 15).

Ele assume o rabinato sem processo burocrático, e isso vem a postular algumas palavras de explicação.

O rabinato judaico repousa sobre uma sabedoria antiga:

  • ninguém consegue viver uma nova mensagem,
  • principalmente quando essa vem a contrastar com modos tradicionais de se viver,
  • sem seguir um mestre, um ‘sábio’, um profeta, um conhecedor das Escrituras, um orientador, um rabi.

Repetidos ‘slogans’ dos primeiríssimos tempos do movimento de Jesus, dos anos 40 a 60 (antes da redação dos Evangelhos), falam da urgência e da importância de se falar, de comunicar-se, e, do outro lado, de se ouvir, de ficar atento.

  • ‘Quem tem ouvidos ouça’;
  • ‘olhos, ouvidos e mentes’,
  • ‘amém, amém, eu digo’.

O discípulo precisa, em primeiro lugar, saber seguir e escutar seu mestre, seu rabi. Depois de dar a boa orientação, o mestre devolve seus discípulos à complexidade da vida, não as retém numa instituição.

O rabi não é propagandista, não faz proselitismo. Ele pode deixar o trabalho rabínico a qualquer momento.

  • Como convém a um rabi sério, Jesus evita concentrações de muita gente, não gosta de aparecer, permanece fora, em lugares desertos (Mc 1, 45) ou se refugia na montanha (Jo 6, 15). Mas nem sempre consegue.
  • Outro ponto em que Jesus corre o perigo de ser mal entendido: a seu entender, o Reino de Deus não se apresenta com sinais ostensivos: Não se diga: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! Pois o Reino de Deus está no meio de vocês (Lc 17, 20-22).
  • Uma ação em profundidade, com pouca gente, não um movimento de massa. Um trabalho exigente:

Vocês escutaram: olho por olho, dente por dente. / Mas eu digo: não resistam ao mal.

Alguém lhe bate na face direita? Ofereça a outra.

Alguém lhe tira a túnica? Dê-lhe também o manto.

Alguém o obriga a carregar suas bagagens ao longo de uma légua a pé? Ande duas.

Vocês ouviram: ame seu próximo e odeie seu inimigo. / Mas eu digo: ame seu inimigo, reze por quem o persegue. Assim você será filho do Pai que está nos céus.

Que mérito há em amar os que nos amam? / É assim que amam os fiscais de impostos.

Ajam como devem agir, assim como seu Pai nos céus age como deve ser (Mt 5, 38-48)

 

Uma proposta de caráter ‘mundano’:

  •  Vejam: cegos veem, coxos andam,
  • Leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam.
  • Uma alegre mensagem aos pobres.
  • Feliz aquele que não me entende mal (Mt 11, 5).

Passando pela praia do Mar de Genesaré, Jesus chama alguns pescadores a acompanhá-lo em suas andanças. E passando pelo entreposto de cobrança de impostos, na estrada que leva a Cafarnaum, ele chama o publicano Levi (Mt 9, 9), como ainda vou comentar adiante.

  • A ideia do Reino de Deus provoca nas pessoas um novo entendimento do mundo.
  • Não se trata mais de seguir os feitos de Moisés e dos patriarcas, o êxodo, a travessia do mar vermelho, a passagem pelo deserto por quarenta anos.
  • Trata-se de experimentar algo novo: o Reino que vem.

 

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2.  ‘Combato demônios e trago anjos do céu’.

‘Se Deus quer estabelecer seu Reino na terra, é que esta fica sob o domínio do Grande Adversário, que causa prostituições, roubos, assassinatos, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez (Mc 7, 21-22), com resultados desastrosos: cegueira, surdez, paralisia, mendicância, pobreza’.

  • Jesus procura se desvencilhar do mundo de seu Mestre Batista no Jordão, habitado por um turbilhão de demônios, ‘sopros imundos’ e ‘impuros’.
  • Ele enxerga Miguel, Gabriel, Rafael, os protetores da vida.
  • Enxerga, com Isaías, serafins em torno do trono de Deus, vê anjos guardiões da vida, condutores de astros e homens, protetores dos filhos de Deus.

O batismo de João está superado,

  • pois fica baseado na premissa de uma interminável luta entre o bem e o mal,
  • entre a virtude e a maldade, entre os anjos e os demônios.
  • A nova premissa consiste na conversão de demônios em anjos, da maldade em bondade.

Isso já se lê nos primeiros versículos do Evangelho de Marcos:

 impelido pelo Sopro para o deserto, (Jesus) esteve quarenta dias sendo tentado por Satanás: vivia entre as feras, mas os anjos o serviam (Mc 1, 12-13).

O deserto é ambivalente:

  • é povoado por demônios (Mt 12, 43), fica isolado de Deus (Lc 8, 29),
  • mas, ao mesmo tempo, é frequentado por anjos (Mc 1, 13).
  • A desolada solidão do deserto deprime, mas ao mesmo tempo contém esperanças de vida. ‘O deserto é fértil’ (Helder Camara).

Seguindo o exemplo dos hebreus que ficaram quarenta anos no deserto, unicamente armados com a confiança em Deus,

  • Jesus passa pelo deserto para afastar ilusões e alimentar esperanças.
  • É no deserto que Jesus percebe que o Reino de Deus está se aproximando,
  • algo que aqueles que vivem em torno do Templo de Jerusalém mal percebem. O deserto diz, a cada instante: Mudem de vida, o Reino de Deus está próximo (Mt 3, 1).

Voltando do deserto como vencedor, Jesus se torna exorcista. Ele cura expulsando demônios. Na mentalidade da época, plantas, animais, pessoas, tudo evoca anjos ou demônios. Os anjos da saúde e do bem-estar, os demônios da dor e da infelicidade.

Essas duas poderosas realidades, além do raciocínio humano, não se atingem por argumentos ou raciocínios, mas sim por autoridade moral, força de oração e de jejum. A doença revela o poder dos demônios, a saúde demonstra o poder do bem.

O poder de Jesus revela-se pela primeira vez na sinagoga de Cafarnaum. Ao avistar Jesus, num dia de sábado, um homem possuído de um espírito impuro, que costuma ficar sentado na entrada daquela sinagoga, grita:

Que queres de nós, Jesus nazareno? Veio para arruinar-nos? Sei quem é você: o santo de Deus. Jesus responde: Cale-se e saia dele. E o demônio sai. A reação do povo é imediata: Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem! (Mc 1, 23-28).

Eis o primeiro exorcismo.

A partir desse momento, Jesus não consegue mais fugir do assédio popular. Assim surge, nos evangelhos (que pertencem à segunda geração do movimento de Jesus, pois são dos anos 70-100), a imagem de um Jesus exorcista, em contínua luta contra um Opositor que se revela de muitos modos,

  • seja numa pessoa com a espinha dorsal curvada (Lc 13, 16),
  • seja em gritos solitários em torno de sepulcros (Mc 5, 5), etc.

Percebendo, de longe, a presença do exorcista, o Opositor se mostra agitado, pois enxerga em Jesus um sinal da chegada do Reino.

 Se eu expulso demônios pelo dedo de Deus, é que o Reino de Deus chegou para vocês (Lc 11, 20).

Uma força misteriosa acompanha Jesus por onde anda. Quando uma mulher, que sofre de hemorragia, toca a fímbria de sua veste, ele sente uma força sair de si.

‘Quem tocou minhas roupas? Quem me tocou?’(Mc 5, 30-31).

Essas citações representam apenas uma parte de histórias contadas na roça (na virada do arado), na soleira da casa, na fonte, um pouco por toda parte:

 e por onde ele entrou nos povoados, nas cidades ou nos campos, colocaram os doentes nas praças rogando que lhes permitisse ao menos tocar a fímbria de sua veste. E todos os que o tocavam eram curados (Mc 6, 56).

Jesus milagreiro, vencedor do poder de Satanás!

Um dos textos mais significativos acerca do poder exorcista de Jesus vem no capítulo 5 do Evangelho de Marcos, no episódio de Gerasa, onde Jesus cura um possesso por sopro impuro. O geraseno restabelecido é o protótipo do devoto cristão: agradecido e emocionalmente ligado a seu benfeitor, ao ponto de querer acompanhá-lo (Mc 5, 18).

Mas ele não o permitiu e lhe disse: ‘Vá para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor Deus em sua misericórdia’ (Mc 5, 19).

O rapaz, vestido, calmo, curado, é restituído ao convívio da aldeia, onde espalha a fama de Jesus.

  • Todos esses exemplos demonstram que, na mentalidade da época em Palestina, curar doentes e expulsar demônios constituem, afinal, a mesma coisa (Mc 1, 34).
  • Constituem, igualmente, sinais da chegada do Reino na terra.
  • A resposta também é sempre a mesma: gratidão e devoção. As pessoas, que se aglomeram em torno de Jesus, já anunciam as massas de devotos dos séculos subsequentes:

E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar (Mc 3, 20).

Quando os letrados dizem que Jesus está possuído por Beelzebu, é pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios, ele responde: Como pode Satanás expulsar Satanás? (Mc 3, 22-23).

Satanás provoca doença e sofrimento, Jesus opera saúde e bem-estar.

 

Livro de Eduardo Hoornaert revisita as origens da história de Jesus Cristo – Boletim Unicap

Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, há mais de 50 anos no Brasil, professor, historiador, com mais de 20 livros publicados. Dedica-se nestes últimos anos, à pesquisa sobre os Inícios do Cristianismo e sobre o Movimento de Jesus. Mora em Salvador, Bahia.

Fonte:   http://eduardohoornaert.blogspot.com/2021/01/o-espirito-de-jesus-de-nazare-02.html

 

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