O SENTIDO DA VIDA. 1. QUEM SOU?

 

Quem sou eu? Não sou coisa. O Homem não é mero objecto. Aí está o enigma, o mistério e a dignidade de um eu a caminho.

 

Ilustração de Vítor Higgs

Anselmo Borges – 28 de Novembro de 2020 – Ilustração de Vítor Higgs

 A presente crise, gigantesca, deveria ser uma oportunidade para pôr de modo mais profundo a questão decisiva do sentido da vida.

Sentido tem a ver com viagem, direcção, meta. Nas estradas, encontramos placas em seta a indicar o caminho para alcançar um destino. Agora, até programamos o GPS que nos levará lá.

 

Qual é o sentido da vida e a sua meta? Num primeiro momento, a resposta parece clara: a vida é um milagre e o seu sentido é ela mesma. O sentido está nela, no viver plenamente, na criatividade do dar e receber, em plena e total inter-relação.

Mas em nós a vida torna-se consciente. O ser humano é autoconsciente, consciente de si mesmo

  • e, por causa da neotenia — ao contrário dos outros animais, não vimos já feitos ao mundo, mas por fazer, sendo a nossa missão fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros —,
  • a questão do sentido da vida torna-se uma questão pessoal, essencial e inevitável.

Não é uma questão adjacente, que possa colocar-se ou não. Ela é constitutiva: ser ser humano é levar consigo esta questão:

  • quem somos?,
  • donde vimos?,
  • para onde vamos?,
  • que devemos fazer?,
  • que sentido dar à existência?

Somos uns com os outros e frente aos outros,

  • mas cada um de nós vive-se a si mesmo como presença de si a si mesmo como um eu único:
  • eu sou eu e não outro.

Coincidimos, portanto, connosco, mas, por outro lado,

  • experienciamo-nos como ainda não plenamente idênticos:
  • somos nós mesmos e somos chamados a ser nós mesmos;
  • num apelo constante a fazermo-nos, estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos.

Lá está a tarefa paradoxal que nos pertence, segundo Píndaro: “Torna-te no que és.”

Precisamente deste paradoxo

  • afinal, o que somos?,
  • quem somos?

Uma vez que estamos essencialmente voltados para o futuro, temos de dizer:

  • eu venho de um passado e sou também resultado desse passado,
  • vivo-me no presente, mas eu ainda não sou plenamente, eu ainda não sou o que serei.

Cá está, portanto, a pergunta — e o ser humano é radicalmente perguntante, porque é perguntado —,

  • a pergunta radical e ineliminável: então o que é que eu sou e quem sou?
  • E esta pergunta não pode deixar de colocar a pergunta pelo sentido da vida,
  • pois está em conexão com ela: só no processo do viver e do ir-me fazendo poderei ir sabendo quem sou.

Mas fazer-me a caminho de quê? Qual é o sentido?

Lá estão as inapagáveis perguntas de I. Kant:

  • “Que posso saber? Que devo fazer? O que é que me é permitido esperar?”.
  • E continua: se pudéssemos responder a estas três perguntas, encontraríamos resposta para a quarta, a decisiva: “O que é o Homem?”
  • Afinal, o que somos e quem somos?

O animal, cuja vida é assegurada por instintos, não faz perguntas. O Homem, porque é autoconsciente, inacabado e livre, precisa de saber em que sentido deve orientar a sua existência e quer saber quem é.

Entre todos os seres da Terra,

  • só o Homem é livre — Kant sugeriu que a liberdade é o divino em nós — e, assim, moral e responsável,
  • só ele tem capacidade de racionalidade abstracta, de autoposse, de opção,
  • só ele se sabe sujeito de obrigações morais para lá dos instintos,
  • só ele pode rir e sorrir,
  • só ele é animal simbólico e simbolizante,
  • só ele pode amar, saber e saber que sabe,
  • só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjectividade pessoal,
  • só ele sabe que é mortal e gasta tempo com os mortos e rituais funerários e espera para lá da morte,
  • só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente,
  • só ele cria instituições jurídicas,
  • só ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito…

Precisamente este conjunto de notas mostra que o ser humano é qualitativa e essencialmente distinto dos outros animais, a diferença não é apenas de grau, mas essencial.

Impõe-se agora perguntar:

  • para que tenha as capacidades que tem e faça tudo o que faz,
  • qual é a sua constituição metafísica?
  • Tem de haver um factor X que está na base de todas estas capacidades.

Tradicionalmente, chamou-se-lhe alma.

Dada a dificuldade, se não impossibilidade, de pensar hoje o dualismo corpo-alma,

  • compreender o Homem para lá desse dualismo, sem cair no monismo idealista nem no reducionismo materialista mecanicista ou biologista,
  • constitui tarefa ingente para a Filosofia.

As investigações etológicas, bioquímicas, da genética, das neurociências

  • constituem hoje talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma concepção verdadeiramente humanista e espiritualista do Homem,
  • por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação no quadro exclusivo do zoológico e bioquímico.

De qualquer forma, ao Homem reflexivo impor-se-á sempre a subjectividade própria:

  • por mais que objective de si, o sujeito humano deparará sempre com o inobjectivável,
  • já que a condição de possibilidade de se conhecer objectivando-se é ele mesmo enquanto sujeito irredutível.

Na reflexão, o Homem é o sujeito e o objecto do conhecimento: sujeito que se conhece como objecto, mas sem se reduzir a objecto. Enquanto sujeito transcenderá, portanto, continuamente a explicação das ciências objectivantes. Para aclarar um pouco a dificuldade do tema, costumo dizer: eu não posso ir à janela ver-me a passar na rua.

Quem sou eu? Não sou coisa. O Homem não é mero objecto. Aí está o enigma, o mistério e a dignidade de um eu a caminho.

 

 

Anselmo Borges

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-nov-2020/o-sentido-da-vida-1-quem-sou-13084069.html?target=conteudo_fechado

 

 

 

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>