Dom Pedro Casaldáliga i Pla, Padre, Profeta e Poeta[1]

17                                                   Profecia extrema”, de Dom Pedro Casaldáliga – Site do frei Gilvander Moreira       

François Glory – 15/01/21     – Foto: Reprodução                                                         

Me chamarão subversivo, / Eu lhes direi: eu o sou! / Para meu Povo em luta, vivo, /   Com meu povo em marcha, vou   / Tenho fé de guerrilheiro /  E amor de revolução (Pedro)                                                    

                                                                              

1 Introdução

Em 1968, Pedro, este claretiano catalão de Balsareny, então com quarenta anos, desembarca nas terra vermelhas da Amazônia brasileira, que ele deixará apenas com sua morte, em 08 de outubro de 2020. Suas exéquias foram a consagração de alguém que, durante toda sua vida,

escolheu aquele que é ignorado, aquilo que é indiferente, aquilo que é exclusão, para incluir no seu coração, na sua alma, no seu corpo, como semente lançada na terra, toda história de sofrimento, de exclusão, de massacre, de violência e de morte. Ele abraça, como Cristo abraçou a humanidade, assumindo os pobres, os últimos, os desprotegidos[2].

O corpo de Pedro, conduzido pelo índios Xavantes, torna-se símbolo de vida para aqueles que, contra toda esperança, creem que a semente florescerá e dará frutos de liberdade.

Pedro, assim chamado segundo seu desejo,

  • tinha no lugar de báculo um remo de pescador;
  • como mitra, um chapéu de palha de agricultor;
  • como anel episcopal, uma aliança de tucum.
  • Seu palácio episcopal, uma casa comum, com portas sempre abertas.
  • Seu quarto, iluminado pela luz de lamparina, com uma cama a mais, para uma possível visita inesperada.
  • Seu conforto era o mesmo do povo com o qual ele partilhava as condições de vida.
  • Sobre uma simples mesa, sua histórica máquina de escrever da qual saíram tantos textos proféticos e seus inúmeros poemas.
  • Em suas vestes, nada de distintivo.
  • Em seu rosto, um fino sorriso, pleno de humor, conectado ao Espírito Santo, o qual, segundo ele, é o bom humor da Trindade!
  • Suas viagens, sempre em transporte coletivo, pouco confortáveis e, com frequência, arriscados.

Doravante, ele repousa no cemitério Karajá[3], entre uma prostituta e um agricultor. Isso diz da radicalidade de suas escolhas, em nome do Evangelho, e que o fez uma figura marcante da Igreja do Brasil.

No seguimento de tantos outros profetas e pastores da América Latina[4], tão bem representados pelo Papa Francisco, Pedro indica o caminho que deve tomar a Igreja para voltar a ser credível aos olhos do mundo. Frei Beto o caracterizava como o “cristão mais coerente que ele conheceu”.

Livro do autor, François Glory, sobre seu trabalho missionário na Amazônia paraense

Não podemos, aqui, retraçar toda a vida daquele que é um dos grandes profetas da América Latina, visto a existência de um grande número de artigos, livros e reportagens. Contemplaremos, tão somente, como algumas de suas escolhas subversivas, inspiradas na radicalidade da vida do Nazareno, interpelam a Igreja.

  • Nestes tempos de crise eclesial e social, o exemplo profético de Pedro não pode ser apenas posto na lista de espera de heróis que serão canonizados a fim de serem imitados;
  • seu exemplo deve inspirar nossas prioridades e decisões pastorais.
  • Estas são mais simples do que imaginamos, porém, certamente, mais exigentes na prática.

 

2. Pedro: padre, profeta e poeta

Entre a chegada de Pedro ao Brasil e o Sínodo sobre a Amazônia, 50 anos se passaram. No entanto, não podemos ignorar que as questões e os desafios debatidos em Sínodo foram levantados por aqueles e aquelas que serviram de sinais de alerta, tais como Pedro.

Roma tremeu por medo da radicalidade de seus pastores. Hoje, os desafios continuam, tão quentes quanto a Amazônia em chamas. Pedro continua sendo uma luz que não podemos colocar debaixo da caixa.

Descobrindo São Félix do Araguaia[5], Pedro entra em choque. Tendo sido, anteriormente, missionário na África, com o intuito de implantar o Cursilho de Cristandade[6], agora percebe que seu projeto pastoral é totalmente inadequado.

Nesta parte da Amazônia brasileira que lhe é confiada, ele compreende que os agricultores, que tentam ganhar seu pão, só têm apenas dois direitos: o de nascer e o de morrer. Pastor apaixonado, ele não tardará a fazer sua escolha, guiado por sua intuição: na dúvida, estar sempre do lado dos pobres!

Com efeito, sua Congregação o havia enviado ao Brasil por fidelidade ao espírito do Vaticano II, cujas as escolhas são reafirmadas pela Conferência de Medelín. Como um apelo profético, a Conferência ocorre justamente no ano de sua chegada!

Não há porque hesitar: ele faz sua a “opção preferencial pelos pobres”,

  • por fidelidade ao Evangelho e por amor ao seu povo, o qual nunca mais deixará[7],
  • assim como a Teologia da Libertação, não como uma doutrina a ser difundida, mas como uma práxis, que o torna solidário aos excluídos e o engaja,
  • a tal ponto de arriscar sua vida todos os dias.

As consequências destas escolhas, ele as viverá na dolorosa experiência de ter seu amigo, Pe. João Bosco Burnier, assassinado, diante dele, por um policial militar[8].

O Brasil que ele descobre é marcado pelos anos mais sombrios da ditadura militar (1964-1968). O regime, que caça os subversivos, fecha os olhos às execuções perpetradas com pretexto de valorizar a Amazônia, esta terra sem homens!

  • A maioria das terras indígenas não estão homologadas[9] e os pequenos agricultores não têm o título de suas propriedades.
  • As populações são caçadas, massacradas dia e noite pelo avanço dos grandes grupos nacionais e internacionais.
  • Os capangas aproveitam a ausência de toda autoridade judiciária e ameaçam aqueles que resistem, limpando a terra[10] para novos conquistadores.
  • Nenhum sindicato, nenhuma organização, nesta selva onde o mais forte é rei, faz ecoar o grito daqueles que são reduzidos à condição de escravos nas imensas fazendas com milhares de hectares.
  • Só a Igreja podia tornar-se a voz dos sem voz. Pedro compreendeu isto.

A explosão não tardará a ser escutada, ecoando Is 5,8:

Infelicidade àqueles que juntam casa a casa e que acrescentam campo a campo, até não sobrar lugar e restar apenas os habitantes no país”.

No dia de sua ordenação episcopal, em 27 de agosto de 1971, ele envia sua primeira carta pastoral[11], intitulada: Uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a

marginalização social.

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José de Souza Martins, (Foto: Pinterest) 

Segundo o sociólogo José de Souza Martins[12], este é um dos documentos mais importantes da história social do Brasil. Com vigor, ele denuncia a situação de escravidão e violência praticadas contra os povos e comunidades da Amazônia. Ele descreve

  • as condições das mulheres,
  • o genocídio dos povos indígenas cometidos pelos grandes proprietários[13], sob aprovação do regime militar,
  • bem como a devastação da floresta amazônica pelo fogo e pelo sangue, para servir de pasto[14].

Este grito profético de um bispo desconhecido, perdido na Amazônia, ressoa na imprensa nacional, mexe o Brasil e toma dimensões internacionais. De agora em diante, na Igreja e fora dela, será preciso considerar esta voz profética, que não cessará de anunciar e denunciar.

Como conclusão destas trinta páginas, Pedro e sua equipe pastoral declaravam que eles só teriam credibilidade na medida em que assumissem, até o fim, as consequências de sua escolha. Em outras palavras, ele dava sentido à sua consagração episcopal, a qual ele definia deste modo:

“ Se a primeira missão do bispo é ser “profeta” e o profeta é aquele que diz a verdade diante de todo um do povo; se ser bispo é ser a voz daqueles que não tem voz, eu não poderia, honestamente, ficar de boca calada ao receber a plenitude do serviço sacerdotal”.

  • Por esta razão, ele será perseguido pelo regime militar, que, várias vezes, tentará extraditá-lo[15].
  • Além disso, continuamente os grandes proprietários de terras e seus apoiadores tentarão eliminá-lo[16].

Para completar, virão as repreensões da Cúria Romana,

  • a qual, num contexto de Guerra Fria, preferirá se alinhar à política norte-americana,
  • deixando de lado as opções de Medellín e da Teologia da Libertação.
  • Pedro torna-se a encarnação de um Davi contra Golias!

Ironia pastoral: se para alguns, ser bispo significa denunciar as injustiças, para outros significa ignorar os conflitos por medo de dividir!

Ora, o grito profético de Pedro ecoa numa Igreja onde o espírito de Medellín se organizava em Comunidades Eclesiais de Base e convidava os pobres a serem os atores de sua própria história.

  • Os inúmeros grupos bíblicos iniciam as comunidades numa releitura da Palavra de Deus,
  • revelando um Deus que liberta seu povo, pois Ele caminha com seu povo. A epopeia libertadora de Moisés torna-se a do povo.
  • Eles consideram Jesus como seu irmão, que anuncia um Reino de Justiça e de Paz.
  • Desta forma, a Bíblia, também se torna subversiva.

Para que a mensagem seja credível, insistia incessantemente Pedro, é necessário criar os meios de uma ação transformadora.

Apesar da repressão, a Igreja do Brasil fez face à situação e se estruturou com audácia para lutar contra o regime ditador. Ela é, nesta época, a única alternativa na denúncia dos excessos cometidos em nome da luta contra os detratores e do, assim chamado, progresso da Nação!

Assim, em 1972, sob o  impulso de Dom Tomás Balduíno[17] e de Dom Pedro, foi criado o CIMI.

Este Conselho, ligado à CNBB, defende os povos indígenas, dando força e vontade de viver às tribos ameaçadas[18].

  • Tal Conselho exercerá uma importante função na elaboração da nova Constituição do Brasil[19], favorecendo o reconhecimento do direito à terra.
  • Esta Constituição permitirá a homologação de algumas terras ancestrais, apesar da oposição do lobby agrícola[20].
  • Assim, uma outra abordagem da presença missionário será pensada e orientada por uma profunda reflexão teológico-antropológica[21].
  • Porém, esta abordagem será questionada pelas correntes de uma compreensão missionária que favorece o proselitismo.

Em maio de 1973, treze bispos do Nordeste publicam um documento intitulado: Ouvi o grito do meu povo e desci para libertá-lo[22].

É uma das mais radicais declarações publicadas por um grupo de bispos, logo acusados de falsos pastores por alguns, mas qualificados de profetas por outros. Este documento denuncia as dramáticas situações pelas quais passava o povo nordestino:

  • cortadores de cana,
  • crianças no trabalho,
  • famílias expulsas de seu pedaço de chão.

Os bispos tornam-se, um após outro, a voz dos sem voz.

Com efeito, as linhas se movem. A Igreja passa da era dos príncipes, dóceis ao trono, para a era dos grandes profetas, encarnados por centenas de pastores. Paulo VI nomeia os bispos em sintonia com o apelo de Medellín e a Opção preferencial pelos pobres. Época dourada da Igreja latino-americana, que ganha cada vez mais força em um continente submisso ao julgo de regimes militares, os quais respondem aos interesses dos Estados Unidos.

Em 1975, Dom Tomas Balduíno e Dom Pedro fundam a Comissão Pastoral da Terra (CPT), também ligada à CNBB.

  • Esta Comissão acompanhará todos os conflitos em defesa dos pequenos agricultores e dará apoio para a criação de sindicatos independentes.
  • Seus advogados conduzirão, diante dos tribunais, aqueles que comandam e executam crimes com o objetivo de eliminar os presidentes dos sindicatos ou os líderes agricultores[23].
  • Todos os anos, a Comissão publica um relatório dos conflitos de terra, com a lista daqueles que foram assassinados.

O número de mártires é impressionante [24]. Pedro lembrará que “um povo ou uma igreja que esquece seus mártires não merece sobreviver”.  Roma não apreciava que lhes fossem atribuído o título de mártires. Será preciso a chegada do Papa Francisco para que fossem enfim abertas as portas do reconhecimento!

Pedro escolheu um tipo de ação que não convém a Roma.

  • Em 1988, ele é interrogado pelo prefeito da Congregação para os Bispos e pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé[25].
  • Retornando ao Brasil, ele recebe um documento do Vaticano, condenando seu trabalho junto aos agricultores e sua ligação com a Teologia da Libertação[26].
  • Não lhe era permitido aprovar escritos de catequese e, sobretudo, continuar viajando pela América Central.
  • A simpatia que tinha pelo governo sandinista, após a visita de João Paulo II na Nicarágua, é inadmissível.

A impressa brasileira publicará o documento, provocando uma imensa onda de solidariedade, cujo efeito será de tornar Pedro uma figura ainda mais carismática e respeitada. O Vaticano tentará esfriar a situação sob pretexto de uma má intepretação de suas advertências. Porém, a história dá voltas.

Agora, é a sociedade brasileira que defenderá a figura do profeta contra a instituição romana.

 

3. Ao olharmos o Sínodo sobre a Amazônia, o que podemos aprender de Pedro Casaldáliga?

Uma pista nos é dada por Dom Neri Tondello, que participou do Sínodo e que acompanhou os funerais de Pedro:

Dom Pedro faz o sínodo antes de nós. E, agora, nós descobrimos este caminho sem retorno. Diante de nós se apresenta uma imensa expectativa de colocar em prática aquilo que Pedro já havia feito 35 anos antes!

            A primeira lição a aprender, se quisermos compreender o poder profético de Pedro, é a seguinte:

  • somente descendo às mais baixas classes sociais, combinando encarnação e kénosis[27] do Cristo, foi que ele descobriu o caminho, lá onde o Sínodo não pode atravessar o Rubicão.
  • Somente aqueles que mergulham na realidade dos excluídos se tornam credíveis.
  • Os debates permanecem frustrantes. As controvérsias de Valladolid[28] nos vêm à memória, nos lembrando que a Igreja ainda precisa de novos Bartolomeus de las Casas.

            Como proteger a Amazônia, sua biodiversidade dizimada pelas invasões, as quais são encorajadas pelo lobby ruralista, e, ao mesmo tempo, proteger os povos indígenas?

Pedro ia direto na raiz do mal:

Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e de amar! Malditas sejam todas as leis, amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois e fazer a Terra escrava e escravos os humanos.

Com certeza, é o sistema que deve mudar, pois continua a tudo devastar para servir aos interesses de poucos em detrimento da Vida. A Amazônia brasileira nunca queimou tanto quanto este ano.

Quanto ao lugar das mulheres e dos leigos na Igreja,

  • Pedro sempre favoreceu a acolhida dos ministérios não ordenados, atento à igualdade entre seus agentes pastorais, por coerência eclesial.
  • Quando das assembleia e conselhos pastorais, o voto do bispo valia tanto quanto aquele dos participantes.
  • Uma Igreja, que se organiza com um sistema clerical ou o favorece, não pode responder aos desafios pastorais.

O modelo das Comunidades Eclesiais de Base, adotado por Pedro, havia simplesmente desclericalizado a estrutura eclesial e respondia às necessidades destas mesmas comunidades.

  • Roma retornará a uma visão mais clerical por medo de ver emergir uma Igreja popular[29].
  • Os evangélicos não demorarão em ocupar o terreno das periferias abandonadas por esta recentralização eclesiológico-pastoral.
  • Ao se substituir as CEB’s por movimentos de orientação mais espiritualista e moralizante, que atraem apenas as classes médias,
  • toda a visão crítica da sociedade será esvaziada e a Igreja, em parte, deixará de ser este elemento de transformação.
  • A religião torna-se assim uma anestesia, a fim de pacificar os conflitos, gerados por este sistema baseado em interesses.

Como gosta de dizer o Papa Francisco:

“o clericalismo apaga, pouco a pouco, o fogo do profetismo”[30].

            Enfim, a questão dos viri probati é um bom exemplo de falso problema, que levou a uma desorientação da verdadeira questão.

  • Será preciso ordenar homens casados para que as comunidades tenham acesso à Eucaristia
  • ou antes reconhecer a validade dos ministérios, nascidos da experiência das Comunidades Eclesiais de Base?
  • Os viri probati, pensados em função de uma eclesiologia que se inspira no modelo romano, não facilita a busca de novos ministérios.
  • Eles representam o risco de reforçar a estrutura clerical, distanciando-se dos outros ministérios, sobretudo os que são exercidos por mulheres.

Sonhar com uma Igreja com rosto amazônico pressupõe que sejamos atentos aos sinais que são suscitados nas comunidades.

  • A prelazia de São Félix sempre funcionou com poucos ministros ordenados, como na diocese de Dom Fragoso (Crateús-CE), no Nordeste,
  • mas com grande número de animadores/animadoras de comunidades.

No que concerne à inculturação,

Pedro sabia que era preciso passar primeiro pelo despojamento. Descido do seu pedestal e desfazendo-se dos aparatos que o diferenciavam da condição humana, o pastor podia encontrar a expressão litúrgica adequada para elevar a oração de todo o seu povo ao seu Senhor, o qual se faz semelhante a nós. Assim era a dinâmica das liturgias das comunidades[31].

4. Pedro: padre, profeta et poeta

  Pedro e Pedro Tierra, seu amigo, este também poeta, compuseram a Missa da Terra-sem-males (1978) e a Missa dos Quilombos (1980), esta última contou com a participação de Milton Nascimento, símbolo dos cantores e cantoras afro-brasileiros. A primeira, faz memória dos povos indígenas, a outra das comunidades negras[32]. A Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos as interditou, argumentando que a celebração da Eucaristia deve ser somente memorial da Morte e da Ressurreição do Senhor e não reivindicação de grupos humanos.

A interdição se explica:

  • após o Vaticano II, a Congregação integrou em sua compreensão da Eucaristia a importância do Mistério Pascal, o que não era presente antes do Concílio.
  • Infelizmente, o progresso na compreensão da Eucaristia fica nisto. Faltava aos censores a experiência de uma descida às realidades da humanidade sofrida,
  • a fim de compreender que o mergulho no Mistério Pascal de Jesus Crucificado, nos imerge também na paixão do escravo negro e na agonia do índio assassinado, para, assim, contemplar, um dia, o rosto do Ressuscitado.
  • A liturgia realiza, desta forma, o que ela anuncia a um povo que está de pé: nós somos o Corpo de Cristo!

 

5. Conclusão

Poderíamos refletir todas as questões e proposições do Sínodo e descobrir o quanto Pedro, porque foi padre, foi profeta e, ademais, poeta. Como podia ele transmitir a agonia dos povos amazônicos, ser sensível à beleza desta Amazônia violada por uma exploração selvagem, sem ser o poeta que faz nascer a Palavra que anuncia e denuncia?

Todo profeta, não deveria ter ele um coração de poeta para transmitir o indizível? A partir de simples frases, ele cria uma Palavra Viva, que reúne, desvela e desperta as consciências. Pela poesia, a mensagem de Pedro reveste-se da carne dos sem voz.

           Francisco o cita em sua exortação pós-sinodal[33]. Seria o sinal de que Pedro entrou no Vaticano?

  • Apesar do retorno de certas correntes conservadoras, nós sabemos que uma outra maneira de ser igreja é possível.
  • Pedro fez a experiência desta igreja durante 50 anos.

Roma

  • perdeu um precioso tempo perseguindo seus profetas
  • e fechou os olhos a muitas situações comprometedoras, pelas quais nós ainda pagamos caro.

Pedro nunca escandalizou um pobre, homem ou mulher, mas, com certeza, escandalizou muitos ricos e intelectuais, como o Nazareno, seu mestre.

            A nós, fica o desafio de tornar seu projeto nosso: “Globalizar a solidariedade”, “Caminhar com uma Esperança Militante”, “Humanizar a humanidade”  

Obrigado Pedro!

François Glory

padre francês, das Missões Estrangeiras de Paris, trabalho  algins anos no Laos, Foi depois destinado ao Brasil e trabalhou por mais de 20 anos na Amazônia, na Diocese de Xingu. Foi coordenador da CPT Pará, foi também coordenador da Grande Região Norte da CPT. Foi membro do Conselho Diretor, função hoje desempenhada pela Coordenação Executiva Nacional. Depois foi professor de Sagrada Escritura na Faculdade Teológica (IESMA) de São Luís.

Fonte: Enviado, via e-mail, pelo autor

 

NOTAS:

[1] Casaldáliga, em catalão, significa: “casa da águia”. Filme: “Descalço sobre a Terre Vermelha”, dir. de Oriol Ferrer.

[2] Palavras de Dom Neri, bispo de Juína, Mato Grosso, em sua homilia durante as exéquias de Dom Pedro.

[3] Cemitério abandonado: lá, as crianças que foram enterradas em caixas de sapato e os homens sem caixão.

[4] Citemos, entre outros: Helder Câmara, Fragoso, Paulo Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Proaño, Samuel Ruiz, Angelli, Luciano de Almeida, e todos aqueles que abraçaram o Pacto das Catacumbas durante e depois do Concílio Vaticano II.

[5]O Papa Paulo VI criou o Prelado de São Félix do Araguaia cuja a administração foi confiada à Congregação dos Claretianos. Tem um território de 150.000 km2. Pedro torna-se bispo desta Prelazia em 27 de agosto de 1971.

[6] Cursilho ou Movimento de Cursilhos de Cristandade é um movimento eclesial de evangelização cristão, estando no centro da ação católica espanhola, no início do século XX.

[7] Durante toda sua vida, ele se recusou a retornar à Espanha e só foi a Roma quando convocado pelo Cúria.

[8] Em 12 de outubro de 1976, em Ribeirão Cascalheira, Pedro e João Bosco Burnier, um missionário jesuíta e indigenista, se dirigiam à delegacia para protestar contra as torturas às quais eram submetidas as mulheres presas. Um dos policiais, furioso diante dos protestos, achando certamente que João Busco seria o bispo, atira em sua nuca. Nove dias após o assassinato, a população invade a delegacia e a incendeia. Um Igreja foi construída em memória dos mártires da América Latina.

[9] A homologação e também a demarcação das terras começaram diante da pressão nacional e internacional após a promulgação da Constituição de 1988.

[10] Expressão para caracterizar a expulsão de pequenos agricultores por capangas.

[11] O documento de trinta páginas deve ter sido, com certeza, imprimido na clandestinidade. A irmã Irene, viajando em um avião militar, o colocou em uma caixa, coberta por um pano, fingindo ser alimento. Ele corria o risco de ser presa.

[12] Sociólogo e escritor, um dos melhores especialistas sobre a Amazônia.

[13] Isentos de impostos, eles arrogam todos os direitos de expulsar as populações nativas de suas terras.

[14] De onde vem a expressão: “o boi caça o homem”.

[15] Paulo VI defendeu Pedro diante dos militares, que não mais concederão o visto para certos padres estrangeiros considerados subversivos.

[16] Aos 80 anos, doente de Parkinson, ele deixa, por um tempo, São Félix, para escapar das ameaças de morte.

[17] Dominicano, bispo de Goiás Velho.

[18] Pedro, chegando a São Félix, encontra três freiras francesas da Congregação de Charles de Foucault, as quais, pela sua presença, deram um novo gosto pela vida à tribo dos Tapirapés, que estavam para ser extintos.

[19] Promulgada em 1988 e conhecida por ser uma das mais longas Constituição no mundo.

[20] Este direito é questionado pelo governo atual de Bolsonaro.

[21] Ver os trabalhos do teólogo Paulo Suess, membro do CIMI. Na época Dom Erwin Kräutler era presidente do CIMI e sua contribuição deve ser destacada.

[22] Ex 3,7-8.

[23]Cf. Burin des Roziers, Henri. Comme une rage de justice: entrevue avec Sabine Rousseau. Paris: Cerf, 2016.

[24] Entre tantos outros: a Irmã Dorothy Stang, os padres Josimo Tavares e Grabriel Maire, e tantos outros.

[25] Cardial Bernadin Gantin et cardial Joseph Ratzinger.

[26] Cf. artigo de Maria Paulo Nascimento Araújo em Mission religieuse ou engagement tiers-mondiste? Dir. d’Olivier Chatelan. Nancy: Ed. Arbe bleu, 2020.

[27] Termo grego para designar o rebaixamento do Cristo em Fl. 2,8.

[28] Debate em torno da escravização indígena durante a colonização espanhola das Américas, no séc. XVI.

[29] Libânio, João Batista.  A volta à grande disciplina. São Paulo: Loyola, 1983

[30] Carta ao cardial Ouellet, em 19/04/206. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2016/documents/papa-francesco_20160319_pont-comm-america-latina.html. Acesso em: 15/12/2020.

[31] As CEB’s e seus compositores, tal como Reginaldo Veloso, produziram um conjunto de cânticos, celebrações, ofícios das horas, inspirados pela poética nordestina. Um obra grandiosa.

[32] Um grupo de bispos celebraram a Missa Terra-sem-males na catedral de São Paulo.

[33] Francisco, Papa. Querida Amazônia: exortação apostólica pós-sinodal ao povo de Deus e a todas as pessoas e boa vontade. São Paulo: Paulus, 2020, nº73, p. 41, nota 12.

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