O Papa já havia dado o alarme sobre o trumpismo. E seu aviso vem de longe. Artigo de Marco Politi

Il Papa aveva già lanciato l’allarme sul trumpismo. E il suo monito viene da lontano

Marco Politi –  11 Janeiro 2021 – Foto: Francisco com Trump / Daqui

“[O Papa Francisco] sabe que em muitas nações os fundamentalistas católicos e evangélicos aderiram aos populistas soberanistas e supremacistas. Mas ele também sabe que – como na crise dos anos 1920 na Alemanha e na Europa – o medo, a desorientação e o deslizamento das massas empobrecidas para o extremismo totalitário se manifestam, diante da crise da ordem social e econômica”, escreve Marco Politi, jornalista, ensaísta italiano e vaticanista, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 09-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

Nenhum alemão culto teria imaginado na década de 1920 que a Alemanha se curvaria ao nazismo. Nenhum estadunidense orgulhoso de seu sistema constitucional teria sonhado na véspera de Ano Novo que seu “Capitólio” seria invadido por esquadrões de extremistas, carregando a bandeira do presidente ainda no cargo.

  • Mas há um homem que há muito já soou o alarme.
  • De forma insistente, lúcida, mas talvez constrangedora também para quem está perto dele, a ponto de preferir ignorar suas denúncias precisas.

Ele não é um cientista político, não é um diplomata, não é um líder de partido. É filho de um emigrante italiano na Argentina, vive em Roma a trabalho. Seu nome é Jorge Mario Bergoglio:

* Bari, 23 de fevereiro de 2020. O Papa fala aos bispos católicos da região mediterrânea reunidos em uma conferência para discutir sobre migração e acolhimento.

  • O tema é pastoral, mas também altamente político.
  • Na Europa e em outros lugares, movimentos e partidos surgiram, vociferando
  • que é preciso se opor aos invasores estrangeiros acusados de querer apagar a identidade nacional.

O vírus da Covid-19 está se espalhando na Europa e desperta medo. O pontífice lembra outro vírus, a praga da ideologia fascista antiliberal que contagiou o século passado.

“Assusta-me – exclama em uma fala de improviso – ouvir alguns discursos de alguns líderes das novas formas de populismo. Parece-me ouvir discursos que semearam ódio na década de 1930”.

O pontífice diz que

“a retórica do choque de civilizações serve apenas para justificar a violência e alimentar o ódio. O não cumprimento ou, em qualquer caso, a fragilidade da política e do sectarismo são causas de radicalismos e terrorismo”.

 

Vaticano, lo “schiaffo” di Papa Francesco a Trump: telefonata di congratulazioni a Biden

Telefonema de Francisco a Biden, se congratulando com sua eleição,  foi um bofetada em Trump– Foto: Francisco com Biden  / Daqui

A intervenção de Francisco não é resultado de improvisação. Há anos, ele observou que entraram em cena movimentos políticos populistas no estilo e na linguagem, imbuídos de ideologia ultranacionalista, supremacista e racista.

  • America first,
  • Primeiro os italianos,  
  • As raízes cristãs da Hungria.

Cada slogan remete a agrupamentos políticos cuja espinha dorsal ideológica consiste

  • em um ataque proclamado às elites
  • e um desprezo substancial pelo sistema constitucional e suas regras democráticas liberais,
  • bem como a denúncia obsessiva de um inimigo externo e interno, uma cultura do ódio
  • que divide o mundo em “Nós”, de um lado, e os “maus” do outro.

Suprematismo e racismo, prática de violência verbal (muitas vezes também física) são seu corolário.

trumpismo e o assalto ao Capitólio estão incluídos nessa mistura ideológica. Mas não existe apenas Trump.

Papa Francisco nos convida a concentrar nossa atenção no que está fervendo em muitas nações. Discursos de ódio e medo, ele enfatiza, me assustam.

Em 2017, em entrevista ao jornal espanhol El País, ele deu o exemplo de Hitler, que chegou ao poder na onda de um medo generalizado, prometendo salvação.

“Hitler – explica ele – não roubou o poder, ele foi votado por seu povo (e depois) destruiu seu povo”.

Em 2018, em um encontro de jovens, o Papa alertou contra os políticos que sopram o fogo da divisão, do ódio e da violência. Francisco bate e insiste na mesma tecla. Como os profetas do Velho Testamento.

Em 2019, falando a um congresso de advogados criminais, ele evoca novamente os discursos de Adolf Hitler e as perseguições contra judeus, ciganos, homossexuais.

“Hoje essas coisas estão renascendo”, adverte.

Os bodes expiatórios podem mudar, mas o paradigma de uma cultura do ódio e do descarte é idêntico.

Ainda em abril de 2020, o Papa volta ao tema, falando com a jornalista Austen Ivereigh:

“Quando você começa a ouvir discursos populistas ou decisões políticas de tipo seletivo, não é difícil lembrar os discursos de Hitler em 1933, mais ou menos os mesmos que alguns políticos fazem hoje”.

Contra Trump e seu projeto de um muro intransponível entre os Estados Unidos e o México, o pontífice argentino já havia se manifestado em 2016, durante a campanha eleitoral do então candidato republicano.

“Uma pessoa que só pensa em construir muros e não pontes não é cristã”,afirmou ele.

Não é por acaso que no último consistório Francisco nomeou cardeal o arcebispo afro-americano de WashingtonWilton Gregory, que havia criticado duramente o presidente Trump que, durante a repressão aos protestos Black Lives Matter (após o assassinato do negro George Floyd por um policial branco que manteve o joelho no seu pescoço), foi ao santuário dedicado a João Paulo II para exibir sua fé.

Uma manipulação

“desconcertante e reprovável … João Paulo II foi um ardente defensor dos direitos humanos”, declarou de imediato D. Gregory.

O alarme lançado pelo Papa Francisco vem de longe.

Se o famoso cientista político francês Marc Lazar insiste em dizer que

  • trumpismo está longe de acabar
  • e que a violenta deriva do populismo é um alerta para os regimes liberal-democráticos,
  • pois se rompeu a relação de confiança entre as instituições e uma parcela considerável do povo,

pontífice argentino está mais do que convencido disso.

Ele sabe que em muitas nações os fundamentalistas católicos e evangélicos aderiram aos populistas soberanistas e supremacistas.

Mas ele também sabe que – como na crise dos anos 1920 na Alemanha e na Europa –

  • o medo, a desorientação
  • e o deslizamento das massas empobrecidas para o extremismo totalitário
  • se manifestam, diante da crise da ordem social e econômica.

Crise em andamento e agravada pela praga da CovidFrancisco já indicou o caminho: uma nova “economia social de mercado”,um desenvolvimento sustentável e o fim da degradação ambiental.

São reflexões que perpassam muitos ambientes. Fabrizio Barca, animador do Fórum Desigualdades e Diversidade, destaca que o ressurgimento de movimentos populistas antidemocráticos se manifesta na presença da fragilidade contemporânea da democracia e no aumento de enormes desigualdades que não parecem permitir perspectivas de resgate.

 

Marco Politi

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/606023-o-papa-ja-havia-dado-o-alarme-sobre-o-trumpismo-e-seu-aviso-vem-de-longe-artigo-de-marco-politi

https://www.ilfattoquotidiano.it/2021/01/09/il-papa-aveva-gia-lanciato-lallarme-sul-trumpismo-e-il-suo-monito-viene-da-lontano/6059171/

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